Arruda era um
homem tímido, quieto e introspectivo. Nos intervalos durante as aulas, ele
raramente conversava em grupo. Geralmente ele ficava em silêncio, sorrindo e
interagindo pouco com os colegas. Na verdade, lhes parecia que seu
entretenimento era ver as pessoas conversando e se divertindo, enquanto ele se
reclinava confortavelmente em sua poltrona.
Mas aquela tarde
ele foi empurrado para a discussão.
De fato, aquela
era uma tarde atípica. Eles não poderiam dar aula se não haviam alunos.
Entretanto todo o plano de estudo do ano letivo já estava pronto. Desta maneira,
eles ficariam ociosos durante todo o dia. Por questões financeiras, ninguém ia
embora para casa, pois eles perderiam o dia e seria descontado do salário.
Então Max
pergunta:
- Vamos esquecer
um pouco as ideologias. Para você, professor Arruda, como seria uma sociedade
ideal?
Ajeitando-se,
Arruda responde:
- Bem, eu admiro
a República de Platão.
Max se intriga.
- Como assim?
- Sim. –
interrompe Ortega – Como assim, professor? Nos relembre esta brilhante obra,
por favor.
- Para Platão, a
república ideal era aquela governada por uma classe de líderes intelectuais,
que por sua vez elegeriam um representante de sua classe, chamado por Platão de
o “rei filósofo”.
Max se avilta.
- Ora, mas isso é
um insulto! Me parece muito conveniente que um filósofo defenda a ideia
filosófica de que sejamos governados por um filósofo! – ironiza ele.
Arruda se
ruboriza, mas tenta elucidar.
- Deixe-me
esclarecer para vocês. Imaginem que o mar está agitado. O que os tripulantes
devem fazer? Colocar o marinheiro mais experiente para guia-lo, ou decidir por
votação quem deve guiar? O mais sensato seria escolher o mais experiente, não?
– explica ele – Pois esta é a preocupação de Platão. Para ele, dar o poder para
todos votarem possibilita que a sociedade se nivele por baixo, colocando em
risco os seus valores e sua sobrevivência. Muitos não entendem quando digo isto,
mas Platão era crítico da democracia. Mas isto não quer dizer que ele era um
tirano. – esclarece ele – Ao dar aos líderes intelectuais o governo, ele
previne que a sociedade eleja e seja governada pelos incompetentes, enganadores
e medíocres.
Max se avilta mais
ainda.
- Isto me parece
a criação da desigualdade, pois só governaria os privilegiados por receber a
instrução!
- Não exatamente,
professor Max. – objeta ele – Platão teorizava uma sociedade dividida em três
classes. Os comerciantes e artesãos, que produziam e revendiam os bens; os
militares e guardas, que protegiam as pessoas e os bens; e finalmente os
líderes intelectuais, que se tornariam filósofos. Nas escolas, para cada
aptidão individual haveria uma separação, ou seja, aquele com inclinação para a
produção seria instruído no artesanato e no comércio; aquele com inclinação
para a guarda seria instruído o exército; e aquele com inclinação para a
filosofia receberia instrução para o governo. Esta era a sua justa divisão de
classes. Não havia desprivilegiados ou injustiçados. Para ele, este era o seu
ideal de República.
Os professores
assentem. Mas Max ainda não se convence. Ele pergunta:
- E o que é uma
República?
Então todos olham
para Concepción, que estava quieta o tempo todo no canto da sala. Ela se
desencosta do balcão e responde:
- Bem, a palavra
tem origem no latim “res publica”, literalmente significando “coisa pública”
administrada pelo Estado.
Desafiante, Max
confronta:
- Pois para mim
me parece tirania! Uma classe intelectual é privilegiada sim, e apenas os mais
ricos têm privilégios para uma melhor instrução. Não podemos permitir ideias
totalitárias de divisão de classes e de tirania, como é o caso de Platão. É
isto o que a ideologia combate, uma sociedade dividida em classes em que os
desfavorecidos não têm acesso à instrução e tampouco ao poder. Ao contrário,
ela promove a igualdade através da democracia e, se necessário, da Revolução.
E assim o
professor de sociologia deixa transparecer o seu fervor político.
Arruda é razoável
ao responder:
- É apenas uma
teoria. Não se trata de desigualdade entre as classes, mas de aptidão. Cada um
seria livre para seguir o seu caminho. As escolas apenas o apontariam qual
desejassem seguir. É apenas este o ideal republicano platônico.
- Republicano?!
Eu chamaria de Estado de exceção, de retrocesso, de absolutismo!
Então os
professores se intrigam. Nem todos dominavam os temas que no debate surgiam.
- O que é
absolutismo? – pergunta Marcelina, a professora de física.
Desta vez todos
olham para Lopez.
Ao lado de
Concepción, ele se vê pego de surpresa. Ele também foi arrastado para dentro do
debate. Ele responde:
- Absolutismo é
um sistema político cujos governantes têm o poder absoluto, sem restrições. O termo
é comumente usado para descrever os reis europeus durante o feudalismo e o
mercantilismo. Ele é caracterizado pelo fim da partição feudal, pela
consolidação do poder pelo monarca, pela unificação das leis pelo reino, e pela
diminuição da influência da Igreja e da nobreza. Os monarcas absolutistas
acreditavam ter o direito divino de governar, uma doutrina política e religiosa
surgida após a Reforma do cristianismo.
A professora de
física faz uma expressão de estranheza. Misturando açúcar em seu café com a
colher, ela diz:
- Eu não acho que
a República de Platão vai nos mandar de volta à Idade Média...!
Então alguns riem
do comentário. O professor de sociologia se enfurece.
- Vocês não
entendem?! Ideias antidemocráticas são uma opressão ao povo! Apenas as classes
dominantes têm acesso à instrução! Ao defender Platão, vocês abrem caminho para
a tirania conservadora do fascismo!
- Ora, isso não é
verdade! – discorda Lopez – Toda forma de tirania pode surgir de uma república,
seja ela conservadora ou progressista. Lembre-se que a Revolução Francesa
derrubou o absolutismo, proclamando em seguida justamente uma República. E
também foi em uma república que houve perseguições, aprisionamentos e expurgos,
como o caso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas!
- Ah! – exclama
Max – Mas você também sabia que a União Soviética, após proclamar a Revolução,
foi atacada por dezessete países?
O professor de
História se intriga.
- Dezessete
países...?!
De fato, todos na
sala se confundem.
- Bem, eu também
não sabia disso... – responde Marcelina, entrando na conversa – Mas eu entendi
o que Lopez quis dizer. Repúblicas podem ser boas ou más, independente das
ideias de classe de Platão.
- Não se trata de
ser boa ou má, Marcelina! Trata-se dela defender os interesses do povo contra
políticas burguesas e neoliberais.
- E como garantir
que isso aconteça? – pergunta Ortega.
- Simples. Com
partidos trabalhistas e ideologia progressista.
Então os
professores se entreolham. Alguns franzem a testa, desconfiados. Outros coçam o
queixo, em concordância.
Concepción
assistia a tudo enquanto tomava café. Encostado na bancada, o professor de História
bebe um gole e pergunta:
- Este será um
longo dia. Você tem planos para hoje à noite?
A professora estranha
a pergunta.
- Não, eu acho.
Talvez eu limpe a casa e faça a janta para os meus filhos. Por quê?
Um pouco sem
jeito, ele responde:
- Eu estive
pensando... Se você e eu pudéssemos sair hoje para beber alguma coisa... Ou
comer, se preferir...
Concepción se
assusta.
Lopez era um
homem magro de cabelos pretos e grisalhos. Ele vestia um paletó preto e camisa
social branca. Geralmente ele usava jaleco em suas aulas, o que o tornava bem
profissional. Entretanto, ele tinha uma fisionomia esquisita e seu nariz era
grande. Concepción o achava feio. Em outras circunstâncias, ela jamais olharia
para ele, mas naquele momento Lopez era o único contato masculino que ela tinha
ultimamente. Apesar de sua opinião negativa, ela não podia deixar de achar
bonita a atitude do professor, parado diante de si e tremendo de nervoso
durante a paquera.
- Me desculpe,
professor Lopez, mas hoje eu não posso. – responde educadamente ela.
Lopez se abate
por dentro. Apesar de abatido, ele se mantém firme ao responder:
- Tudo bem. Fica
para uma próxima, então.
No debate, Ortega
humoradamente diz:
- De qualquer
forma, uma república vai precisar do dinheiro do povo para ser sustentada.
Espero que o partido seja tão trabalhista quanto o trabalhador, que tem que
trabalhar duro para pagar o imposto!
- Ora, mas você
não gosta de pagar o imposto? – pergunta Max, exultante – Você não gosta de
iluminação pública, ruas asfaltadas, saneamento básico e educação de qualidade?
- A educação não
é bem assim, não! – objeta Marcelina – Se fosse de qualidade, por existiriam
tantas escolas particulares por aí? E também por que nossa escola, que é
estadual, precisaria da ajuda da A.P.M. se já recebemos a verba do Estado?
Os professores concordam.
A Associação de Pais e Mestres existia para complementar a renda escolar, pois
a verba do Estado não era o suficiente. Ademais, todos unanimemente reclamavam
do baixo salário dos professores.
Max tenta se
justificar, mas seus argumentos são sempre ataques à burguesia, aos
conservadores e as políticas neoliberais.
A discussão se
acalora. O professor de sociologia era do tipo que não podia ser contrariado.
E assim o debate
se torna uma síntese entre sociologia, filosofia e História.
§
Ao final da
tarde, os ânimos já estão acalmados. Os professores conversam normalmente,
apesar dos assuntos estarem gradualmente se esgotando. Durante o dia todo, eles
não fizeram nada, apenas beberam café e conversaram. Novamente não houve aula.
Para a estranheza de todos, não parecia ter tido trabalho, pois o silêncio nas
ruas era muito incomum.
Ortega se levanta
do sofá e diz:
- Bem, o papo
está bom, mas eu tenho que ir embora.
Max também se
levanta e se despreguiça, estralando suas costas e os ombros.
- Eu também, caro
amigo.
Arruda se levanta
em silêncio. Depois de ser praticamente afrontado por Max, ele não quis mais
conversar durante o dia, reservando-se a apenas ouvir em silêncio.
- Alguém está com
a chave da porta? – pergunta Lopez.
- Não está na
diretoria? – pergunta Ortega.
- Pensei que
estivesse com o zelador. – responde Max.
- Não, o zelador
não está vindo. Ele está de atestado médico. Só volta semana que vem. –
responde Concepción.
A professora de
física abre a bolsa e diz:
- A chave está
comigo. Sou eu quem está abrindo a escola.
- Então a escola
está em boas mãos. – responde Ortega, amigavelmente.
Os professores
arrumam suas coisas e se preparam para sair. Ortega pergunta:
- E então? Do que
conversaremos amanhã?
Todos se irritam.
- Que não seja de
política! – responde Lopez.
- Esse é o melhor
assunto! – insiste Max.
- Que tal
exclusivamente de filosofia? – brinca Ortega.
Arruda sorri,
balançando negativamente a cabeça.
- Mantenha-me
fora disso!
Marcelina pega a
chave e distraidamente se prepara para sair. Mas de repente algo acontece.
Alguém bate na
porta em um estrondo.
Todos pulam,
olhando para trás, assustados. O som foi tão alto que parece ter atravessado
todas as juntas de seus ossos. Eles se olham, confusos. A batida foi tão
violenta na porta que parece ter sido um chute ou um coice de cavalo.
Mas o mais
estranho foi que o golpe veio do lado de fora.
Controlando o
medo sufocante em sua garganta, Ortega pergunta:
- Concepción, tem
mais alguém na escola?
Com o coração quase
saindo de sua boca, ela responde:
- Não, professor.
Quando eu fui no pátio, eu estava sozinha. Não havia ninguém aqui.
- E quanto a
diretora? – pergunta Lopez.
- Não. – responde
Marcelina – A diretoria estava vazia.
- Mas mesmo que o
zelador ou a diretora estivessem aqui, eles não teriam força para fazer tamanho
estrondo. – comenta Arruda.
Todos concordam.
- Então o que
diabos foi aquilo...?
Os professores se
incomodam. Ortega humoradamente pede:
- Por favor, Max.
Poderia não usar esse nome nesse momento, por favor?
Um minuto se
passa. Eles estavam assustados demais para se mexer.
- Não podemos
ficar aqui. Está anoitecendo e os postes já estão se acendendo. – informa
Lopez.
- O professor tem
razão. Acho que ninguém vai querer passar a noite aqui... – comenta Ortega.
- Então quem vai
abrir a porta? – pergunta Max.
Marcelina, que
segurava a chave, balança negativamente a cabeça, querendo dizer que ela não ia
não.
- Eu vou.
Todos olham
espantados para Concepción.
- Você tem
certeza?
- Sim.
- Deixe que eu vá.
Pode ser perigoso.
Lopez tenta ser
cavalheiro, mas todos percebem que ele não quer realmente ir.
- Não precisa. Eu
irei.
Concepción caminha
até a porta. A sala estava tão silenciosa que ela podia ouvir suas respirações.
Pegando a
maçaneta, ela bravamente a gira e a porta se abre. O som do destrave não é
alto, mas ecoa pelo corredor externo. Todos se paralisam de medo.
Um rangido suave
se forma. Colocando seus óculos, Concepción lentamente se inclina para fora. Em
uma breve varredura visual, ela olha para o corredor e o vê escurecido pela
penumbra. Nada além das cortinas se moviam. A noite se aproximava, e em breve
tudo estaria em completa escuridão. As luzes estavam apagadas pois não havia
necessidade de mantê-las acesas sem as aulas.
Mas, para o
espanto de todos, não havia ninguém ali.
- Está vazia.
- O quê? – confunde-se
Max.
- Não há ninguém.
Os professores
ficam apreensivos. Não tinha porque mais alguém estar na escola. E estava escuro
demais. Quem estivesse se escondendo em alguma sala, passaria toda a noite no
frio e na escuridão.
“Então o que pode
ter sido?”, perguntam-se eles em pensamento.
Hesitantes, eles
ajuntam o máximo de coragem que conseguem e saem, deixando a sala dos
professores.
O silêncio é
absoluto. Eles passam pela diretoria e, ao sair, Marcelina tranca a porta
dupla. No corredor, ninguém ousa olhar para trás.
Assustados e
apreensivos, eles se olham pela última vez aquele dia e se despedem uns dos
outros, dizendo:
- Até amanhã.

Nenhum comentário:
Postar um comentário