terça-feira, 1 de setembro de 2026

A Sala dos Professores - 03 - Associação de Pais e Mestres

 


Arruda era um homem tímido, quieto e introspectivo. Nos intervalos durante as aulas, ele raramente conversava em grupo. Geralmente ele ficava em silêncio, sorrindo e interagindo pouco com os colegas. Na verdade, lhes parecia que seu entretenimento era ver as pessoas conversando e se divertindo, enquanto ele se reclinava confortavelmente em sua poltrona.

Mas aquela tarde ele foi empurrado para a discussão.

De fato, aquela era uma tarde atípica. Eles não poderiam dar aula se não haviam alunos. Entretanto todo o plano de estudo do ano letivo já estava pronto. Desta maneira, eles ficariam ociosos durante todo o dia. Por questões financeiras, ninguém ia embora para casa, pois eles perderiam o dia e seria descontado do salário.

Então Max pergunta:

- Vamos esquecer um pouco as ideologias. Para você, professor Arruda, como seria uma sociedade ideal?

Ajeitando-se, Arruda responde:

- Bem, eu admiro a República de Platão.

Max se intriga.

- Como assim?

- Sim. – interrompe Ortega – Como assim, professor? Nos relembre esta brilhante obra, por favor.

- Para Platão, a república ideal era aquela governada por uma classe de líderes intelectuais, que por sua vez elegeriam um representante de sua classe, chamado por Platão de o “rei filósofo”.

Max se avilta.

- Ora, mas isso é um insulto! Me parece muito conveniente que um filósofo defenda a ideia filosófica de que sejamos governados por um filósofo! – ironiza ele.

Arruda se ruboriza, mas tenta elucidar.

- Deixe-me esclarecer para vocês. Imaginem que o mar está agitado. O que os tripulantes devem fazer? Colocar o marinheiro mais experiente para guia-lo, ou decidir por votação quem deve guiar? O mais sensato seria escolher o mais experiente, não? – explica ele – Pois esta é a preocupação de Platão. Para ele, dar o poder para todos votarem possibilita que a sociedade se nivele por baixo, colocando em risco os seus valores e sua sobrevivência. Muitos não entendem quando digo isto, mas Platão era crítico da democracia. Mas isto não quer dizer que ele era um tirano. – esclarece ele – Ao dar aos líderes intelectuais o governo, ele previne que a sociedade eleja e seja governada pelos incompetentes, enganadores e medíocres.  

Max se avilta mais ainda.

- Isto me parece a criação da desigualdade, pois só governaria os privilegiados por receber a instrução!

- Não exatamente, professor Max. – objeta ele – Platão teorizava uma sociedade dividida em três classes. Os comerciantes e artesãos, que produziam e revendiam os bens; os militares e guardas, que protegiam as pessoas e os bens; e finalmente os líderes intelectuais, que se tornariam filósofos. Nas escolas, para cada aptidão individual haveria uma separação, ou seja, aquele com inclinação para a produção seria instruído no artesanato e no comércio; aquele com inclinação para a guarda seria instruído o exército; e aquele com inclinação para a filosofia receberia instrução para o governo. Esta era a sua justa divisão de classes. Não havia desprivilegiados ou injustiçados. Para ele, este era o seu ideal de República. 

Os professores assentem. Mas Max ainda não se convence. Ele pergunta:

- E o que é uma República?

Então todos olham para Concepción, que estava quieta o tempo todo no canto da sala. Ela se desencosta do balcão e responde:

- Bem, a palavra tem origem no latim “res publica”, literalmente significando “coisa pública” administrada pelo Estado.         

Desafiante, Max confronta:

- Pois para mim me parece tirania! Uma classe intelectual é privilegiada sim, e apenas os mais ricos têm privilégios para uma melhor instrução. Não podemos permitir ideias totalitárias de divisão de classes e de tirania, como é o caso de Platão. É isto o que a ideologia combate, uma sociedade dividida em classes em que os desfavorecidos não têm acesso à instrução e tampouco ao poder. Ao contrário, ela promove a igualdade através da democracia e, se necessário, da Revolução.

E assim o professor de sociologia deixa transparecer o seu fervor político.

Arruda é razoável ao responder:

- É apenas uma teoria. Não se trata de desigualdade entre as classes, mas de aptidão. Cada um seria livre para seguir o seu caminho. As escolas apenas o apontariam qual desejassem seguir. É apenas este o ideal republicano platônico.

- Republicano?! Eu chamaria de Estado de exceção, de retrocesso, de absolutismo!

Então os professores se intrigam. Nem todos dominavam os temas que no debate surgiam.

- O que é absolutismo? – pergunta Marcelina, a professora de física.

Desta vez todos olham para Lopez.

Ao lado de Concepción, ele se vê pego de surpresa. Ele também foi arrastado para dentro do debate. Ele responde:

- Absolutismo é um sistema político cujos governantes têm o poder absoluto, sem restrições. O termo é comumente usado para descrever os reis europeus durante o feudalismo e o mercantilismo. Ele é caracterizado pelo fim da partição feudal, pela consolidação do poder pelo monarca, pela unificação das leis pelo reino, e pela diminuição da influência da Igreja e da nobreza. Os monarcas absolutistas acreditavam ter o direito divino de governar, uma doutrina política e religiosa surgida após a Reforma do cristianismo. 

A professora de física faz uma expressão de estranheza. Misturando açúcar em seu café com a colher, ela diz:

- Eu não acho que a República de Platão vai nos mandar de volta à Idade Média...!

Então alguns riem do comentário. O professor de sociologia se enfurece.

- Vocês não entendem?! Ideias antidemocráticas são uma opressão ao povo! Apenas as classes dominantes têm acesso à instrução! Ao defender Platão, vocês abrem caminho para a tirania conservadora do fascismo!

- Ora, isso não é verdade! – discorda Lopez – Toda forma de tirania pode surgir de uma república, seja ela conservadora ou progressista. Lembre-se que a Revolução Francesa derrubou o absolutismo, proclamando em seguida justamente uma República. E também foi em uma república que houve perseguições, aprisionamentos e expurgos, como o caso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas!

- Ah! – exclama Max – Mas você também sabia que a União Soviética, após proclamar a Revolução, foi atacada por dezessete países?

O professor de História se intriga.

- Dezessete países...?!

De fato, todos na sala se confundem.

- Bem, eu também não sabia disso... – responde Marcelina, entrando na conversa – Mas eu entendi o que Lopez quis dizer. Repúblicas podem ser boas ou más, independente das ideias de classe de Platão.

- Não se trata de ser boa ou má, Marcelina! Trata-se dela defender os interesses do povo contra políticas burguesas e neoliberais.

- E como garantir que isso aconteça? – pergunta Ortega.

- Simples. Com partidos trabalhistas e ideologia progressista.

Então os professores se entreolham. Alguns franzem a testa, desconfiados. Outros coçam o queixo, em concordância.

Concepción assistia a tudo enquanto tomava café. Encostado na bancada, o professor de História bebe um gole e pergunta:

- Este será um longo dia. Você tem planos para hoje à noite?

A professora estranha a pergunta.

- Não, eu acho. Talvez eu limpe a casa e faça a janta para os meus filhos. Por quê?

Um pouco sem jeito, ele responde:

- Eu estive pensando... Se você e eu pudéssemos sair hoje para beber alguma coisa... Ou comer, se preferir...

Concepción se assusta.

Lopez era um homem magro de cabelos pretos e grisalhos. Ele vestia um paletó preto e camisa social branca. Geralmente ele usava jaleco em suas aulas, o que o tornava bem profissional. Entretanto, ele tinha uma fisionomia esquisita e seu nariz era grande. Concepción o achava feio. Em outras circunstâncias, ela jamais olharia para ele, mas naquele momento Lopez era o único contato masculino que ela tinha ultimamente. Apesar de sua opinião negativa, ela não podia deixar de achar bonita a atitude do professor, parado diante de si e tremendo de nervoso durante a paquera.

- Me desculpe, professor Lopez, mas hoje eu não posso. – responde educadamente ela.

Lopez se abate por dentro. Apesar de abatido, ele se mantém firme ao responder: 

- Tudo bem. Fica para uma próxima, então.

No debate, Ortega humoradamente diz:

- De qualquer forma, uma república vai precisar do dinheiro do povo para ser sustentada. Espero que o partido seja tão trabalhista quanto o trabalhador, que tem que trabalhar duro para pagar o imposto!

- Ora, mas você não gosta de pagar o imposto? – pergunta Max, exultante – Você não gosta de iluminação pública, ruas asfaltadas, saneamento básico e educação de qualidade?

- A educação não é bem assim, não! – objeta Marcelina – Se fosse de qualidade, por existiriam tantas escolas particulares por aí? E também por que nossa escola, que é estadual, precisaria da ajuda da A.P.M. se já recebemos a verba do Estado?

Os professores concordam. A Associação de Pais e Mestres existia para complementar a renda escolar, pois a verba do Estado não era o suficiente. Ademais, todos unanimemente reclamavam do baixo salário dos professores.

Max tenta se justificar, mas seus argumentos são sempre ataques à burguesia, aos conservadores e as políticas neoliberais.

A discussão se acalora. O professor de sociologia era do tipo que não podia ser contrariado.

E assim o debate se torna uma síntese entre sociologia, filosofia e História.      

 

§

 

Ao final da tarde, os ânimos já estão acalmados. Os professores conversam normalmente, apesar dos assuntos estarem gradualmente se esgotando. Durante o dia todo, eles não fizeram nada, apenas beberam café e conversaram. Novamente não houve aula. Para a estranheza de todos, não parecia ter tido trabalho, pois o silêncio nas ruas era muito incomum.

Ortega se levanta do sofá e diz:

- Bem, o papo está bom, mas eu tenho que ir embora.

Max também se levanta e se despreguiça, estralando suas costas e os ombros.

- Eu também, caro amigo.

Arruda se levanta em silêncio. Depois de ser praticamente afrontado por Max, ele não quis mais conversar durante o dia, reservando-se a apenas ouvir em silêncio.

- Alguém está com a chave da porta? – pergunta Lopez.

- Não está na diretoria? – pergunta Ortega.

- Pensei que estivesse com o zelador. – responde Max.

- Não, o zelador não está vindo. Ele está de atestado médico. Só volta semana que vem. – responde Concepción.

A professora de física abre a bolsa e diz:

- A chave está comigo. Sou eu quem está abrindo a escola.

- Então a escola está em boas mãos. – responde Ortega, amigavelmente.

Os professores arrumam suas coisas e se preparam para sair. Ortega pergunta:

- E então? Do que conversaremos amanhã?

Todos se irritam.

- Que não seja de política! – responde Lopez.

- Esse é o melhor assunto! – insiste Max.

- Que tal exclusivamente de filosofia? – brinca Ortega.

Arruda sorri, balançando negativamente a cabeça.

- Mantenha-me fora disso!

Marcelina pega a chave e distraidamente se prepara para sair. Mas de repente algo acontece.

Alguém bate na porta em um estrondo.

Todos pulam, olhando para trás, assustados. O som foi tão alto que parece ter atravessado todas as juntas de seus ossos. Eles se olham, confusos. A batida foi tão violenta na porta que parece ter sido um chute ou um coice de cavalo.  

Mas o mais estranho foi que o golpe veio do lado de fora.

Controlando o medo sufocante em sua garganta, Ortega pergunta:

- Concepción, tem mais alguém na escola?

Com o coração quase saindo de sua boca, ela responde:

- Não, professor. Quando eu fui no pátio, eu estava sozinha. Não havia ninguém aqui.

- E quanto a diretora? – pergunta Lopez.

- Não. – responde Marcelina – A diretoria estava vazia.

- Mas mesmo que o zelador ou a diretora estivessem aqui, eles não teriam força para fazer tamanho estrondo. – comenta Arruda.

Todos concordam.

- Então o que diabos foi aquilo...?

Os professores se incomodam. Ortega humoradamente pede:

- Por favor, Max. Poderia não usar esse nome nesse momento, por favor?

Um minuto se passa. Eles estavam assustados demais para se mexer.

- Não podemos ficar aqui. Está anoitecendo e os postes já estão se acendendo. – informa Lopez.

- O professor tem razão. Acho que ninguém vai querer passar a noite aqui... – comenta Ortega.

- Então quem vai abrir a porta? – pergunta Max.

Marcelina, que segurava a chave, balança negativamente a cabeça, querendo dizer que ela não ia não.

- Eu vou.

Todos olham espantados para Concepción.

- Você tem certeza?

- Sim.

- Deixe que eu vá. Pode ser perigoso.

Lopez tenta ser cavalheiro, mas todos percebem que ele não quer realmente ir.

- Não precisa. Eu irei.

Concepción caminha até a porta. A sala estava tão silenciosa que ela podia ouvir suas respirações.

Pegando a maçaneta, ela bravamente a gira e a porta se abre. O som do destrave não é alto, mas ecoa pelo corredor externo. Todos se paralisam de medo.

Um rangido suave se forma. Colocando seus óculos, Concepción lentamente se inclina para fora. Em uma breve varredura visual, ela olha para o corredor e o vê escurecido pela penumbra. Nada além das cortinas se moviam. A noite se aproximava, e em breve tudo estaria em completa escuridão. As luzes estavam apagadas pois não havia necessidade de mantê-las acesas sem as aulas.

Mas, para o espanto de todos, não havia ninguém ali.

- Está vazia.

- O quê? – confunde-se Max.

- Não há ninguém.

Os professores ficam apreensivos. Não tinha porque mais alguém estar na escola. E estava escuro demais. Quem estivesse se escondendo em alguma sala, passaria toda a noite no frio e na escuridão.

“Então o que pode ter sido?”, perguntam-se eles em pensamento.  

Hesitantes, eles ajuntam o máximo de coragem que conseguem e saem, deixando a sala dos professores.

O silêncio é absoluto. Eles passam pela diretoria e, ao sair, Marcelina tranca a porta dupla. No corredor, ninguém ousa olhar para trás.

Assustados e apreensivos, eles se olham pela última vez aquele dia e se despedem uns dos outros, dizendo:

- Até amanhã.