terça-feira, 1 de setembro de 2026

A Sala dos Professores - 03 - Associação de Pais e Mestres

 


Arruda era um homem tímido, quieto e introspectivo. Nos intervalos durante as aulas, ele raramente conversava em grupo. Geralmente ele ficava em silêncio, sorrindo e interagindo pouco com os colegas. Na verdade, lhes parecia que seu entretenimento era ver as pessoas conversando e se divertindo, enquanto ele se reclinava confortavelmente em sua poltrona.

Mas aquela tarde ele foi empurrado para a discussão.

De fato, aquela era uma tarde atípica. Eles não poderiam dar aula se não haviam alunos. Entretanto todo o plano de estudo do ano letivo já estava pronto. Desta maneira, eles ficariam ociosos durante todo o dia. Por questões financeiras, ninguém ia embora para casa, pois eles perderiam o dia e seria descontado do salário.

Então Max pergunta:

- Vamos esquecer um pouco as ideologias. Para você, professor Arruda, como seria uma sociedade ideal?

Ajeitando-se, Arruda responde:

- Bem, eu admiro a República de Platão.

Max se intriga.

- Como assim?

- Sim. – interrompe Ortega – Como assim, professor? Nos relembre esta brilhante obra, por favor.

- Para Platão, a república ideal era aquela governada por uma classe de líderes intelectuais, que por sua vez elegeriam um representante de sua classe, chamado por Platão de o “rei filósofo”.

Max se avilta.

- Ora, mas isso é um insulto! Me parece muito conveniente que um filósofo defenda a ideia filosófica de que sejamos governados por um filósofo! – ironiza ele.

Arruda se ruboriza, mas tenta elucidar.

- Deixe-me esclarecer para vocês. Imaginem que o mar está agitado. O que os tripulantes devem fazer? Colocar o marinheiro mais experiente para guia-lo, ou decidir por votação quem deve guiar? O mais sensato seria escolher o mais experiente, não? – explica ele – Pois esta é a preocupação de Platão. Para ele, dar o poder para todos votarem possibilita que a sociedade se nivele por baixo, colocando em risco os seus valores e sua sobrevivência. Muitos não entendem quando digo isto, mas Platão era crítico da democracia. Mas isto não quer dizer que ele era um tirano. – esclarece ele – Ao dar aos líderes intelectuais o governo, ele previne que a sociedade eleja e seja governada pelos incompetentes, enganadores e medíocres.  

Max se avilta mais ainda.

- Isto me parece a criação da desigualdade, pois só governaria os privilegiados por receber a instrução!

- Não exatamente, professor Max. – objeta ele – Platão teorizava uma sociedade dividida em três classes. Os comerciantes e artesãos, que produziam e revendiam os bens; os militares e guardas, que protegiam as pessoas e os bens; e finalmente os líderes intelectuais, que se tornariam filósofos. Nas escolas, para cada aptidão individual haveria uma separação, ou seja, aquele com inclinação para a produção seria instruído no artesanato e no comércio; aquele com inclinação para a guarda seria instruído o exército; e aquele com inclinação para a filosofia receberia instrução para o governo. Esta era a sua justa divisão de classes. Não havia desprivilegiados ou injustiçados. Para ele, este era o seu ideal de República. 

Os professores assentem. Mas Max ainda não se convence. Ele pergunta:

- E o que é uma República?

Então todos olham para Concepción, que estava quieta o tempo todo no canto da sala. Ela se desencosta do balcão e responde:

- Bem, a palavra tem origem no latim “res publica”, literalmente significando “coisa pública” administrada pelo Estado.         

Desafiante, Max confronta:

- Pois para mim me parece tirania! Uma classe intelectual é privilegiada sim, e apenas os mais ricos têm privilégios para uma melhor instrução. Não podemos permitir ideias totalitárias de divisão de classes e de tirania, como é o caso de Platão. É isto o que a ideologia combate, uma sociedade dividida em classes em que os desfavorecidos não têm acesso à instrução e tampouco ao poder. Ao contrário, ela promove a igualdade através da democracia e, se necessário, da Revolução.

E assim o professor de sociologia deixa transparecer o seu fervor político.

Arruda é razoável ao responder:

- É apenas uma teoria. Não se trata de desigualdade entre as classes, mas de aptidão. Cada um seria livre para seguir o seu caminho. As escolas apenas o apontariam qual desejassem seguir. É apenas este o ideal republicano platônico.

- Republicano?! Eu chamaria de Estado de exceção, de retrocesso, de absolutismo!

Então os professores se intrigam. Nem todos dominavam os temas que no debate surgiam.

- O que é absolutismo? – pergunta Marcelina, a professora de física.

Desta vez todos olham para Lopez.

Ao lado de Concepción, ele se vê pego de surpresa. Ele também foi arrastado para dentro do debate. Ele responde:

- Absolutismo é um sistema político cujos governantes têm o poder absoluto, sem restrições. O termo é comumente usado para descrever os reis europeus durante o feudalismo e o mercantilismo. Ele é caracterizado pelo fim da partição feudal, pela consolidação do poder pelo monarca, pela unificação das leis pelo reino, e pela diminuição da influência da Igreja e da nobreza. Os monarcas absolutistas acreditavam ter o direito divino de governar, uma doutrina política e religiosa surgida após a Reforma do cristianismo. 

A professora de física faz uma expressão de estranheza. Misturando açúcar em seu café com a colher, ela diz:

- Eu não acho que a República de Platão vai nos mandar de volta à Idade Média...!

Então alguns riem do comentário. O professor de sociologia se enfurece.

- Vocês não entendem?! Ideias antidemocráticas são uma opressão ao povo! Apenas as classes dominantes têm acesso à instrução! Ao defender Platão, vocês abrem caminho para a tirania conservadora do fascismo!

- Ora, isso não é verdade! – discorda Lopez – Toda forma de tirania pode surgir de uma república, seja ela conservadora ou progressista. Lembre-se que a Revolução Francesa derrubou o absolutismo, proclamando em seguida justamente uma República. E também foi em uma república que houve perseguições, aprisionamentos e expurgos, como o caso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas!

- Ah! – exclama Max – Mas você também sabia que a União Soviética, após proclamar a Revolução, foi atacada por dezessete países?

O professor de História se intriga.

- Dezessete países...?!

De fato, todos na sala se confundem.

- Bem, eu também não sabia disso... – responde Marcelina, entrando na conversa – Mas eu entendi o que Lopez quis dizer. Repúblicas podem ser boas ou más, independente das ideias de classe de Platão.

- Não se trata de ser boa ou má, Marcelina! Trata-se dela defender os interesses do povo contra políticas burguesas e neoliberais.

- E como garantir que isso aconteça? – pergunta Ortega.

- Simples. Com partidos trabalhistas e ideologia progressista.

Então os professores se entreolham. Alguns franzem a testa, desconfiados. Outros coçam o queixo, em concordância.

Concepción assistia a tudo enquanto tomava café. Encostado na bancada, o professor de História bebe um gole e pergunta:

- Este será um longo dia. Você tem planos para hoje à noite?

A professora estranha a pergunta.

- Não, eu acho. Talvez eu limpe a casa e faça a janta para os meus filhos. Por quê?

Um pouco sem jeito, ele responde:

- Eu estive pensando... Se você e eu pudéssemos sair hoje para beber alguma coisa... Ou comer, se preferir...

Concepción se assusta.

Lopez era um homem magro de cabelos pretos e grisalhos. Ele vestia um paletó preto e camisa social branca. Geralmente ele usava jaleco em suas aulas, o que o tornava bem profissional. Entretanto, ele tinha uma fisionomia esquisita e seu nariz era grande. Concepción o achava feio. Em outras circunstâncias, ela jamais olharia para ele, mas naquele momento Lopez era o único contato masculino que ela tinha ultimamente. Apesar de sua opinião negativa, ela não podia deixar de achar bonita a atitude do professor, parado diante de si e tremendo de nervoso durante a paquera.

- Me desculpe, professor Lopez, mas hoje eu não posso. – responde educadamente ela.

Lopez se abate por dentro. Apesar de abatido, ele se mantém firme ao responder: 

- Tudo bem. Fica para uma próxima, então.

No debate, Ortega humoradamente diz:

- De qualquer forma, uma república vai precisar do dinheiro do povo para ser sustentada. Espero que o partido seja tão trabalhista quanto o trabalhador, que tem que trabalhar duro para pagar o imposto!

- Ora, mas você não gosta de pagar o imposto? – pergunta Max, exultante – Você não gosta de iluminação pública, ruas asfaltadas, saneamento básico e educação de qualidade?

- A educação não é bem assim, não! – objeta Marcelina – Se fosse de qualidade, por existiriam tantas escolas particulares por aí? E também por que nossa escola, que é estadual, precisaria da ajuda da A.P.M. se já recebemos a verba do Estado?

Os professores concordam. A Associação de Pais e Mestres existia para complementar a renda escolar, pois a verba do Estado não era o suficiente. Ademais, todos unanimemente reclamavam do baixo salário dos professores.

Max tenta se justificar, mas seus argumentos são sempre ataques à burguesia, aos conservadores e as políticas neoliberais.

A discussão se acalora. O professor de sociologia era do tipo que não podia ser contrariado.

E assim o debate se torna uma síntese entre sociologia, filosofia e História.      

 

§

 

Ao final da tarde, os ânimos já estão acalmados. Os professores conversam normalmente, apesar dos assuntos estarem gradualmente se esgotando. Durante o dia todo, eles não fizeram nada, apenas beberam café e conversaram. Novamente não houve aula. Para a estranheza de todos, não parecia ter tido trabalho, pois o silêncio nas ruas era muito incomum.

Ortega se levanta do sofá e diz:

- Bem, o papo está bom, mas eu tenho que ir embora.

Max também se levanta e se despreguiça, estralando suas costas e os ombros.

- Eu também, caro amigo.

Arruda se levanta em silêncio. Depois de ser praticamente afrontado por Max, ele não quis mais conversar durante o dia, reservando-se a apenas ouvir em silêncio.

- Alguém está com a chave da porta? – pergunta Lopez.

- Não está na diretoria? – pergunta Ortega.

- Pensei que estivesse com o zelador. – responde Max.

- Não, o zelador não está vindo. Ele está de atestado médico. Só volta semana que vem. – responde Concepción.

A professora de física abre a bolsa e diz:

- A chave está comigo. Sou eu quem está abrindo a escola.

- Então a escola está em boas mãos. – responde Ortega, amigavelmente.

Os professores arrumam suas coisas e se preparam para sair. Ortega pergunta:

- E então? Do que conversaremos amanhã?

Todos se irritam.

- Que não seja de política! – responde Lopez.

- Esse é o melhor assunto! – insiste Max.

- Que tal exclusivamente de filosofia? – brinca Ortega.

Arruda sorri, balançando negativamente a cabeça.

- Mantenha-me fora disso!

Marcelina pega a chave e distraidamente se prepara para sair. Mas de repente algo acontece.

Alguém bate na porta em um estrondo.

Todos pulam, olhando para trás, assustados. O som foi tão alto que parece ter atravessado todas as juntas de seus ossos. Eles se olham, confusos. A batida foi tão violenta na porta que parece ter sido um chute ou um coice de cavalo.  

Mas o mais estranho foi que o golpe veio do lado de fora.

Controlando o medo sufocante em sua garganta, Ortega pergunta:

- Concepción, tem mais alguém na escola?

Com o coração quase saindo de sua boca, ela responde:

- Não, professor. Quando eu fui no pátio, eu estava sozinha. Não havia ninguém aqui.

- E quanto a diretora? – pergunta Lopez.

- Não. – responde Marcelina – A diretoria estava vazia.

- Mas mesmo que o zelador ou a diretora estivessem aqui, eles não teriam força para fazer tamanho estrondo. – comenta Arruda.

Todos concordam.

- Então o que diabos foi aquilo...?

Os professores se incomodam. Ortega humoradamente pede:

- Por favor, Max. Poderia não usar esse nome nesse momento, por favor?

Um minuto se passa. Eles estavam assustados demais para se mexer.

- Não podemos ficar aqui. Está anoitecendo e os postes já estão se acendendo. – informa Lopez.

- O professor tem razão. Acho que ninguém vai querer passar a noite aqui... – comenta Ortega.

- Então quem vai abrir a porta? – pergunta Max.

Marcelina, que segurava a chave, balança negativamente a cabeça, querendo dizer que ela não ia não.

- Eu vou.

Todos olham espantados para Concepción.

- Você tem certeza?

- Sim.

- Deixe que eu vá. Pode ser perigoso.

Lopez tenta ser cavalheiro, mas todos percebem que ele não quer realmente ir.

- Não precisa. Eu irei.

Concepción caminha até a porta. A sala estava tão silenciosa que ela podia ouvir suas respirações.

Pegando a maçaneta, ela bravamente a gira e a porta se abre. O som do destrave não é alto, mas ecoa pelo corredor externo. Todos se paralisam de medo.

Um rangido suave se forma. Colocando seus óculos, Concepción lentamente se inclina para fora. Em uma breve varredura visual, ela olha para o corredor e o vê escurecido pela penumbra. Nada além das cortinas se moviam. A noite se aproximava, e em breve tudo estaria em completa escuridão. As luzes estavam apagadas pois não havia necessidade de mantê-las acesas sem as aulas.

Mas, para o espanto de todos, não havia ninguém ali.

- Está vazia.

- O quê? – confunde-se Max.

- Não há ninguém.

Os professores ficam apreensivos. Não tinha porque mais alguém estar na escola. E estava escuro demais. Quem estivesse se escondendo em alguma sala, passaria toda a noite no frio e na escuridão.

“Então o que pode ter sido?”, perguntam-se eles em pensamento.  

Hesitantes, eles ajuntam o máximo de coragem que conseguem e saem, deixando a sala dos professores.

O silêncio é absoluto. Eles passam pela diretoria e, ao sair, Marcelina tranca a porta dupla. No corredor, ninguém ousa olhar para trás.

Assustados e apreensivos, eles se olham pela última vez aquele dia e se despedem uns dos outros, dizendo:

- Até amanhã.

 

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A Sala dos Professores - 02 - Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau

 


(Imagem da Escola Bispo em Jundiaí-SP)


Concepción passa pelo portão e entra na escola. Aquela era uma escola estadual de primeiro e segundo grau da qual ele lecionava há quase duas décadas. Há um pequeno pátio cimentado até o prédio principal. Ela o atravessa e alcança a velha porta dupla de madeira e vidro. Um estralo alto se forma ao fecha-la, como se tivessem lançado tralhas em uma caçamba de entulho. O estralo sempre a incomodou, mas agora há um detalhe que agrava o seu incômodo. A escola estava vazia, e qualquer som ecoava pelas salas e corredores vazios.  

Olhando para a diretoria, ela a encontra vazia. Novamente a diretora não foi trabalhar. Ela estranha; após uma semana desde a posse do novo presidente, ela não via mais a diretora na escola.

Virando-se, ele segue para a sala dos professores.

- Olá, Concepción! Como vai a nossa professora de línguas preferida?

Um homem de cabelos negros, um pouco longos, e óculos a cumprimenta. Era o professor de Sociologia.

- Bom dia, Max. Como vai?

A sala estava movimentada, haviam mais de dez professores. De tanta gente, faltava espaço para descansarem. Mas não havia mais necessidade de descanso, pois não haviam mais aulas para ministrar.

Alguém se levanta e pergunta:

- Ei, cadê o café...?

Ele se vira e acidentalmente se esbarra na professora. Eles se olham e Concepción vê um homem alto, um pouco calvo, usando uma camisa um pouco apertada para sua barriga sobressaliente. Era o professor de Geografia.

- Mil perdões, professora! Foi sem querer.

O homem sorri para ela.

- Tudo bem, Ortega. Não foi nada. – tranquiliza ela.

- Estou querendo café. Você sabe se tem café?

- Não tem. – responde alguém no outro lado da sala – Ainda não foram fazer.

Concepción vê um homem de paletó, cabelos lisos, mas grisalhos. Era o professor de História.

- Pois permita-me ir fazê-lo, Lopez. Não consigo passar mais um dia nessa escola nesse tédio de não ter o que fazer. Preciso de um café. – responde o professor de geografia – Onde está a cafeteira?

- Não, não precisa ir. – interrompe Concepción – Deixe que eu mesma faço.

Ortega e Lopez se intrigam.

- Onde estariam meus modos se eu deixasse, professora? 

- Não tem problema, Ortega. Eu preciso mesmo ir ao pátio do refeitório.

O professor sorri, assentindo. Então Concepción pega a garrafa da cafeteira e deixa a sala dos professores.

Novamente no lado de fora, ela respira fundo e enxuga o suor de sua testa. Concepción não gosta de muita gente em espaços confinados, pois o aperto lhe causa sufoco e ansiedade. Ali fora, ela sentia alívio.

Mas o alívio dura pouco.

No corredor, ela dá dois passos e se paralisa. Uma brisa fria passa em suas pernas e sua nuca. Ela olha para frente e vê o longo corredor se esticando até acabar em uma escadaria deserta e escura. Nas janelas, as cortinas balançavam sutilmente com o vento, movendo-se vagarosamente como o flutuar de um fantasma.

A porta para o refeitório ficava mais a frente, mas ela não consegue avançar pelo sinistro corredor. No silêncio da escola, qualquer barulho ecoava pelos cantos, percorrendo as paredes e estremecendo os seus ossos. Mais um pouco de atenção e ela poderia ouvir vozes, sussurros e até gritos dos mortos vindos da escuridão.

Aquilo era a premonição de algo muito ruim.

Apertando a sua blusa, ela afasta os pensamentos e caminha assim mesmo. Concepción era uma mulher adulta, madura e sem tempo para medos infantis.  

Os passos retumbam pela escola até o pátio do refeitório. Chegando lá ela o encontra igualmente fúnebre. As janelas estavam entreabertas, permitindo a entrada do vento frio; os longos bancos de madeira estavam desalinhados e acumulavam poeira; a porta giratória da cantina balançava levemente com o vento; as paredes tinham pichações e a tinta se descascava gradualmente; e a cozinha não era visitada por dias.

Concepcíon se dirige à pia dos alunos. Haviam seis torneiras no total. Havia um longo espelho na parede, mas ela evita olhá-lo. Ela abre a torneira e pacientemente espera a garrafa se encher. De repente algo a assusta. Pelo reflexo do espelho, ela tem a impressão de ver alguma coisa passar muito rápido atrás dela. Ela se vira rapidamente, mas não havia ninguém.

Acalmando-se, ela se vira para fechar a torneira e intenta ir embora. Mas sem poder evitar, ela se contempla no espelho.

Concepción era uma mulher de meia idade. Seus cabelos eram loiros e grisalhos. Seus óculos estavam pendurados no seu pescoço e seus dentes estavam amarelados devido a cafeína. Ela não era feia, mas se achava feia e velha. Divorciada, ela tinha dois filhos, Hugo e Alejandro, e achava que nunca mais ia casar. Para ela, nenhum homem iria querer uma mulher de dois filhos beirando os cinquenta. Ela tenta se convencer que estar solteira é melhor do que em um novo casamento, mas a solidão lhe apertava o peito e lhe rasgava a alma. Sozinha e com dois filhos para criar, ela compensava neles o seu amor materno, sua carência amorosa e seu propósito de vida.

De volta à sala dos professores, ela põe a garrafa e liga a cafeteira. O aparelho faz tudo sozinho e ela apenas aguarda olhando pela janela. Os professores conversavam atrás dela, mas ela não participa, preferindo ficar um pouco sozinha.

Concepción nota que a vizinhança estava muito vazia. Não haviam carros passando e nem pedestres. Os alunos, apesar de bagunceiros e barulhentos, davam vida à escola e à vizinhança, mas hoje a energia de sua juventude lhe fazia falta. O que ela via era apenas um dia frio, cinzento, cujos vento varria as folhas secas das árvores no outono. 

De repente alguém atrás dela pergunta:

- A vizinhança está vazia, não?

Ela se vira e vê o professor de História atrás dela.

- Sim, Lopez. Muito vazia.

- O que será que houve com as pessoas? Não vejo nem os adultos nas ruas.

- Eu também não sei, professor. Me parece que somos os únicos adultos no bairro todo.

Alguém liga a televisão atrás deles e eles veem uma vinheta peculiar. O professor de geografia diz:

- É o pronunciamento oficial do novo presidente!

  Sobre o palanque, o novo presidente estava acompanhado de seu conselho de ministros. Antes do discurso, ele lançava um olhar sério para os jornalistas, como se os inspecionasse. Seus cabelos pretos e bigode lhe davam a aparência de um militar, mas seu terno e gravata lhe aparentavam apenas um civil. Na plateia, milhares de estudantes compareciam na coletiva de imprensa, na maioria alunos secundaristas.

- Ei, o meu filho está ali! – comenta Max.

- As minhas filhas também. – diz Ortega.

De fato, os filhos de quase todos os professores estavam naquela coletiva.

- Meus filhos gostam muito dele. Dizem que ele os ensina sobre honestidade e cidadania. – comenta Lopez – Fico feliz que o presidente esteja fazendo algo de positivo pelos jovens do país.

Concepción também enxerga isso, pois seus filhos também se afeiçoaram ao novo presidente.

O discurso começa. O presidente prometia mudanças abruptas no país. Ele não revelava exatamente o que mudaria, mas suas palavras carregavam perigosa convicção. Avançando, ele profere discursos cada vez mais efusivos contra os inimigos do novo regime, os chamados “doutrinadores” do antigo regime. Então, para a surpresa de todos, ele cita abertamente os professores. Ele prometia que na nova era de seu mandato, os doutrinadores seriam esmagados pelo alvorecer de algo novo.

 E neste momento os professores se assustam.

O presidente criticava as ideologias, chamando-as de veneno da mente. Ele denunciava a sua alienação, prejudicando a consciência e o esclarecimento político, sobretudo da juventude. Para ele, não era o suficiente a regulação das redes sociais e da mídia, mas estreita vigilância sobre aqueles que propagavam as ideologias nas salas de aula. Ele novamente atacava os professores.

Então o presidente prossegue em seu discurso, falando sobre meio ambiente, economia e relações internacionais.

Um silêncio pesado paira na sala. Os professores, que momentos antes o admiravam por ele despertar o interesse político em seus filhos, agora o antagonizavam em pensamento.

Concepción quebra o silêncio e diz:

- Talvez este seja um discurso inicial do novo presidente. Talvez ele não queira realmente dizer isso.

- E como não? – discorda Ortega – Ele citou claramente a nós, os professores!

- Isso para mim se parece com o discurso de um ditador! – critica Lopez.

- O presidente nos atacou abertamente, nos chamando de “doutrinadores do velho regime”. E o que virá depois? Ataque ao voto feminino?

Então Concepción e as demais professoras se incomodam. Junto dela, eram mulheres as professoras de ciências naturais, física, química e biologia.

- Eu não duvido. Ele criticou a alienação ideológica, mas é ele envenenando a juventude com, adivinhem, alienação ideológica! – ironiza Ortega.

Os professores concordam. Então Max altivamente os interrompe, perguntando:

- E o que é ideologia?

Todos se confundem.

- O que disse? – pergunta Ortega.

- O que é ideologia, meu caro geógrafo? – responde ele, sorrindo – Segundo a Sociologia, é uma organização de ideias fundamentadas por um determinado grupo social, geralmente um comitê ou um partido. Ela se caracteriza por interesses políticos para fins institucionais, ou seja, aplica-los em organismos públicos estabelecidos por meios de leis e estatutos, como os órgãos governamentais. Ademais, as instituições visam atender as necessidades da sociedade, organizando e regulando o comportamento das pessoas.

- E o que isso quer dizer, Max? Está insinuando que o presidente quer introduzir sua ideologia nas instituições públicas? – pergunta Ortega.

- Eu não sei. Talvez. Ainda não podemos dizer. – responde ele – O presidente pode ser tanto marxista, contendo ideias de aspirações progressistas ou revolucionárias do proletariado, como a consciência de classe; quanto um neoliberal, defendendo ou até protegendo os interesses econômicos da burguesia. De qualquer forma, ele precisa de uma ideologia concisa que arregimente a juventude, incutindo-lhes acerbada importância e usando-lhes como massa de manobra. Ainda é muito cedo para dizer.   

Alguns professores concordam. Outros se mantém em silêncio.

Havia um homem quieto na sala. Ele tinha a pele morena, cabelos duros e era magro. Aquele era o professor de Filosofia. 

Ortega olha para ele pergunta:

- O que você acha, Arruda?

- Bem, pela ótica da filosofia – começa ele –, eu diria que a ideologia tem origem nas noções sensoriais do indivíduo, a partir de sua compreensão do mundo externo. Ou seja, o autor usa como base suas experiências para a coleta dados de pessoas que passaram por experiências semelhantes, assim criando uma teoria que corrobore sua própria visão de mundo. Ideologia é coletiva, mas se originou de um indivíduo, que identificou em um grupo os mesmos problemas, ou até os convenceu de que todos os enfrentavam mutuamente, assim arregimentando-os para a causa. Tudo depende do nível de honestidade do autor.

Max se intriga.

- Está dizendo que as ideologias podem ser falsas fabricações?

- Eu também não sei, professor. Mas ideologias políticas podem ser usadas para fins egoístas. Aliás, o egoísmo é característico do ser humano. Usamos as virtudes para o bem ou para o mal. Tudo pode ser falso nas palavras de um bom orador.

- Não são falsos os problemas sociais que enfrentamos. Fome, violência, desemprego, pobreza... As ideologias são um meio político de conscientização. A sociedade não deve ser tratada como um corpo que, quando doente, aplica-se o remédio no local exato da dor. Não. Ela deve ser tratada na qualidade da nutrição para que, ao conscientizar os indivíduos do que eles consomem, nunca mais precisem tomar remédios.

Arruda sorri.

- Esta é uma boa analogia, Max, mas eu tenho outra. Imagine uma garrafa de refrigerante. Ideologia é como uma garrafa que em seu rótulo está escrito inúmeras verdades, mas que em seu conteúdo há incontáveis mentiras. Por isso eu afirmei: seres humanos são egoístas e podem usar até suas virtudes para praticar o mal. 

Então os professores se dividem. Alguns acreditam que a educação ideológica pode transformar a sociedade; outros acreditam que a sociedade pode sofrer com a ideologia errada.

Percebendo que um longo debate se iniciava, Lopez puxa Concepción pela mão e diz:

- Já vi que isso vai ser desgastante. Quer tomar um café?

 

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A Sala dos Professores - 01 - Introdução

 


(Fonte desconhecida)


Em 2030 ocorre uma troca de regime.

Em um certo país da América Latina, o novo presidente eleito recebe apoio massivo da população. Misturando populismo com progressismo, ele promete apoio ao empresariado sem se esquecer das causas trabalhistas. Nos canais de comunicação, a imprensa se refere a ele como o “novo líder”, um homem carismático, determinado e firme em seus objetivos.

A população o via como uma esperança; um político preocupado em erradicar a pobreza e estimular a qualidade de vida. Mas as classes intelectuais não o viam desta maneira; eles viam apenas um oportunista, um "mais do mesmo", carregado de falsas promessas e demagogia.

O novo líder era um homem de cabelos pretos, bigode, estatura média e geralmente vestindo terno e gravata. Não havia nada demais em sua aparência. Atrás do palanque, ele discursava com olhar sério, direto e sucinto em suas palavras, com expressão até um pouco enérgica. A população parecia hipnotizada. No presidente as alas antagônicas se uniam em uma união ideológica improvável. O modo como ele conduzia as massas espantava os especialistas da imprensa, fazendo-o ser visto com mais e mais desconfiança.

O tempo passa.

Após sua eleição, seus discursos se tornam mais efusivos nos canais de comunicação. Postes e praças também foram usados. Além da televisão e da internet, o novo regime empregara carros de som e alto-falantes.

Algo inusitado acontece. Alunos do colegial são convocados a participar dos comícios do novo líder. Organizados pelo partido, os comícios se espalham por todo o país e telões são instalados para a transmissão dos discursos. Estranhamente o presidente nunca era visto em público, seja na capital federativa ou no palácio presidencial. Ele era apenas assistido nos telões.  

No começo as convocações eram voluntárias, mas com o tempo passam a ser obrigatórias. Para a surpresa dos professores, os alunos não se rebelam contra a medida, mas passam a desejar participa-los. Os professores, porém, não eram convocados. Ao contrário dos alunos, eles foram obrigados a continuar indo trabalhar. Isto gerou desconfiança, pois eles compareciam às escolas, mas as escolas estavam sempre vazias. Não haviam alunos nas salas de aula; durante todo o período letivo, os alunos estavam nos comícios.

Após um tempo, os professores passam a ser proibidos de comparecer nas convocações. Se tentassem, eles eram impedidos por força policial. Cada vez mais empurrados para longe do presidente, o corpo docente se viu empurrado de volta às escolas, onde eram obrigados a ir trabalhar.

Mas... para quem ministrar as aulas se não haviam alunos nas salas de aula?

Assim eles passavam o dia inteiro na sala dos professores.

 

  

domingo, 26 de janeiro de 2025

Sad in Paradise

 


(image from Dead Tempo Visions page)

 

I died

 

I followed the light


Where is Jesus? 

Where is God?

Where´s my grandmother who passed away?

 

Where is everyone?

Why does the silence here is absolute?

 

Where are the other saved ones?

My little dog who died long ago?

Or my cat that has disappeared?

 

Salvation can´t be that

Disappointment and lamentation torment me

In indignation I see

That the shepherds lied

 

I am tormented by aberrations

That chase me during the day

And stalk me at night

 

Who are these terrifying entities?

Why there are no angels here?

Why do they look like demons here?

 

In the sky of my despair

The clouds move slowly

In their omnipresent contempt

 

Rivers that run through canals

But they doesn't go anywhere

The waters take my hope away

And also keep me locked in this dead city

 

Open fields

But there's no one around

Deserted corridors

The aberrations I see

In houses of concrete

I hear their ghostly echoes

 

There's a very beautiful garden

But it's deserted and depressing

By the ghost of an old woman

With long hair and dresses

It's daily protected

 

I think her son drowned in these lakes

For her spirit floats above the waters

And on the banks she cries

Curved in her own embrace

 

I look at my body

It seems like I'm a child again

I want my mother so much

I sink into hopelessness

 

I sit in a corner

And hug my little knees

Mommy

Will you come to pick me up?

I'm so scared

I don't want to be here anymore

 

I don't want to be sad anymore

 

And that's how I feel

Without my family

Without my friends

 

Alone

 

Sad in paradise

 



terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Triste no Paraíso

 


(Imagem da página Dead Tempo Visions)


Eu morri 


Eu segui a luz 


Onde está Jesus?

Onde está Deus?

Onde está minha avó que já morreu?


Onde está todo mundo? 

Por que aqui o silêncio é absoluto?


Onde estão os outros salvos?

O meu cachorrinho que já morreu?

Ou o meu gato que desapareceu?


A salvação não pode ser isso

A decepção e a lamentação me martirizam

Em indignação eu vejo

Que os pastores mentiram 


Sou atormentado por aberrações 

Que me perseguem de dia

E que me espreitam à noite 


Quem são essas entidades aterradoras?

Por que aqui não tem os anjos?

Por que aqui elas têm feição de demônios?


No céu do meu desespero 

As nuvens se movem lentamente 

Em seu desprezo onipresente 


Rios que correm por canais 

Mas que não vão para lugar algum 

As águas levam minha esperança embora 

E também me encerram nessa cidade morta


Campos abertos 

Mas não há ninguém por perto

Corredores desertos 

As aberrações eu enxergo

Casas de concreto 

Ouço seus fantasmagóricos ecos 


Há um jardim bem bonito 

Mas é deserto e depressivo 

Pelo fantasma de uma mulher velha

De longos cabelos e vestidos 

Ele é diariamente protegido 


Acho que seu filho se afogou nesses lagos

Pois seu espírito flutua sobre as águas 

E nas margens ela chora

Encurvada em seu próprio abraço 


Olho para o meu corpo 

Parece que voltei a ser criança

Queria tanto a minha mãe 

Eu me afundo em desesperança 


Me sento em um cantinho 

E abraço meus joelhinhos 

Mamãe 

Você vem buscar?

Estou tão assustado 

Aqui eu não quero mais estar 


Triste eu não quero mais ficar


E é assim que eu me sinto

Sem minha família

Sem meus amigos 


Sozinho 


Triste no paraíso 



quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Uma Alma a Mais (para Satanás)



(Arte de _gordiart_)


Juvenal estava cansado de se masturbar 

Então decide vender sua alma 

E fazer um pacto com o diabo 

Para se esbaldar de transar 


O bruxo era um homem estranho 

Rosto pálido sob seu negro manto

Anéis mágicos em seus dedos ossudos

Colares com ossos de podres defuntos 


Promessas de orgias 

Lhe são oferecidas 

Com as prostitutas mais lindas 

Mulheres casadas e adúlteras

Mães solteiras e vagabundas


Viciadas em drogas 

Irremediáveis alcóolatras

Usuárias de crack 

Cheias de pecados da carne


Orgasmo constante 

Ejaculação pulsante 

Luxúria para toda a vida 

Para uma alma corrompida


"E com meus poderes outorgados por Satã"

"Poderei corromper até as mulheres cristãs"


Juvenal mal pode esperar 

Para satisfazer sua lascívia 

Com viúvas vadias 

E adolescentes promíscuas


Sob o cemitério sepulcral 

Começa o sacrílego ritual


No salão subterrâneo

Um estranho tipo de bruxaria 

Com incensos, velas

Tambores e danças místicas


Velas pretas e vermelhas 

Espalhadas ao redor da mesa

As vermelhas simbolizam o sangue 

As pretas simbolizam as trevas


Carcaças de animais sacrificados 

Empesteavam com um cheiro insuportável 

Terrível cova profunda 

Atraído para a escuridão pútrida 


Juvenal é traído 

O bruxo queria seu sacrifício 

Ele não consegue entender 

Mas era tarde demais para se arrepender 


Na mesa do sacrifício 

Pedaços de ferro preparados 

Para penetrar em seus orifícios 

Para o prazer do bruxo 

O satânico padre obscuro


"Você não sairá da mesa da morte"

Será desmembrado com golpes de machado e serrote"


O bruxo ordena

"Amarrem esse pervertido" 

"Reles maníaco sexual"

"Sua única orgia"

"Será no fogo infernal"


Os cultistas o despem a força 

E o amarram completamente nu sobre a mesa 

Juvenal se urinava de medo 

Respiração ofegante e intensa


Juvenal tenta se soltar 

E então ele ouve o bruxo exclamar

"Não adianta tentar se salvar"

"Tua alma não se escapará!"

 

O bruxo ergue sua adaga 

E possuído de espíritos ele brada

"Rei negro, dá-nos poder satânico" 

"Para sacrificar este porco asqueroso"


Com língua maculada de blasfêmias 

O bruxo profere sua sentença 

"Uma alma a mais para Satanás"


Antes que Juvenal fosse sacrificado 

Deitado sobre aquele altar abominável 

Seu tornozelo se solta da trave

E ele chuta o bruxo na face


Os cultistas deviam estar em transe 

Se contorciam e vociferavam a todo instante 

Estavam possuídos de espíritos demoníacos

Juvenal se solta e foge do ritual sacrílego 


Dias se passam desde a profanação 

Juvenal ainda temia sua condenação

A ideia de vender sua alma ele deixa para trás 

Ainda não era o momento dele se encontrar com Satanás 


Mas seu vício ainda consumia sua mente 

Juvenal era um pervertido doente 

E antes mesmo dele superar aquele horror 

Ele decide voltar aos seus vídeos pornôs



sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Botas até os Joelhos


(Imagem do site lojasbrunelle.com)


Essas meninas de pouca idade 

Estão sempre tentando provar 

Para si mesmas e para os outros 

A atenção que elas podem chamar 


Eu não tenho tempo para provar 

E tampouco para desperdiçar 

O que eu quero eu vou buscar 

O meu sorriso a todos pode conquistar 


Então eu visto minhas botas até os joelhos 

Puxo o zíper na ponta dos dedos

Subo em minha moto fiel

Estrelas e lua enfeitam o céu 


O ficante disse que admirava 

Minha personalidade e minha garra

Minha força de vontade e minha disposição 

Dizia que eu era uma fonte de inspiração 


Ele vivia falando de signos

Ele acreditava na astrologia e no Zodíaco

Se realmente entendesse do assunto 

Veria que somos incompatíveis em tudo


Pobre garotinho inseguro 

Cresceu sem mãe 

E hoje passa dificuldade no mundo 


Eu também tive um passado sofrido

Meus pais tiveram um lance sem compromisso 

Mas então aconteceu o imprevisto 

E é assim que eu existo


Mas eu não tenho tempo para me lamentar

Diferente do ficante 

Eu não tô aqui para chorar 

O que eu quero eu conquisto

Sem desanimar não desisto


Com unhas e dentes 

Com determinação persistente 

Com trabalho duro 

Eu vivo o presente 


Não gosto de maquiagem 

Mas me maqueio de vez em quando 

Pó no rosto 

Batom do meu gosto 

Aliso meu cabelo

E então o penteio 

Pois não o gosto dele "miojinho"


Por isso eu visto minhas botas até os joelhos 

Sim

Eu não desisti de mim

Meus relacionamentos anteriores foram fracassados

Mas eu tenho esperança 

Que vou encontrar alguém para mim


"Eu vou morrer sozinha"

Eu falava para mim mesma

"Estou ficando velha" 

"Já passei dos trinta "

Que se dane a minha aparência 

Eu sei que sou bonita


Quero alguém para a vida inteira 

Alguém que cumpra as minhas exigências 

Eu também estou te analisando 

"Será que é você?"

Eu vivo me perguntando 


Minha moto já está na pista

Meu sorriso hipnotiza

Na balada a gente se encontra 

Dizem que a noite é uma criança 


Perfumada e linda 

Eu sou tão extrovertida

Minha linguagem é a dança 

Quer falar ela para mim?