sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A Sala dos Professores - 02 - Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau

 


(Imagem da Escola Bispo em Jundiaí-SP)


Concepción passa pelo portão e entra na escola. Aquela era uma escola estadual de primeiro e segundo grau da qual ele lecionava há quase duas décadas. Há um pequeno pátio cimentado até o prédio principal. Ela o atravessa e alcança a velha porta dupla de madeira e vidro. Um estralo alto se forma ao fecha-la, como se tivessem lançado tralhas em uma caçamba de entulho. O estralo sempre a incomodou, mas agora há um detalhe que agrava o seu incômodo. A escola estava vazia, e qualquer som ecoava pelas salas e corredores vazios.  

Olhando para a diretoria, ela a encontra vazia. Novamente a diretora não foi trabalhar. Ela estranha; após uma semana desde a posse do novo presidente, ela não via mais a diretora na escola.

Virando-se, ele segue para a sala dos professores.

- Olá, Concepción! Como vai a nossa professora de línguas preferida?

Um homem de cabelos negros, um pouco longos, e óculos a cumprimenta. Era o professor de Sociologia.

- Bom dia, Max. Como vai?

A sala estava movimentada, haviam mais de dez professores. De tanta gente, faltava espaço para descansarem. Mas não havia mais necessidade de descanso, pois não haviam mais aulas para ministrar.

Alguém se levanta e pergunta:

- Ei, cadê o café...?

Ele se vira e acidentalmente se esbarra na professora. Eles se olham e Concepción vê um homem alto, um pouco calvo, usando uma camisa um pouco apertada para sua barriga sobressaliente. Era o professor de Geografia.

- Mil perdões, professora! Foi sem querer.

O homem sorri para ela.

- Tudo bem, Ortega. Não foi nada. – tranquiliza ela.

- Estou querendo café. Você sabe se tem café?

- Não tem. – responde alguém no outro lado da sala – Ainda não foram fazer.

Concepción vê um homem de paletó, cabelos lisos, mas grisalhos. Era o professor de História.

- Pois permita-me ir fazê-lo, Lopez. Não consigo passar mais um dia nessa escola nesse tédio de não ter o que fazer. Preciso de um café. – responde o professor de geografia – Onde está a cafeteira?

- Não, não precisa ir. – interrompe Concepción – Deixe que eu mesma faço.

Ortega e Lopez se intrigam.

- Onde estariam meus modos se eu deixasse, professora? 

- Não tem problema, Ortega. Eu preciso mesmo ir ao pátio do refeitório.

O professor sorri, assentindo. Então Concepción pega a garrafa da cafeteira e deixa a sala dos professores.

Novamente no lado de fora, ela respira fundo e enxuga o suor de sua testa. Concepción não gosta de muita gente em espaços confinados, pois o aperto lhe causa sufoco e ansiedade. Ali fora, ela sentia alívio.

Mas o alívio dura pouco.

No corredor, ela dá dois passos e se paralisa. Uma brisa fria passa em suas pernas e sua nuca. Ela olha para frente e vê o longo corredor se esticando até acabar em uma escadaria deserta e escura. Nas janelas, as cortinas balançavam sutilmente com o vento, movendo-se vagarosamente como o flutuar de um fantasma.

A porta para o refeitório ficava mais a frente, mas ela não consegue avançar pelo sinistro corredor. No silêncio da escola, qualquer barulho ecoava pelos cantos, percorrendo as paredes e estremecendo os seus ossos. Mais um pouco de atenção e ela poderia ouvir vozes, sussurros e até gritos dos mortos vindos da escuridão.

Aquilo era a premonição de algo muito ruim.

Apertando a sua blusa, ela afasta os pensamentos e caminha assim mesmo. Concepción era uma mulher adulta, madura e sem tempo para medos infantis.  

Os passos retumbam pela escola até o pátio do refeitório. Chegando lá ela o encontra igualmente fúnebre. As janelas estavam entreabertas, permitindo a entrada do vento frio; os longos bancos de madeira estavam desalinhados e acumulavam poeira; a porta giratória da cantina balançava levemente com o vento; as paredes tinham pichações e a tinta se descascava gradualmente; e a cozinha não era visitada por dias.

Concepcíon se dirige à pia dos alunos. Haviam seis torneiras no total. Havia um longo espelho na parede, mas ela evita olhá-lo. Ela abre a torneira e pacientemente espera a garrafa se encher. De repente algo a assusta. Pelo reflexo do espelho, ela tem a impressão de ver alguma coisa passar muito rápido atrás dela. Ela se vira rapidamente, mas não havia ninguém.

Acalmando-se, ela se vira para fechar a torneira e intenta ir embora. Mas sem poder evitar, ela se contempla no espelho.

Concepción era uma mulher de meia idade. Seus cabelos eram loiros e grisalhos. Seus óculos estavam pendurados no seu pescoço e seus dentes estavam amarelados devido a cafeína. Ela não era feia, mas se achava feia e velha. Divorciada, ela tinha dois filhos, Hugo e Alejandro, e achava que nunca mais ia casar. Para ela, nenhum homem iria querer uma mulher de dois filhos beirando os cinquenta. Ela tenta se convencer que estar solteira é melhor do que em um novo casamento, mas a solidão lhe apertava o peito e lhe rasgava a alma. Sozinha e com dois filhos para criar, ela compensava neles o seu amor materno, sua carência amorosa e seu propósito de vida.

De volta à sala dos professores, ela põe a garrafa e liga a cafeteira. O aparelho faz tudo sozinho e ela apenas aguarda olhando pela janela. Os professores conversavam atrás dela, mas ela não participa, preferindo ficar um pouco sozinha.

Concepción nota que a vizinhança estava muito vazia. Não haviam carros passando e nem pedestres. Os alunos, apesar de bagunceiros e barulhentos, davam vida à escola e à vizinhança, mas hoje a energia de sua juventude lhe fazia falta. O que ela via era apenas um dia frio, cinzento, cujos vento varria as folhas secas das árvores no outono. 

De repente alguém atrás dela pergunta:

- A vizinhança está vazia, não?

Ela se vira e vê o professor de História atrás dela.

- Sim, Lopez. Muito vazia.

- O que será que houve com as pessoas? Não vejo nem os adultos nas ruas.

- Eu também não sei, professor. Me parece que somos os únicos adultos no bairro todo.

Alguém liga a televisão atrás deles e eles veem uma vinheta peculiar. O professor de geografia diz:

- É o pronunciamento oficial do novo presidente!

  Sobre o palanque, o novo presidente estava acompanhado de seu conselho de ministros. Antes do discurso, ele lançava um olhar sério para os jornalistas, como se os inspecionasse. Seus cabelos pretos e bigode lhe davam a aparência de um militar, mas seu terno e gravata lhe aparentavam apenas um civil. Na plateia, milhares de estudantes compareciam na coletiva de imprensa, na maioria alunos secundaristas.

- Ei, o meu filho está ali! – comenta Max.

- As minhas filhas também. – diz Ortega.

De fato, os filhos de quase todos os professores estavam naquela coletiva.

- Meus filhos gostam muito dele. Dizem que ele os ensina sobre honestidade e cidadania. – comenta Lopez – Fico feliz que o presidente esteja fazendo algo de positivo pelos jovens do país.

Concepción também enxerga isso, pois seus filhos também se afeiçoaram ao novo presidente.

O discurso começa. O presidente prometia mudanças abruptas no país. Ele não revelava exatamente o que mudaria, mas suas palavras carregavam perigosa convicção. Avançando, ele profere discursos cada vez mais efusivos contra os inimigos do novo regime, os chamados “doutrinadores” do antigo regime. Então, para a surpresa de todos, ele cita abertamente os professores. Ele prometia que na nova era de seu mandato, os doutrinadores seriam esmagados pelo alvorecer de algo novo.

 E neste momento os professores se assustam.

O presidente criticava as ideologias, chamando-as de veneno da mente. Ele denunciava a sua alienação, prejudicando a consciência e o esclarecimento político, sobretudo da juventude. Para ele, não era o suficiente a regulação das redes sociais e da mídia, mas estreita vigilância sobre aqueles que propagavam as ideologias nas salas de aula. Ele novamente atacava os professores.

Então o presidente prossegue em seu discurso, falando sobre meio ambiente, economia e relações internacionais.

Um silêncio pesado paira na sala. Os professores, que momentos antes o admiravam por ele despertar o interesse político em seus filhos, agora o antagonizavam em pensamento.

Concepción quebra o silêncio e diz:

- Talvez este seja um discurso inicial do novo presidente. Talvez ele não queira realmente dizer isso.

- E como não? – discorda Ortega – Ele citou claramente a nós, os professores!

- Isso para mim se parece com o discurso de um ditador! – critica Lopez.

- O presidente nos atacou abertamente, nos chamando de “doutrinadores do velho regime”. E o que virá depois? Ataque ao voto feminino?

Então Concepción e as demais professoras se incomodam. Junto dela, eram mulheres as professoras de ciências naturais, física, química e biologia.

- Eu não duvido. Ele criticou a alienação ideológica, mas é ele envenenando a juventude com, adivinhem, alienação ideológica! – ironiza Ortega.

Os professores concordam. Então Max altivamente os interrompe, perguntando:

- E o que é ideologia?

Todos se confundem.

- O que disse? – pergunta Ortega.

- O que é ideologia, meu caro geógrafo? – responde ele, sorrindo – Segundo a Sociologia, é uma organização de ideias fundamentadas por um determinado grupo social, geralmente um comitê ou um partido. Ela se caracteriza por interesses políticos para fins institucionais, ou seja, aplica-los em organismos públicos estabelecidos por meios de leis e estatutos, como os órgãos governamentais. Ademais, as instituições visam atender as necessidades da sociedade, organizando e regulando o comportamento das pessoas.

- E o que isso quer dizer, Max? Está insinuando que o presidente quer introduzir sua ideologia nas instituições públicas? – pergunta Ortega.

- Eu não sei. Talvez. Ainda não podemos dizer. – responde ele – O presidente pode ser tanto marxista, contendo ideias de aspirações progressistas ou revolucionárias do proletariado, como a consciência de classe; quanto um neoliberal, defendendo ou até protegendo os interesses econômicos da burguesia. De qualquer forma, ele precisa de uma ideologia concisa que arregimente a juventude, incutindo-lhes acerbada importância e usando-lhes como massa de manobra. Ainda é muito cedo para dizer.   

Alguns professores concordam. Outros se mantém em silêncio.

Havia um homem quieto na sala. Ele tinha a pele morena, cabelos duros e era magro. Aquele era o professor de Filosofia. 

Ortega olha para ele pergunta:

- O que você acha, Arruda?

- Bem, pela ótica da filosofia – começa ele –, eu diria que a ideologia tem origem nas noções sensoriais do indivíduo, a partir de sua compreensão do mundo externo. Ou seja, o autor usa como base suas experiências para a coleta dados de pessoas que passaram por experiências semelhantes, assim criando uma teoria que corrobore sua própria visão de mundo. Ideologia é coletiva, mas se originou de um indivíduo, que identificou em um grupo os mesmos problemas, ou até os convenceu de que todos os enfrentavam mutuamente, assim arregimentando-os para a causa. Tudo depende do nível de honestidade do autor.

Max se intriga.

- Está dizendo que as ideologias podem ser falsas fabricações?

- Eu também não sei, professor. Mas ideologias políticas podem ser usadas para fins egoístas. Aliás, o egoísmo é característico do ser humano. Usamos as virtudes para o bem ou para o mal. Tudo pode ser falso nas palavras de um bom orador.

- Não são falsos os problemas sociais que enfrentamos. Fome, violência, desemprego, pobreza... As ideologias são um meio político de conscientização. A sociedade não deve ser tratada como um corpo que, quando doente, aplica-se o remédio no local exato da dor. Não. Ela deve ser tratada na qualidade da nutrição para que, ao conscientizar os indivíduos do que eles consomem, nunca mais precisem tomar remédios.

Arruda sorri.

- Esta é uma boa analogia, Max, mas eu tenho outra. Imagine uma garrafa de refrigerante. Ideologia é como uma garrafa que em seu rótulo está escrito inúmeras verdades, mas que em seu conteúdo há incontáveis mentiras. Por isso eu afirmei: seres humanos são egoístas e podem usar até suas virtudes para praticar o mal. 

Então os professores se dividem. Alguns acreditam que a educação ideológica pode transformar a sociedade; outros acreditam que a sociedade pode sofrer com a ideologia errada.

Percebendo que um longo debate se iniciava, Lopez puxa Concepción pela mão e diz:

- Já vi que isso vai ser desgastante. Quer tomar um café?

 

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A Sala dos Professores - 01 - Introdução

 


(Fonte desconhecida)


Em 2030 ocorre uma troca de regime.

Em um certo país da América Latina, o novo presidente eleito recebe apoio massivo da população. Misturando populismo com progressismo, ele promete apoio ao empresariado sem se esquecer das causas trabalhistas. Nos canais de comunicação, a imprensa se refere a ele como o “novo líder”, um homem carismático, determinado e firme em seus objetivos.

A população o via como uma esperança; um político preocupado em erradicar a pobreza e estimular a qualidade de vida. Mas as classes intelectuais não o viam desta maneira; eles viam apenas um oportunista, um "mais do mesmo", carregado de falsas promessas e demagogia.

O novo líder era um homem de cabelos pretos, bigode, estatura média e geralmente vestindo terno e gravata. Não havia nada demais em sua aparência. Atrás do palanque, ele discursava com olhar sério, direto e sucinto em suas palavras, com expressão até um pouco enérgica. A população parecia hipnotizada. No presidente as alas antagônicas se uniam em uma união ideológica improvável. O modo como ele conduzia as massas espantava os especialistas da imprensa, fazendo-o ser visto com mais e mais desconfiança.

O tempo passa.

Após sua eleição, seus discursos se tornam mais efusivos nos canais de comunicação. Postes e praças também foram usados. Além da televisão e da internet, o novo regime empregara carros de som e alto-falantes.

Algo inusitado acontece. Alunos do colegial são convocados a participar dos comícios do novo líder. Organizados pelo partido, os comícios se espalham por todo o país e telões são instalados para a transmissão dos discursos. Estranhamente o presidente nunca era visto em público, seja na capital federativa ou no palácio presidencial. Ele era apenas assistido nos telões.  

No começo as convocações eram voluntárias, mas com o tempo passam a ser obrigatórias. Para a surpresa dos professores, os alunos não se rebelam contra a medida, mas passam a desejar participa-los. Os professores, porém, não eram convocados. Ao contrário dos alunos, eles foram obrigados a continuar indo trabalhar. Isto gerou desconfiança, pois eles compareciam às escolas, mas as escolas estavam sempre vazias. Não haviam alunos nas salas de aula; durante todo o período letivo, os alunos estavam nos comícios.

Após um tempo, os professores passam a ser proibidos de comparecer nas convocações. Se tentassem, eles eram impedidos por força policial. Cada vez mais empurrados para longe do presidente, o corpo docente se viu empurrado de volta às escolas, onde eram obrigados a ir trabalhar.

Mas... para quem ministrar as aulas se não haviam alunos nas salas de aula?

Assim eles passavam o dia inteiro na sala dos professores.

 

  

domingo, 26 de janeiro de 2025

Sad in Paradise

 


(image from Dead Tempo Visions page)

 

I died

 

I followed the light


Where is Jesus? 

Where is God?

Where´s my grandmother who passed away?

 

Where is everyone?

Why does the silence here is absolute?

 

Where are the other saved ones?

My little dog who died long ago?

Or my cat that has disappeared?

 

Salvation can´t be that

Disappointment and lamentation torment me

In indignation I see

That the shepherds lied

 

I am tormented by aberrations

That chase me during the day

And stalk me at night

 

Who are these terrifying entities?

Why there are no angels here?

Why do they look like demons here?

 

In the sky of my despair

The clouds move slowly

In their omnipresent contempt

 

Rivers that run through canals

But they doesn't go anywhere

The waters take my hope away

And also keep me locked in this dead city

 

Open fields

But there's no one around

Deserted corridors

The aberrations I see

In houses of concrete

I hear their ghostly echoes

 

There's a very beautiful garden

But it's deserted and depressing

By the ghost of an old woman

With long hair and dresses

It's daily protected

 

I think her son drowned in these lakes

For her spirit floats above the waters

And on the banks she cries

Curved in her own embrace

 

I look at my body

It seems like I'm a child again

I want my mother so much

I sink into hopelessness

 

I sit in a corner

And hug my little knees

Mommy

Will you come to pick me up?

I'm so scared

I don't want to be here anymore

 

I don't want to be sad anymore

 

And that's how I feel

Without my family

Without my friends

 

Alone

 

Sad in paradise

 



terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Triste no Paraíso

 


(Imagem da página Dead Tempo Visions)


Eu morri 


Eu segui a luz 


Onde está Jesus?

Onde está Deus?

Onde está minha avó que já morreu?


Onde está todo mundo? 

Por que aqui o silêncio é absoluto?


Onde estão os outros salvos?

O meu cachorrinho que já morreu?

Ou o meu gato que desapareceu?


A salvação não pode ser isso

A decepção e a lamentação me martirizam

Em indignação eu vejo

Que os pastores mentiram 


Sou atormentado por aberrações 

Que me perseguem de dia

E que me espreitam à noite 


Quem são essas entidades aterradoras?

Por que aqui não tem os anjos?

Por que aqui elas têm feição de demônios?


No céu do meu desespero 

As nuvens se movem lentamente 

Em seu desprezo onipresente 


Rios que correm por canais 

Mas que não vão para lugar algum 

As águas levam minha esperança embora 

E também me encerram nessa cidade morta


Campos abertos 

Mas não há ninguém por perto

Corredores desertos 

As aberrações eu enxergo

Casas de concreto 

Ouço seus fantasmagóricos ecos 


Há um jardim bem bonito 

Mas é deserto e depressivo 

Pelo fantasma de uma mulher velha

De longos cabelos e vestidos 

Ele é diariamente protegido 


Acho que seu filho se afogou nesses lagos

Pois seu espírito flutua sobre as águas 

E nas margens ela chora

Encurvada em seu próprio abraço 


Olho para o meu corpo 

Parece que voltei a ser criança

Queria tanto a minha mãe 

Eu me afundo em desesperança 


Me sento em um cantinho 

E abraço meus joelhinhos 

Mamãe 

Você vem buscar?

Estou tão assustado 

Aqui eu não quero mais estar 


Triste eu não quero mais ficar


E é assim que eu me sinto

Sem minha família

Sem meus amigos 


Sozinho 


Triste no paraíso 



quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Uma Alma a Mais (para Satanás)



(Arte de _gordiart_)


Juvenal estava cansado de se masturbar 

Então decide vender sua alma 

E fazer um pacto com o diabo 

Para se esbaldar de transar 


O bruxo era um homem estranho 

Rosto pálido sob seu negro manto

Anéis mágicos em seus dedos ossudos

Colares com ossos de podres defuntos 


Promessas de orgias 

Lhe são oferecidas 

Com as prostitutas mais lindas 

Mulheres casadas e adúlteras

Mães solteiras e vagabundas


Viciadas em drogas 

Irremediáveis alcóolatras

Usuárias de crack 

Cheias de pecados da carne


Orgasmo constante 

Ejaculação pulsante 

Luxúria para toda a vida 

Para uma alma corrompida


"E com meus poderes outorgados por Satã"

"Poderei corromper até as mulheres cristãs"


Juvenal mal pode esperar 

Para satisfazer sua lascívia 

Com viúvas vadias 

E adolescentes promíscuas


Sob o cemitério sepulcral 

Começa o sacrílego ritual


No salão subterrâneo

Um estranho tipo de bruxaria 

Com incensos, velas

Tambores e danças místicas


Velas pretas e vermelhas 

Espalhadas ao redor da mesa

As vermelhas simbolizam o sangue 

As pretas simbolizam as trevas


Carcaças de animais sacrificados 

Empesteavam com um cheiro insuportável 

Terrível cova profunda 

Atraído para a escuridão pútrida 


Juvenal é traído 

O bruxo queria seu sacrifício 

Ele não consegue entender 

Mas era tarde demais para se arrepender 


Na mesa do sacrifício 

Pedaços de ferro preparados 

Para penetrar em seus orifícios 

Para o prazer do bruxo 

O satânico padre obscuro


"Você não sairá da mesa da morte"

Será desmembrado com golpes de machado e serrote"


O bruxo ordena

"Amarrem esse pervertido" 

"Reles maníaco sexual"

"Sua única orgia"

"Será no fogo infernal"


Os cultistas o despem a força 

E o amarram completamente nu sobre a mesa 

Juvenal se urinava de medo 

Respiração ofegante e intensa


Juvenal tenta se soltar 

E então ele ouve o bruxo exclamar

"Não adianta tentar se salvar"

"Tua alma não se escapará!"

 

O bruxo ergue sua adaga 

E possuído de espíritos ele brada

"Rei negro, dá-nos poder satânico" 

"Para sacrificar este porco asqueroso"


Com língua maculada de blasfêmias 

O bruxo profere sua sentença 

"Uma alma a mais para Satanás"


Antes que Juvenal fosse sacrificado 

Deitado sobre aquele altar abominável 

Seu tornozelo se solta da trave

E ele chuta o bruxo na face


Os cultistas deviam estar em transe 

Se contorciam e vociferavam a todo instante 

Estavam possuídos de espíritos demoníacos

Juvenal se solta e foge do ritual sacrílego 


Dias se passam desde a profanação 

Juvenal ainda temia sua condenação

A ideia de vender sua alma ele deixa para trás 

Ainda não era o momento dele se encontrar com Satanás 


Mas seu vício ainda consumia sua mente 

Juvenal era um pervertido doente 

E antes mesmo dele superar aquele horror 

Ele decide voltar aos seus vídeos pornôs



sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Botas até os Joelhos


(Imagem do site lojasbrunelle.com)


Essas meninas de pouca idade 

Estão sempre tentando provar 

Para si mesmas e para os outros 

A atenção que elas podem chamar 


Eu não tenho tempo para provar 

E tampouco para desperdiçar 

O que eu quero eu vou buscar 

O meu sorriso a todos pode conquistar 


Então eu visto minhas botas até os joelhos 

Puxo o zíper na ponta dos dedos

Subo em minha moto fiel

Estrelas e lua enfeitam o céu 


O ficante disse que admirava 

Minha personalidade e minha garra

Minha força de vontade e minha disposição 

Dizia que eu era uma fonte de inspiração 


Ele vivia falando de signos

Ele acreditava na astrologia e no Zodíaco

Se realmente entendesse do assunto 

Veria que somos incompatíveis em tudo


Pobre garotinho inseguro 

Cresceu sem mãe 

E hoje passa dificuldade no mundo 


Eu também tive um passado sofrido

Meus pais tiveram um lance sem compromisso 

Mas então aconteceu o imprevisto 

E é assim que eu existo


Mas eu não tenho tempo para me lamentar

Diferente do ficante 

Eu não tô aqui para chorar 

O que eu quero eu conquisto

Sem desanimar não desisto


Com unhas e dentes 

Com determinação persistente 

Com trabalho duro 

Eu vivo o presente 


Não gosto de maquiagem 

Mas me maqueio de vez em quando 

Pó no rosto 

Batom do meu gosto 

Aliso meu cabelo

E então o penteio 

Pois não o gosto dele "miojinho"


Por isso eu visto minhas botas até os joelhos 

Sim

Eu não desisti de mim

Meus relacionamentos anteriores foram fracassados

Mas eu tenho esperança 

Que vou encontrar alguém para mim


"Eu vou morrer sozinha"

Eu falava para mim mesma

"Estou ficando velha" 

"Já passei dos trinta "

Que se dane a minha aparência 

Eu sei que sou bonita


Quero alguém para a vida inteira 

Alguém que cumpra as minhas exigências 

Eu também estou te analisando 

"Será que é você?"

Eu vivo me perguntando 


Minha moto já está na pista

Meu sorriso hipnotiza

Na balada a gente se encontra 

Dizem que a noite é uma criança 


Perfumada e linda 

Eu sou tão extrovertida

Minha linguagem é a dança 

Quer falar ela para mim?



sábado, 22 de junho de 2024

Calças Jeans no Japão


 

Minha tia me disse

Que não eram comuns calças jeans no Japão

Lá eles usavam de outros tecidos

Tanto no inverno quanto no verão

 

Cheguei há pouco tempo

Estou muito feliz em viver aqui

Alguns me disseram que não era difícil

Empreender nesse país

 

Então eu tive a ideia

De abrir uma loja e vender calças jeans

Apenas quis trazer para os brasileiros

Gaijins nesse país estrangeiro

Um pequeno gosto do nosso Brasil

 

Então uma moda surgiu

Deve ter sido de um filme

Ou de um seriado de TV

Os atores usavam calças jeans nas filmagens

E os japoneses logo quiseram imitar as personagens

 

Enquanto isso eu trabalhava a todo instante

Aqui o trabalho era constante

Sobreviver tem um custo exorbitante

E desse filme ou seriado que falavam por aí

Confesso que nunca tive tempo de assistir

 

Mas enquanto eu arquitetava os meus planos

De uma mulher eu vinha me lembrando

 

Eu conheci uma garota fantástica

Amor intenso

Beijo apaixonado

Me disseram que estávamos indo muito rápido

Mas eu já estava gamado


Seus olhos brilhantes e reluzentes

Personalidade forte e independente

Ela tinha um sorriso maravilhoso

E um rosto lindo

Que me deixava louco

 

Como eu gostava dessa moça

Minha gatona ariana

Tinha um jeito sincero e um pouco ríspido

Ora carinhosa

Ora grossa comigo

Mas eu não me importava 

Pois era do signo daquela gata

 

Mas, por outro lado

Eu não estava preparado

 

Antes de assumir um compromisso

Eu precisava amadurecer

Pois a mente vai do lado oposto do coração

Emoção e sentimento sempre se opõem à razão

 

Eu tive uma decisão difícil a fazer

E tive que terminar um relacionamento

Cujo amor já começara a aparecer


Confesso que até hoje nunca entendi

Porque uma mulher tão independente

Ultimamente precisou de mim

Mas para minha surpresa ela disse

Que precisava sim

E foi só eu que não percebi

 

Ela ficou no Brasil

Meu amor ficou mas meu corpo partiu

Ela nunca foi de voltar atrás em sua decisão

Essa garota linda eu perdi

Um erro amargo eu cometi

Mas até hoje ela mora em meu coração

 

Eu finalmente empreendi

E calças jeans eu vendi

Fiz sucesso na minha loja

Não foi minha intenção começar uma moda

Mas o seriado que falavam tanto

Era popular em todo canto

 

Na loja eu não pus um nome bonito

Mas o jeans virou moda e eu precisava mudar isto

Decidi dar um nome forte para o povo ver

Um nome que meu coração jamais iria esquecer

 

Então no letreiro eu escrevi

Sem hesitar um segundo, eu escrevi

---

O nome da minha paixão

O signo de áries em sua perfeição

 

Eu me encho de satisfação

Era como se ela estivesse parada ali

Ao meu lado abraçada

Com sua moto estacionada

Me acompanhando na calçada

 

No Brasil eu conheci uma garota fantástica

Que me fez perder o rumo

E mesmo estando do outro lado do mundo

Eu penso nela em todo segundo

 

Minha gatona

Minha brincalhona

Minha independente

Minha ariana