Antonieta era a
professora de Ciências Naturais na escola. Ela lecionava para os alunos do
Ensino Básico, ou Ginásio como alguns chamavam. Suas turmas eram da 5ª a 9ª
série. Ela tinha uma deficiência física; uma de suas pernas era maior que a
outra, sendo assim ela foi manca por toda a sua vida. Devido à deficiência, ela
era obcecada pelas leis universais físicas. Quando adolescente, ela contava os passos
de sua casa até a escola, e na vida adulta não foi diferente. Ela sabia de cor
o número de passos de sua casa até o trabalho.
“Mil oitocentos e
quarenta e dois passos”, lembra-se ela.
Ao cursar o
magistério, algo em sua mente mudou.
Inicialmente ela
pretendeu se formar em Física, porém sua obsessão pela física, e principalmente
o seu físico, teve que dar um passo para trás. No momento não havia demanda
para professores de física, e então ela decide parar na matéria que seria a
porta de entrada para outras mais específicas no Ensino Médio.
Assim ela permaneceu
em Ciências Naturais.
Em sala ela se
lembra de sua lição aos alunos. Antonieta ergue um pote com água e óleo e
explica porque os dois não se misturavam. Em outra aula, ela explica sobre os
três estados da água. E por último, ela se lembra da aula em que os alunos olharam
pelo telescópio pela primeira vez.
Ela não ganhava
muito, mas se orgulhava de ser professora. Para ela, lecionar formava os cidadãos
que seriam o futuro de seu país.
§
Antonieta é a
última a chegar. Seu quadril dói. Seus pés doem. Suas pernas doem. Ela não era
estranha à dor; na verdade, ela cresceu com ela.
E vive com ela
até hoje.
Ao abrir o portão,
ela sussurra:
- Mil, oitocentos
e quarenta e dois.
Assim estava
encerrada a contagem até o seu trabalho.
Abotoando o
casaco, ela cruza os braços e caminha até a porta dupla. Fazia frio aquele
outono; os ventos balançavam as árvores e sopravam as folhas. Ocupada em sua
contagem como estava, ela nem percebeu que mal haviam carros nas ruas até a
escola.
Antonieta passa
pela diretoria e entra na sala dos professores.
- Bom dia,
professora! – cumprimenta o carismático Ortega.
- Bom dia,
professor!
- Tudo bem com
você?
Ela faz uma
expressão de cansaço e responde:
- Dolorida como
sempre. Preciso me sentar...
Antonieta passa cumprimentando
a todos e se senta no sofá. O sofá tinha revestimento de couro sintético e,
devido ao frio da manhã, estava todo gelado. Mas devido às suas dores, ela nem
percebe.
Muitos tinham
pena de sua condição física, mas preferiam ficar em silêncio. Os professores
julgavam sua obsessão como um transtorno, e Antonieta não era amigável a
comentários sobre isso. Ela construiu sua vida ao redor dela, tratando-a como
uma extensão de sua identidade. Comentários e críticas a machucavam, preferindo
proteger sua deficiência para evitar uma dor maior que a dor física; a dor
emocional.
Aquela manhã
Ortega decide fazer o café. Ele pega a garrafa e se dirige à porta. Todos notam
sua inquietação; os professores ainda se lembram do sinistro golpe na porta no
dia anterior. Naquela manhã, sair da sala era algo que todos silenciosamente se
recusavam a fazer.
Mas Ortega tenta
disfarçar o medo com seu bom-humor.
- Vou encher a
garrafa. – informa ele – Volto já!
E então o
professor sai pela porta.
- Do que vamos
falar hoje? – pergunta Marcelina.
Os professores
riem em desconforto. Passando o dia inteiro naquela sala sem nada para fazer,
os assuntos se esgotavam.
- Que não seja de
política! – brinca Antonieta.
Todos riem, com
exceção do professor de sociologia.
- Vamos ligar a
televisão. Talvez ainda esteja passando o jornal da manhã. – sugere Concepción.
- Boa ideia!
No jornal, as
primeiras imagens exibem um discurso do novo presidente. Ele discursava em
praça pública mas, para a surpresa dos professores, o presidente não estava
fisicamente presente. O discurso era exibido de um enorme telão. Eles também
olham estarrecidos como a praça estava lotada de espectadores, principalmente
de alunos secundaristas.
Os espectadores
ouviam com atenção e fervor. Os professores se intrigam. Para eles, os
espectadores pareciam hipnotizados pelo novo líder.
- Será que é
possível não falar de política? – ironiza Concepción – Olhem para essa
multidão!
- Sim. – concorda
Lopez – O jeito que ele cativa as massas me lembra os comícios de Nuremberg na
década de 30.
No telão, o
presidente emite imagens de professores invadindo um de seus discursos no dia
anterior. Nas imagens, os professores protestavam, perguntando por que eram
discriminados pelo novo presidente. Eles reivindicavam maior atuação, liberdade
e presença no novo governo.
O protesto gera
indignação e revolta por parte dos alunos, que viam aquilo como um ataque. O
protesto acaba em confusão generalizada, violência e desordem. A polícia é
chamada e os professores são presos. Para a surpresa deles, nenhum aluno é
detido.
Voltando a exibir
o rosto do presidente, ele acusa abertamente os professores de fomentarem
instabilidade, dissensão e divisão em seu governo. Assim ele emite um novo
decreto. A partir de hoje, os professores estão proibidos de comparecem aos
seus comícios. Além disso, os professores também estão proibidos de faltarem ao
trabalho, sendo obrigados a irem trabalhar mesmo que não haja alunos nas
escolas. Aqueles que violarem a lei poderão pegar de um a três anos de prisão
em regime fechado.
Os professores se
estarrecem.
A mídia e o
noticiário pareciam estar ao lado do governo. Jornalistas e especialistas
comentam o novo decreto; todos elogiam o presidente. Entrevistando juízes e
magistrados, eles também o elogiam. Ninguém se opunha ao novo líder.
O jornal então
prossegue com outras notícias.
Na sala dos
professores, eles estão em silêncio, chocados com o que acabaram de assistir.
Lopez comenta:
- Esta foi uma
medida draconiana, um autoritarismo bárbaro por parte do novo líder...!
- Foi isso mesmo
o que eu entendi? – se pergunta Marcelina – Então agora estamos proibidos de
não vir trabalhar?
- Isso é loucura!
– indigna-se Antonieta.
Um minuto depois,
Ortega volta à sala e, aos vê-los em silêncio, pergunta:
- O que eu perdi?
- A partir de
hoje estamos proibidos de não vir trabalhar. – responde Marcelina.
- O quê...?!
- É verdade. O
não cumprimento é passivo de prisão. Palavras do novo presidente. – complementa
Lopez.
Ortega ri, não
conseguindo acreditar que aquilo era verdade.
- Mas por quê? –
pergunta ele – Por que ele faria isso?
- Houve um
protesto em seu último comício. Professores apareceram e reivindicaram maior
participação no governo. O protesto virou um tumulto e eles foram presos. –
responde Max.
- E a culpa é
toda nossa? – ironiza ele.
- Para o
presidente, sim.
Ortega ri
novamente.
- Meu Deus...
Ainda é seu primeiro ano de mandato e só piora...
§
Meio-dia.
Chegando a hora
de almoço, Ortega brinca:
- É hora do
recreio!
- Onde está a
inspetora para tocar o sinal? – brinca Marcelina.
- Ah,
provavelmente no comício do presidente...!
Todos riem.
Suas marmitas
estão na copa ao lado. Abrindo a geladeira, eles pegam seus almoços e se
dirigem ao micro-ondas. Então Antonieta sugere:
- Que tal a gente
ir comer no pátio? A gente poderia passear pela escola, em seguida.
- Eu acho uma boa
ideia. – responde Max – Eu sinceramente não estou aguentando mais passar o dia
inteiro nessa sala...
- Vamos então.
Marcelina
intervém.
- Podem ir, se
quiserem. Eu vou pedir meu almoço pelo aplicativo.
Os professores
assentem e então saem.
Sozinha na sala,
a professora de física então pede a sua comida. Primeiro ela tenta o
restaurante de sempre. Ela aguarda a resposta e se assusta com o que vê. O
restaurante informa que não atende mais a escola. Tentando outro, eles
questionam se era da escola e também rejeitam atendê-la. Na terceira, ela diz
que é da escola e, ao ser questionada ser professora, eles simplesmente
encerram a ligação. Marcelina fica sem entender o que está acontecendo.
Ao contatar o
quarto restaurante, eles finalmente aceitam atendê-la.
Trinta minutos
depois, o entregador chega.
Como
habitualmente, ventava muito naquela tarde de outono. Marcelina se dirige ao
portão e o abre. O entregador era um adolescente de boné, pele oleosa e olhar
sério; definitivamente um aluno secundarista. A professora o cumprimenta.
- Boa tarde!
Mas não há
resposta.
Estendendo a mão
para pegar o pacote, o jovem hesita em entregar-lhe, parecendo sentir desprezo.
Ela pergunta:
- Mas o que é que
está acontecendo? Nenhum restaurante queria atender a escola hoje!
- Eu não sabia
que era para a escola, senão eu também não teria vindo.
A professora se intriga.
- Mas por quê? Há
alguma coisa errada com a escola?
De maneira rude,
o jovem responde:
- Não te
interessa.
- Ora, mas que
grosseria! – espanta-se ela – Sua mãe deveria te ensinar boas maneiras, viu? –
e então ela toma o pacote de sua mão – Eu vou fazer uma queixa pelo mau
atendimento!
- As queixas já
foram feitas, senhora. Agora é hora do acerto de contas.
Com a resposta
obscura, Marcelina se confunde.
- Do que você
está falando?
Mas o aluno não lhe
responde. Dando-lhe as costas, ele simplesmente monta em sua moto e vai embora.
§
Os demais
professores almoçam no pátio. Eles se sentam à uma mesa grande e retangular,
usada outrora pelos alunos do ano letivo. Mas a escola estava há tanto tempo
sem alunos que parecia ter se passado anos desde a última aula ministrada ali.
Para eles era
muito estranho o pátio vazio. Geralmente ele estava cheio de alunos, com
correria, brincadeiras e gritos, desde crianças até adolescentes. Ninguém estava
preparado quando o novo governo chegou. Agora tudo estava estranhamente
pacífico.
A cozinha e a
cantina estavam fechadas há semanas. Os professores sentiam falta de ter o que
comprar. A merenda escolar, que alguns criticavam pela qualidade, também lhes
fazia falta, pois alguns comiam quando esqueciam suas marmitas em casa.
Mas tudo aquilo
era apenas uma memória agora.
A escola estava
vazia. Com a chegada do outono, ela também estava fria e escura. A solidão
percorria os corredores vazios. Nas salas de aula, sombras escondiam a poeira
nas carteiras. O único movimento que eles viam eram o das cortinas, que
balançavam sinistramente com o vento. Nenhum som podia ser ouvido. Às vezes as
aves pousavam no telhado acima, mas só. Mas o ranger repentino da madeira era
totalmente ignorado por eles. Os professores se recusavam a considerar que
alguém escondido nos cantos escuros os espreitava. Negar o medo lhes conservava
a sanidade. E desta maneira eles prosseguiam seus dias.
Levantando-se,
eles se limpam, lavam suas vasilhas e se retiram. Antigamente alguns ficavam na
escadaria do pátio para fumar cigarro, mas após o bizarro evento de ontem,
ninguém se atreveu a ficar sozinho de novo.
De volta à sala, eles
encontram Marcelina com expressão irritada no canto da sala. Eles se intrigam.
Max
pergunta:
- Algum problema,
professora?
- Eu fui
destratada pelo entregador, acreditam?! – indigna-se ela.
- Por quê? O que
aconteceu?
- Ele disse que
se recusaria a entregar nessa escola de novo! E que o nosso acerto de contas ia
chegar!
- Acerto de
contas? Mas do que é que ele estava falando?
- Eu não sei! –
exclama ela – Mas eu fiquei com medo! Eu me senti ameaçada!
Avançando,
Antonieta pergunta:
- Como ele era?
- Pela idade, um
aluno.
- Desta escola?
- Eu não sei. Eu
nunca o vi aqui. Se for desta escola, talvez seja do período noturno.
- Mas ele te fez
alguma coisa? – pergunta Concepción – Te agrediu ou coisa assim?
- Felizmente não.
Foi apenas o transtorno, mesmo.
Os professores se
tranquilizam.
Apesar da
situação deixá-los apreensivos, eles tentam passar o resto da tarde
normalmente.
§
O fim do
expediente se aproxima. A lembrança do dia anterior ainda assombra suas mentes.
Todos se lembram, mas todos ficam igualmente em silêncio.
Marcelina pega a
chave da porta e, antes que pudesse girar a maçaneta, eles escutam um ruído
vindo da rua.
Dirigindo-se à
janela, os professores espiam atentamente. Um grupo incomum de motos passa pela
rua. Eram motos pequenas e de baixa cilindrada. Os motoqueiros passam
lentamente, acelerando e fazendo barulho. Os passageiros na garupa seguram
faixas e bandeiras políticas. Os professores reconhecem as cores do partido do
presidente. Suas faces estão ocultadas por capacetes de viseira escura, e
aqueles que não estão de capacete usam capuzes e máscaras.
Os motoqueiros
lançam olhares ameaçadores à escola. Eles dão a volta no quarteirão e param em
frente ao portão de entrada. Enquanto rondam, eles empinam e aceleram alto, incomodando
com o barulho ensurdecedor dos escapamentos.
Em certo momento,
o grupo brada um nome inconfundível; era o nome do presidente. Pelas vozes eles
também percebem que o grupo era composto adolescentes, na maioria alunos
secundaristas.
A arruaça dura
alguns minutos. Durante esse tempo, nenhum dos professores tem coragem de sair
da escola. Então, com a chegada da noite, o grupo finalmente se dispersa e os
motoqueiros vão embora.
- Mas o que foi
aquilo? – pergunta Lopez – Quem eram esses jovens?
- Me parecia uma
milícia. – sugere Max.
- Você acha que
eles estavam aqui para nos atacar?
- Eu não sei, mas
definitivamente eram hostis.
Concepción os
interrompe dizendo:
- Não podemos
ficar aqui. Nós temos que ir embora também.
- Concordo. – diz
Marcelina – Eu estou cansada. Eu quero ir para casa!
Todos concordam.
- E se eles
voltarem? – pergunta Arruda.
Eles temem.
- Só há um jeito
de saber.
Então, pouco a
pouco, os professores deixam a sala e se dirigem ao estacionamento. Eles entram
em seus carros e, um a um, deixam a escola. Mesmo Antonieta, que gostava de
voltar andando apesar da dor, pega uma carona e vai embora.
E assim termina
mais um dia em Santo Pároco.






