sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A Sala dos Professores - 04 - Hora do Recreio


 

Antonieta era a professora de Ciências Naturais na escola. Ela lecionava para os alunos do Ensino Básico, ou Ginásio como alguns chamavam. Suas turmas eram da 5ª a 9ª série. Ela tinha uma deficiência física; uma de suas pernas era maior que a outra, sendo assim ela foi manca por toda a sua vida. Devido à deficiência, ela era obcecada pelas leis universais físicas. Quando adolescente, ela contava os passos de sua casa até a escola, e na vida adulta não foi diferente. Ela sabia de cor o número de passos de sua casa até o trabalho.

“Mil oitocentos e quarenta e dois passos”, lembra-se ela.

Ao cursar o magistério, algo em sua mente mudou.

Inicialmente ela pretendeu se formar em Física, porém sua obsessão pela física, e principalmente o seu físico, teve que dar um passo para trás. No momento não havia demanda para professores de física, e então ela decide parar na matéria que seria a porta de entrada para outras mais específicas no Ensino Médio.

Assim ela permaneceu em Ciências Naturais.

Em sala ela se lembra de sua lição aos alunos. Antonieta ergue um pote com água e óleo e explica porque os dois não se misturavam. Em outra aula, ela explica sobre os três estados da água. E por último, ela se lembra da aula em que os alunos olharam pelo telescópio pela primeira vez.

Ela não ganhava muito, mas se orgulhava de ser professora. Para ela, lecionar formava os cidadãos que seriam o futuro de seu país.

 

§

 

Antonieta é a última a chegar. Seu quadril dói. Seus pés doem. Suas pernas doem. Ela não era estranha à dor; na verdade, ela cresceu com ela.

E vive com ela até hoje.

Ao abrir o portão, ela sussurra:

- Mil, oitocentos e quarenta e dois.

Assim estava encerrada a contagem até o seu trabalho.

Abotoando o casaco, ela cruza os braços e caminha até a porta dupla. Fazia frio aquele outono; os ventos balançavam as árvores e sopravam as folhas. Ocupada em sua contagem como estava, ela nem percebeu que mal haviam carros nas ruas até a escola.

Antonieta passa pela diretoria e entra na sala dos professores.

- Bom dia, professora! – cumprimenta o carismático Ortega.

- Bom dia, professor!

- Tudo bem com você?

Ela faz uma expressão de cansaço e responde:

- Dolorida como sempre. Preciso me sentar...  

Antonieta passa cumprimentando a todos e se senta no sofá. O sofá tinha revestimento de couro sintético e, devido ao frio da manhã, estava todo gelado. Mas devido às suas dores, ela nem percebe.

Muitos tinham pena de sua condição física, mas preferiam ficar em silêncio. Os professores julgavam sua obsessão como um transtorno, e Antonieta não era amigável a comentários sobre isso. Ela construiu sua vida ao redor dela, tratando-a como uma extensão de sua identidade. Comentários e críticas a machucavam, preferindo proteger sua deficiência para evitar uma dor maior que a dor física; a dor emocional.

Aquela manhã Ortega decide fazer o café. Ele pega a garrafa e se dirige à porta. Todos notam sua inquietação; os professores ainda se lembram do sinistro golpe na porta no dia anterior. Naquela manhã, sair da sala era algo que todos silenciosamente se recusavam a fazer.

Mas Ortega tenta disfarçar o medo com seu bom-humor.

- Vou encher a garrafa. – informa ele – Volto já!

E então o professor sai pela porta.

- Do que vamos falar hoje? – pergunta Marcelina.

Os professores riem em desconforto. Passando o dia inteiro naquela sala sem nada para fazer, os assuntos se esgotavam.

- Que não seja de política! – brinca Antonieta.

Todos riem, com exceção do professor de sociologia.

- Vamos ligar a televisão. Talvez ainda esteja passando o jornal da manhã. – sugere Concepción.

- Boa ideia!

No jornal, as primeiras imagens exibem um discurso do novo presidente. Ele discursava em praça pública mas, para a surpresa dos professores, o presidente não estava fisicamente presente. O discurso era exibido de um enorme telão. Eles também olham estarrecidos como a praça estava lotada de espectadores, principalmente de alunos secundaristas.

Os espectadores ouviam com atenção e fervor. Os professores se intrigam. Para eles, os espectadores pareciam hipnotizados pelo novo líder.

- Será que é possível não falar de política? – ironiza Concepción – Olhem para essa multidão!     

- Sim. – concorda Lopez – O jeito que ele cativa as massas me lembra os comícios de Nuremberg na década de 30.

No telão, o presidente emite imagens de professores invadindo um de seus discursos no dia anterior. Nas imagens, os professores protestavam, perguntando por que eram discriminados pelo novo presidente. Eles reivindicavam maior atuação, liberdade e presença no novo governo.

O protesto gera indignação e revolta por parte dos alunos, que viam aquilo como um ataque. O protesto acaba em confusão generalizada, violência e desordem. A polícia é chamada e os professores são presos. Para a surpresa deles, nenhum aluno é detido.

Voltando a exibir o rosto do presidente, ele acusa abertamente os professores de fomentarem instabilidade, dissensão e divisão em seu governo. Assim ele emite um novo decreto. A partir de hoje, os professores estão proibidos de comparecem aos seus comícios. Além disso, os professores também estão proibidos de faltarem ao trabalho, sendo obrigados a irem trabalhar mesmo que não haja alunos nas escolas. Aqueles que violarem a lei poderão pegar de um a três anos de prisão em regime fechado.

Os professores se estarrecem.

A mídia e o noticiário pareciam estar ao lado do governo. Jornalistas e especialistas comentam o novo decreto; todos elogiam o presidente. Entrevistando juízes e magistrados, eles também o elogiam. Ninguém se opunha ao novo líder.

O jornal então prossegue com outras notícias.

Na sala dos professores, eles estão em silêncio, chocados com o que acabaram de assistir.

Lopez comenta:

- Esta foi uma medida draconiana, um autoritarismo bárbaro por parte do novo líder...!

- Foi isso mesmo o que eu entendi? – se pergunta Marcelina – Então agora estamos proibidos de não vir trabalhar?   

- Isso é loucura! – indigna-se Antonieta.

Um minuto depois, Ortega volta à sala e, aos vê-los em silêncio, pergunta:

- O que eu perdi?

- A partir de hoje estamos proibidos de não vir trabalhar. – responde Marcelina.

- O quê...?!

- É verdade. O não cumprimento é passivo de prisão. Palavras do novo presidente. – complementa Lopez.

Ortega ri, não conseguindo acreditar que aquilo era verdade.

- Mas por quê? – pergunta ele – Por que ele faria isso?

- Houve um protesto em seu último comício. Professores apareceram e reivindicaram maior participação no governo. O protesto virou um tumulto e eles foram presos. – responde Max.

- E a culpa é toda nossa? – ironiza ele.

- Para o presidente, sim.

Ortega ri novamente.

- Meu Deus... Ainda é seu primeiro ano de mandato e só piora...

 

§

 

Meio-dia.

Chegando a hora de almoço, Ortega brinca:

- É hora do recreio!

- Onde está a inspetora para tocar o sinal? – brinca Marcelina.

- Ah, provavelmente no comício do presidente...!

Todos riem.

Suas marmitas estão na copa ao lado. Abrindo a geladeira, eles pegam seus almoços e se dirigem ao micro-ondas. Então Antonieta sugere:

- Que tal a gente ir comer no pátio? A gente poderia passear pela escola, em seguida.

- Eu acho uma boa ideia. – responde Max – Eu sinceramente não estou aguentando mais passar o dia inteiro nessa sala...

- Vamos então.

Marcelina intervém.

- Podem ir, se quiserem. Eu vou pedir meu almoço pelo aplicativo.

Os professores assentem e então saem.

Sozinha na sala, a professora de física então pede a sua comida. Primeiro ela tenta o restaurante de sempre. Ela aguarda a resposta e se assusta com o que vê. O restaurante informa que não atende mais a escola. Tentando outro, eles questionam se era da escola e também rejeitam atendê-la. Na terceira, ela diz que é da escola e, ao ser questionada ser professora, eles simplesmente encerram a ligação. Marcelina fica sem entender o que está acontecendo.

Ao contatar o quarto restaurante, eles finalmente aceitam atendê-la.     

Trinta minutos depois, o entregador chega.

Como habitualmente, ventava muito naquela tarde de outono. Marcelina se dirige ao portão e o abre. O entregador era um adolescente de boné, pele oleosa e olhar sério; definitivamente um aluno secundarista. A professora o cumprimenta.

- Boa tarde!

Mas não há resposta.

Estendendo a mão para pegar o pacote, o jovem hesita em entregar-lhe, parecendo sentir desprezo. Ela pergunta:

- Mas o que é que está acontecendo? Nenhum restaurante queria atender a escola hoje!

- Eu não sabia que era para a escola, senão eu também não teria vindo.

A professora se intriga.

- Mas por quê? Há alguma coisa errada com a escola?

De maneira rude, o jovem responde:

- Não te interessa.

- Ora, mas que grosseria! – espanta-se ela – Sua mãe deveria te ensinar boas maneiras, viu? – e então ela toma o pacote de sua mão – Eu vou fazer uma queixa pelo mau atendimento!

- As queixas já foram feitas, senhora. Agora é hora do acerto de contas.

Com a resposta obscura, Marcelina se confunde.

- Do que você está falando?

Mas o aluno não lhe responde. Dando-lhe as costas, ele simplesmente monta em sua moto e vai embora.

 

§

 

Os demais professores almoçam no pátio. Eles se sentam à uma mesa grande e retangular, usada outrora pelos alunos do ano letivo. Mas a escola estava há tanto tempo sem alunos que parecia ter se passado anos desde a última aula ministrada ali.

Para eles era muito estranho o pátio vazio. Geralmente ele estava cheio de alunos, com correria, brincadeiras e gritos, desde crianças até adolescentes. Ninguém estava preparado quando o novo governo chegou. Agora tudo estava estranhamente pacífico.

A cozinha e a cantina estavam fechadas há semanas. Os professores sentiam falta de ter o que comprar. A merenda escolar, que alguns criticavam pela qualidade, também lhes fazia falta, pois alguns comiam quando esqueciam suas marmitas em casa.

Mas tudo aquilo era apenas uma memória agora.

A escola estava vazia. Com a chegada do outono, ela também estava fria e escura. A solidão percorria os corredores vazios. Nas salas de aula, sombras escondiam a poeira nas carteiras. O único movimento que eles viam eram o das cortinas, que balançavam sinistramente com o vento. Nenhum som podia ser ouvido. Às vezes as aves pousavam no telhado acima, mas só. Mas o ranger repentino da madeira era totalmente ignorado por eles. Os professores se recusavam a considerar que alguém escondido nos cantos escuros os espreitava. Negar o medo lhes conservava a sanidade. E desta maneira eles prosseguiam seus dias. 

Levantando-se, eles se limpam, lavam suas vasilhas e se retiram. Antigamente alguns ficavam na escadaria do pátio para fumar cigarro, mas após o bizarro evento de ontem, ninguém se atreveu a ficar sozinho de novo.

De volta à sala, eles encontram Marcelina com expressão irritada no canto da sala. Eles se intrigam.

Max pergunta:   

- Algum problema, professora?

- Eu fui destratada pelo entregador, acreditam?! – indigna-se ela.

- Por quê? O que aconteceu?

- Ele disse que se recusaria a entregar nessa escola de novo! E que o nosso acerto de contas ia chegar!

- Acerto de contas? Mas do que é que ele estava falando?

- Eu não sei! – exclama ela – Mas eu fiquei com medo! Eu me senti ameaçada!

Avançando, Antonieta pergunta:

- Como ele era?

- Pela idade, um aluno.

- Desta escola?

- Eu não sei. Eu nunca o vi aqui. Se for desta escola, talvez seja do período noturno.

- Mas ele te fez alguma coisa? – pergunta Concepción – Te agrediu ou coisa assim?

- Felizmente não. Foi apenas o transtorno, mesmo.

Os professores se tranquilizam.

Apesar da situação deixá-los apreensivos, eles tentam passar o resto da tarde normalmente.

 

§

 

O fim do expediente se aproxima. A lembrança do dia anterior ainda assombra suas mentes. Todos se lembram, mas todos ficam igualmente em silêncio.

Marcelina pega a chave da porta e, antes que pudesse girar a maçaneta, eles escutam um ruído vindo da rua.

Dirigindo-se à janela, os professores espiam atentamente. Um grupo incomum de motos passa pela rua. Eram motos pequenas e de baixa cilindrada. Os motoqueiros passam lentamente, acelerando e fazendo barulho. Os passageiros na garupa seguram faixas e bandeiras políticas. Os professores reconhecem as cores do partido do presidente. Suas faces estão ocultadas por capacetes de viseira escura, e aqueles que não estão de capacete usam capuzes e máscaras.

Os motoqueiros lançam olhares ameaçadores à escola. Eles dão a volta no quarteirão e param em frente ao portão de entrada. Enquanto rondam, eles empinam e aceleram alto, incomodando com o barulho ensurdecedor dos escapamentos.       

Em certo momento, o grupo brada um nome inconfundível; era o nome do presidente. Pelas vozes eles também percebem que o grupo era composto adolescentes, na maioria alunos secundaristas.

A arruaça dura alguns minutos. Durante esse tempo, nenhum dos professores tem coragem de sair da escola. Então, com a chegada da noite, o grupo finalmente se dispersa e os motoqueiros vão embora.

- Mas o que foi aquilo? – pergunta Lopez – Quem eram esses jovens?

- Me parecia uma milícia. – sugere Max.

- Você acha que eles estavam aqui para nos atacar?

- Eu não sei, mas definitivamente eram hostis.

Concepción os interrompe dizendo:

- Não podemos ficar aqui. Nós temos que ir embora também.

- Concordo. – diz Marcelina – Eu estou cansada. Eu quero ir para casa!

Todos concordam.

- E se eles voltarem? – pergunta Arruda.

Eles temem.

- Só há um jeito de saber.

Então, pouco a pouco, os professores deixam a sala e se dirigem ao estacionamento. Eles entram em seus carros e, um a um, deixam a escola. Mesmo Antonieta, que gostava de voltar andando apesar da dor, pega uma carona e vai embora.

E assim termina mais um dia em Santo Pároco.

    

 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

A Sala dos Professores - 03 - Associação de Pais e Mestres

 


Arruda era um homem tímido, quieto e introspectivo. Nos intervalos durante as aulas, ele raramente conversava em grupo. Geralmente ele ficava em silêncio, sorrindo e interagindo pouco com os colegas. Na verdade, lhes parecia que seu entretenimento era ver as pessoas conversando e se divertindo, enquanto ele se reclinava confortavelmente em sua poltrona.

Mas aquela tarde ele foi empurrado para a discussão.

De fato, aquela era uma tarde atípica. Eles não poderiam dar aula se não haviam alunos. Entretanto todo o plano de estudo do ano letivo já estava pronto. Desta maneira, eles ficariam ociosos durante todo o dia. Por questões financeiras, ninguém ia embora para casa, pois eles perderiam o dia e seria descontado do salário.

Então Max pergunta:

- Vamos esquecer um pouco as ideologias. Para você, professor Arruda, como seria uma sociedade ideal?

Ajeitando-se, Arruda responde:

- Bem, eu admiro a República de Platão.

Max se intriga.

- Como assim?

- Sim. – interrompe Ortega – Como assim, professor? Nos relembre esta brilhante obra, por favor.

- Para Platão, a república ideal era aquela governada por uma classe de líderes intelectuais, que por sua vez elegeriam um representante de sua classe, chamado por Platão de o “rei filósofo”.

Max se avilta.

- Ora, mas isso é um insulto! Me parece muito conveniente que um filósofo defenda a ideia filosófica de que sejamos governados por um filósofo! – ironiza ele.

Arruda se ruboriza, mas tenta elucidar.

- Deixe-me esclarecer para vocês. Imaginem que o mar está agitado. O que os tripulantes devem fazer? Colocar o marinheiro mais experiente para guia-lo, ou decidir por votação quem deve guiar? O mais sensato seria escolher o mais experiente, não? – explica ele – Pois esta é a preocupação de Platão. Para ele, dar o poder para todos votarem possibilita que a sociedade se nivele por baixo, colocando em risco os seus valores e sua sobrevivência. Muitos não entendem quando digo isto, mas Platão era crítico da democracia. Mas isto não quer dizer que ele era um tirano. – esclarece ele – Ao dar aos líderes intelectuais o governo, ele previne que a sociedade eleja e seja governada pelos incompetentes, enganadores e medíocres.  

Max se avilta mais ainda.

- Isto me parece a criação da desigualdade, pois só governaria os privilegiados por receber a instrução!

- Não exatamente, professor Max. – objeta ele – Platão teorizava uma sociedade dividida em três classes. Os comerciantes e artesãos, que produziam e revendiam os bens; os militares e guardas, que protegiam as pessoas e os bens; e finalmente os líderes intelectuais, que se tornariam filósofos. Nas escolas, para cada aptidão individual haveria uma separação, ou seja, aquele com inclinação para a produção seria instruído no artesanato e no comércio; aquele com inclinação para a guarda seria instruído o exército; e aquele com inclinação para a filosofia receberia instrução para o governo. Esta era a sua justa divisão de classes. Não havia desprivilegiados ou injustiçados. Para ele, este era o seu ideal de República. 

Os professores assentem. Mas Max ainda não se convence. Ele pergunta:

- E o que é uma República?

Então todos olham para Concepción, que estava quieta o tempo todo no canto da sala. Ela se desencosta do balcão e responde:

- Bem, a palavra tem origem no latim “res publica”, literalmente significando “coisa pública” administrada pelo Estado.         

Desafiante, Max confronta:

- Pois para mim me parece tirania! Uma classe intelectual é privilegiada sim, e apenas os mais ricos têm privilégios para uma melhor instrução. Não podemos permitir ideias totalitárias de divisão de classes e de tirania, como é o caso de Platão. É isto o que a ideologia combate, uma sociedade dividida em classes em que os desfavorecidos não têm acesso à instrução e tampouco ao poder. Ao contrário, ela promove a igualdade através da democracia e, se necessário, da Revolução.

E assim o professor de sociologia deixa transparecer o seu fervor político.

Arruda é razoável ao responder:

- É apenas uma teoria. Não se trata de desigualdade entre as classes, mas de aptidão. Cada um seria livre para seguir o seu caminho. As escolas apenas o apontariam qual desejassem seguir. É apenas este o ideal republicano platônico.

- Republicano?! Eu chamaria de Estado de exceção, de retrocesso, de absolutismo!

Então os professores se intrigam. Nem todos dominavam os temas que no debate surgiam.

- O que é absolutismo? – pergunta Marcelina, a professora de física.

Desta vez todos olham para Lopez.

Ao lado de Concepción, ele se vê pego de surpresa. Ele também foi arrastado para dentro do debate. Ele responde:

- Absolutismo é um sistema político cujos governantes têm o poder absoluto, sem restrições. O termo é comumente usado para descrever os reis europeus durante o feudalismo e o mercantilismo. Ele é caracterizado pelo fim da partição feudal, pela consolidação do poder pelo monarca, pela unificação das leis pelo reino, e pela diminuição da influência da Igreja e da nobreza. Os monarcas absolutistas acreditavam ter o direito divino de governar, uma doutrina política e religiosa surgida após a Reforma do cristianismo. 

A professora de física faz uma expressão de estranheza. Misturando açúcar em seu café com a colher, ela diz:

- Eu não acho que a República de Platão vai nos mandar de volta à Idade Média...!

Então alguns riem do comentário. O professor de sociologia se enfurece.

- Vocês não entendem?! Ideias antidemocráticas são uma opressão ao povo! Apenas as classes dominantes têm acesso à instrução! Ao defender Platão, vocês abrem caminho para a tirania conservadora do fascismo!

- Ora, isso não é verdade! – discorda Lopez – Toda forma de tirania pode surgir de uma república, seja ela conservadora ou progressista. Lembre-se que a Revolução Francesa derrubou o absolutismo, proclamando em seguida justamente uma República. E também foi em uma república que houve perseguições, aprisionamentos e expurgos, como o caso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas!

- Ah! – exclama Max – Mas você também sabia que a União Soviética, após proclamar a Revolução, foi atacada por dezessete países?

O professor de História se intriga.

- Dezessete países...?!

De fato, todos na sala se confundem.

- Bem, eu também não sabia disso... – responde Marcelina, entrando na conversa – Mas eu entendi o que Lopez quis dizer. Repúblicas podem ser boas ou más, independente das ideias de classe de Platão.

- Não se trata de ser boa ou má, Marcelina! Trata-se dela defender os interesses do povo contra políticas burguesas e neoliberais.

- E como garantir que isso aconteça? – pergunta Ortega.

- Simples. Com partidos trabalhistas e ideologia progressista.

Então os professores se entreolham. Alguns franzem a testa, desconfiados. Outros coçam o queixo, em concordância.

Concepción assistia a tudo enquanto tomava café. Encostado na bancada, o professor de História bebe um gole e pergunta:

- Este será um longo dia. Você tem planos para hoje à noite?

A professora estranha a pergunta.

- Não, eu acho. Talvez eu limpe a casa e faça a janta para os meus filhos. Por quê?

Um pouco sem jeito, ele responde:

- Eu estive pensando... Se você e eu pudéssemos sair hoje para beber alguma coisa... Ou comer, se preferir...

Concepción se assusta.

Lopez era um homem magro de cabelos pretos e grisalhos. Ele vestia um paletó preto e camisa social branca. Geralmente ele usava jaleco em suas aulas, o que o tornava bem profissional. Entretanto, ele tinha uma fisionomia esquisita e seu nariz era grande. Concepción o achava feio. Em outras circunstâncias, ela jamais olharia para ele, mas naquele momento Lopez era o único contato masculino que ela tinha ultimamente. Apesar de sua opinião negativa, ela não podia deixar de achar bonita a atitude do professor, parado diante de si e tremendo de nervoso durante a paquera.

- Me desculpe, professor Lopez, mas hoje eu não posso. – responde educadamente ela.

Lopez se abate por dentro. Apesar de abatido, ele se mantém firme ao responder: 

- Tudo bem. Fica para uma próxima, então.

No debate, Ortega humoradamente diz:

- De qualquer forma, uma república vai precisar do dinheiro do povo para ser sustentada. Espero que o partido seja tão trabalhista quanto o trabalhador, que tem que trabalhar duro para pagar o imposto!

- Ora, mas você não gosta de pagar o imposto? – pergunta Max, exultante – Você não gosta de iluminação pública, ruas asfaltadas, saneamento básico e educação de qualidade?

- A educação não é bem assim, não! – objeta Marcelina – Se fosse de qualidade, por existiriam tantas escolas particulares por aí? E também por que nossa escola, que é estadual, precisaria da ajuda da A.P.M. se já recebemos a verba do Estado?

Os professores concordam. A Associação de Pais e Mestres existia para complementar a renda escolar, pois a verba do Estado não era o suficiente. Ademais, todos unanimemente reclamavam do baixo salário dos professores.

Max tenta se justificar, mas seus argumentos são sempre ataques à burguesia, aos conservadores e as políticas neoliberais.

A discussão se acalora. O professor de sociologia era do tipo que não podia ser contrariado.

E assim o debate se torna uma síntese entre sociologia, filosofia e História.      

 

§

 

Ao final da tarde, os ânimos já estão acalmados. Os professores conversam normalmente, apesar dos assuntos estarem gradualmente se esgotando. Durante o dia todo, eles não fizeram nada, apenas beberam café e conversaram. Novamente não houve aula. Para a estranheza de todos, não parecia ter tido trabalho, pois o silêncio nas ruas era muito incomum.

Ortega se levanta do sofá e diz:

- Bem, o papo está bom, mas eu tenho que ir embora.

Max também se levanta e se despreguiça, estralando suas costas e os ombros.

- Eu também, caro amigo.

Arruda se levanta em silêncio. Depois de ser praticamente afrontado por Max, ele não quis mais conversar durante o dia, reservando-se a apenas ouvir em silêncio.

- Alguém está com a chave da porta? – pergunta Lopez.

- Não está na diretoria? – pergunta Ortega.

- Pensei que estivesse com o zelador. – responde Max.

- Não, o zelador não está vindo. Ele está de atestado médico. Só volta semana que vem. – responde Concepción.

A professora de física abre a bolsa e diz:

- A chave está comigo. Sou eu quem está abrindo a escola.

- Então a escola está em boas mãos. – responde Ortega, amigavelmente.

Os professores arrumam suas coisas e se preparam para sair. Ortega pergunta:

- E então? Do que conversaremos amanhã?

Todos se irritam.

- Que não seja de política! – responde Lopez.

- Esse é o melhor assunto! – insiste Max.

- Que tal exclusivamente de filosofia? – brinca Ortega.

Arruda sorri, balançando negativamente a cabeça.

- Mantenha-me fora disso!

Marcelina pega a chave e distraidamente se prepara para sair. Mas de repente algo acontece.

Alguém bate na porta em um estrondo.

Todos pulam, olhando para trás, assustados. O som foi tão alto que parece ter atravessado todas as juntas de seus ossos. Eles se olham, confusos. A batida foi tão violenta na porta que parece ter sido um chute ou um coice de cavalo.  

Mas o mais estranho foi que o golpe veio do lado de fora.

Controlando o medo sufocante em sua garganta, Ortega pergunta:

- Concepción, tem mais alguém na escola?

Com o coração quase saindo de sua boca, ela responde:

- Não, professor. Quando eu fui no pátio, eu estava sozinha. Não havia ninguém aqui.

- E quanto a diretora? – pergunta Lopez.

- Não. – responde Marcelina – A diretoria estava vazia.

- Mas mesmo que o zelador ou a diretora estivessem aqui, eles não teriam força para fazer tamanho estrondo. – comenta Arruda.

Todos concordam.

- Então o que diabos foi aquilo...?

Os professores se incomodam. Ortega humoradamente pede:

- Por favor, Max. Poderia não usar esse nome nesse momento, por favor?

Um minuto se passa. Eles estavam assustados demais para se mexer.

- Não podemos ficar aqui. Está anoitecendo e os postes já estão se acendendo. – informa Lopez.

- O professor tem razão. Acho que ninguém vai querer passar a noite aqui... – comenta Ortega.

- Então quem vai abrir a porta? – pergunta Max.

Marcelina, que segurava a chave, balança negativamente a cabeça, querendo dizer que ela não ia não.

- Eu vou.

Todos olham espantados para Concepción.

- Você tem certeza?

- Sim.

- Deixe que eu vá. Pode ser perigoso.

Lopez tenta ser cavalheiro, mas todos percebem que ele não quer realmente ir.

- Não precisa. Eu irei.

Concepción caminha até a porta. A sala estava tão silenciosa que ela podia ouvir suas respirações.

Pegando a maçaneta, ela bravamente a gira e a porta se abre. O som do destrave não é alto, mas ecoa pelo corredor externo. Todos se paralisam de medo.

Um rangido suave se forma. Colocando seus óculos, Concepción lentamente se inclina para fora. Em uma breve varredura visual, ela olha para o corredor e o vê escurecido pela penumbra. Nada além das cortinas se moviam. A noite se aproximava, e em breve tudo estaria em completa escuridão. As luzes estavam apagadas pois não havia necessidade de mantê-las acesas sem as aulas.

Mas, para o espanto de todos, não havia ninguém ali.

- Está vazia.

- O quê? – confunde-se Max.

- Não há ninguém.

Os professores ficam apreensivos. Não tinha porque mais alguém estar na escola. E estava escuro demais. Quem estivesse se escondendo em alguma sala, passaria toda a noite no frio e na escuridão.

“Então o que pode ter sido?”, perguntam-se eles em pensamento.  

Hesitantes, eles ajuntam o máximo de coragem que conseguem e saem, deixando a sala dos professores.

O silêncio é absoluto. Eles passam pela diretoria e, ao sair, Marcelina tranca a porta dupla. No corredor, ninguém ousa olhar para trás.

Assustados e apreensivos, eles se olham pela última vez aquele dia e se despedem uns dos outros, dizendo:

- Até amanhã.