Em 2030 ocorre uma
troca de regime.
Em um certo país
da América Latina, o novo presidente eleito recebe apoio massivo da população.
Misturando populismo com progressismo, ele promete apoio ao empresariado sem se
esquecer das causas trabalhistas. Nos canais de comunicação, a imprensa se
refere a ele como o “novo líder”, um homem carismático, determinado e firme em
seus objetivos.
A população o via
como uma esperança; um político preocupado em erradicar a pobreza e estimular a
qualidade de vida. Mas as classes intelectuais não o viam desta maneira; eles
viam apenas um oportunista, um mais do mesmo, carregado de falsas promessas e demagogia.
O novo líder era
um homem de cabelos pretos, bigode, estatura média e geralmente vestindo terno
e gravata. Não havia nada demais em sua aparência. Atrás do palanque, ele
discursava com olhar sério, direto e sucinto em suas palavras, com expressão
até um pouco enérgica. A população parecia hipnotizada. No presidente as
classes antagônicas se uniam em uma união ideológica improvável. O modo como
ele conduzia as massas espantava os especialistas da imprensa, fazendo-o ser
visto pela classe intelectual com mais e mais desconfiança.
O tempo passa.
Após sua eleição,
seus discursos se tornam mais efusivos nos canais de comunicação. Postes e
praças também foram usados. Além da televisão e da internet, o novo regime instalara
alto-falantes.
Algo inusitado
acontece. Alunos do colegial são convocados a participar dos comícios do novo
líder. Organizados pelo partido, os comícios se espalham por todo o país e
telões são instalados para a transmissão dos discursos. Estranhamente o
presidente nunca era visto em público, seja na capital federativa ou no palácio
presidencial. Ele era apenas assistido nos telões.
No começo as
convocações eram voluntárias, mas com o tempo passam a ser obrigatórias. Para a
surpresa dos professores, os alunos não se rebelam contra a medida, mas passam
a desejar participa-los. Os professores, porém, não eram convocados. Ao
contrário dos alunos, eles foram obrigados a continuar indo trabalhar. Isto
gerou desconfiança, pois eles compareciam às escolas, mas as escolas estavam
sempre vazias. Não haviam alunos nas salas de aula; durante todo o período
letivo, os alunos participavam dos comícios.
Após um tempo, os
professores passam a ser proibidos de comparecer nas convocações. Se tentassem,
eles eram impedidos por força policial. Cada vez mais empurrados para longe do
novo líder, o corpo docente se viu empurrado de volta para as escolas, onde
eram obrigados a irem trabalhar.
Mas... para quem
ministrar suas aulas se não haviam alunos nas salas de aula?
Assim eles
passavam o dia inteiro na sala dos professores.






