(Imagem da Escola Bispo em Jundiaí-SP)
Concepción passa
pelo portão e entra na escola. Aquela era uma escola estadual de primeiro e
segundo grau da qual ele lecionava há quase duas décadas. Há um pequeno pátio
cimentado até o prédio principal. Ela o atravessa e alcança a velha porta dupla
de madeira e vidro. Um estralo alto se forma ao fecha-la, como se tivessem
lançado tralhas em uma caçamba de entulho. O estralo sempre a incomodou, mas
agora há um detalhe que agrava o seu incômodo. A escola estava vazia, e
qualquer som ecoava pelas salas e corredores vazios.
Olhando para a
diretoria, ela a encontra vazia. Novamente a diretora não foi trabalhar. Ela
estranha; após uma semana desde a posse do novo presidente, ela não via mais a
diretora na escola.
Virando-se, ele
segue para a sala dos professores.
- Olá,
Concepción! Como vai a nossa professora de línguas preferida?
Um homem de
cabelos negros, um pouco longos, e óculos a cumprimenta. Era o professor de Sociologia.
- Bom dia, Max.
Como vai?
A sala estava
movimentada, haviam mais de dez professores. De tanta gente, faltava espaço
para descansarem. Mas não havia mais necessidade de descanso, pois não haviam
mais aulas para ministrar.
Alguém se levanta
e pergunta:
- Ei, cadê o
café...?
Ele se vira e acidentalmente
se esbarra na professora. Eles se olham e Concepción vê um homem alto, um pouco
calvo, usando uma camisa um pouco apertada para sua barriga sobressaliente. Era
o professor de Geografia.
- Mil perdões,
professora! Foi sem querer.
O homem sorri
para ela.
- Tudo bem,
Ortega. Não foi nada. – tranquiliza ela.
- Estou querendo
café. Você sabe se tem café?
- Não tem. –
responde alguém no outro lado da sala – Ainda não foram fazer.
Concepción vê um
homem de paletó, cabelos lisos, mas grisalhos. Era o professor de História.
- Pois permita-me
ir fazê-lo, Lopez. Não consigo passar mais um dia nessa escola nesse tédio de
não ter o que fazer. Preciso de um café. – responde o professor de geografia –
Onde está a cafeteira?
- Não, não
precisa ir. – interrompe Concepción – Deixe que eu mesma faço.
Ortega e Lopez se
intrigam.
- Onde estariam
meus modos se eu deixasse, professora?
- Não tem problema,
Ortega. Eu preciso mesmo ir ao pátio do refeitório.
O professor
sorri, assentindo. Então Concepción pega a garrafa da cafeteira e deixa a sala
dos professores.
Novamente no lado
de fora, ela respira fundo e enxuga o suor de sua testa. Concepción não gosta
de muita gente em espaços confinados, pois o aperto lhe causa sufoco e
ansiedade. Ali fora, ela sentia alívio.
Mas o alívio dura
pouco.
No corredor, ela
dá dois passos e se paralisa. Uma brisa fria passa em suas pernas e sua nuca.
Ela olha para frente e vê o longo corredor se esticando até acabar em uma
escadaria deserta e escura. Nas janelas, as cortinas balançavam sutilmente com
o vento, movendo-se vagarosamente como o flutuar de um fantasma.
A porta para o
refeitório ficava mais a frente, mas ela não consegue avançar pelo sinistro corredor.
No silêncio da escola, qualquer barulho ecoava pelos cantos, percorrendo as
paredes e estremecendo os seus ossos. Mais um pouco de atenção e ela poderia
ouvir vozes, sussurros e até gritos dos mortos vindos da escuridão.
Aquilo era a
premonição de algo muito ruim.
Apertando a sua
blusa, ela afasta os pensamentos e caminha assim mesmo. Concepción era uma
mulher adulta, madura e sem tempo para medos infantis.
Os passos
retumbam pela escola até o pátio do refeitório. Chegando lá ela o encontra
igualmente fúnebre. As janelas estavam entreabertas, permitindo a entrada do
vento frio; os longos bancos de madeira estavam desalinhados e acumulavam
poeira; a porta giratória da cantina balançava levemente com o vento; as paredes
tinham pichações e a tinta se descascava gradualmente; e a cozinha não era
visitada por dias.
Concepcíon se
dirige à pia dos alunos. Haviam seis torneiras no total. Havia um longo espelho
na parede, mas ela evita olhá-lo. Ela abre a torneira e pacientemente espera a
garrafa se encher. De repente algo a assusta. Pelo reflexo do espelho, ela tem
a impressão de ver alguma coisa passar muito rápido atrás dela. Ela se vira
rapidamente, mas não havia ninguém.
Acalmando-se, ela
se vira para fechar a torneira e intenta ir embora. Mas sem poder evitar, ela
se contempla no espelho.
Concepción era
uma mulher de meia idade. Seus cabelos eram loiros e grisalhos. Seus óculos
estavam pendurados no seu pescoço e seus dentes estavam amarelados devido a
cafeína. Ela não era feia, mas se achava feia e velha. Divorciada, ela tinha
dois filhos, Hugo e Alejandro, e achava que nunca mais ia casar. Para ela,
nenhum homem iria querer uma mulher de dois filhos beirando os cinquenta. Ela
tenta se convencer que estar solteira é melhor do que em um novo casamento, mas
a solidão lhe apertava o peito e lhe rasgava a alma. Sozinha e com dois filhos
para criar, ela compensava neles o seu amor materno, sua carência amorosa e seu
propósito de vida.
De volta à sala
dos professores, ela põe a garrafa e liga a cafeteira. O aparelho faz tudo
sozinho e ela apenas aguarda olhando pela janela. Os professores conversavam
atrás dela, mas ela não participa, preferindo ficar um pouco sozinha.
Concepción nota
que a vizinhança estava muito vazia. Não haviam carros passando e nem
pedestres. Os alunos, apesar de bagunceiros e barulhentos, davam vida à escola
e à vizinhança, mas hoje a energia de sua juventude lhe fazia falta. O que ela
via era apenas um dia frio, cinzento, cujos vento varria as folhas secas das
árvores no outono.
De repente alguém
atrás dela pergunta:
- A vizinhança
está vazia, não?
Ela se vira e vê
o professor de História atrás dela.
- Sim, Lopez.
Muito vazia.
- O que será que
houve com as pessoas? Não vejo nem os adultos nas ruas.
- Eu também não
sei, professor. Me parece que somos os únicos adultos no bairro todo.
Alguém liga a
televisão atrás deles e eles veem uma vinheta peculiar. O professor de geografia
diz:
- É o
pronunciamento oficial do novo presidente!
Sobre o palanque, o novo presidente estava
acompanhado de seu conselho de ministros. Antes do discurso, ele lançava um
olhar sério para os jornalistas, como se os inspecionasse. Seus cabelos pretos
e bigode lhe davam a aparência de um militar, mas seu terno e gravata lhe
aparentavam apenas um civil. Na plateia, milhares de estudantes compareciam na
coletiva de imprensa, na maioria alunos secundaristas.
- Ei, o meu filho
está ali! – comenta Max.
- As minhas
filhas também. – diz Ortega.
De fato, os
filhos de quase todos os professores estavam naquela coletiva.
- Meus filhos
gostam muito dele. Dizem que ele os ensina sobre honestidade e cidadania. –
comenta Lopez – Fico feliz que o presidente esteja fazendo algo de positivo
pelos jovens do país.
Concepción também
enxerga isso, pois seus filhos também se afeiçoaram ao novo presidente.
O discurso
começa. O presidente prometia mudanças abruptas no país. Ele não revelava
exatamente o que mudaria, mas suas palavras carregavam perigosa convicção.
Avançando, ele profere discursos cada vez mais efusivos contra os inimigos do
novo regime, os chamados “doutrinadores” do antigo regime. Então, para a
surpresa de todos, ele cita abertamente os professores. Ele prometia que na
nova era de seu mandato, os doutrinadores seriam esmagados pelo alvorecer de
algo novo.
E neste momento os professores se assustam.
O presidente
criticava as ideologias, chamando-as de veneno da mente. Ele denunciava a sua
alienação, prejudicando a consciência e o esclarecimento político, sobretudo da
juventude. Para ele, não era o suficiente a regulação das redes sociais e da
mídia, mas estreita vigilância sobre aqueles que propagavam as ideologias nas
salas de aula. Ele novamente atacava os professores.
Então o
presidente prossegue em seu discurso, falando sobre meio ambiente, economia e
relações internacionais.
Um silêncio
pesado paira na sala. Os professores, que momentos antes o admiravam por ele
despertar o interesse político em seus filhos, agora o antagonizavam em pensamento.
Concepción quebra
o silêncio e diz:
- Talvez este
seja um discurso inicial do novo presidente. Talvez ele não queira realmente
dizer isso.
- E como não? –
discorda Ortega – Ele citou claramente a nós, os professores!
- Isso para mim
se parece com o discurso de um ditador! – critica Lopez.
- O presidente
nos atacou abertamente, nos chamando de “doutrinadores do velho regime”. E o
que virá depois? Ataque ao voto feminino?
Então Concepción
e as demais professoras se incomodam. Junto dela, eram mulheres as professoras
de ciências naturais, física, química e biologia.
- Eu não duvido. Ele
criticou a alienação ideológica, mas é ele envenenando a juventude com,
adivinhem, alienação ideológica! – ironiza Ortega.
Os professores
concordam. Então Max altivamente os interrompe, perguntando:
- E o que é
ideologia?
Todos se
confundem.
- O que disse? –
pergunta Ortega.
- O que é
ideologia, meu caro geógrafo? – responde ele, sorrindo – Segundo a Sociologia,
é uma organização de ideias fundamentadas por um determinado grupo social,
geralmente um comitê ou um partido. Ela se caracteriza por interesses políticos
para fins institucionais, ou seja, aplica-los em organismos públicos
estabelecidos por meios de leis e estatutos, como os órgãos governamentais. Ademais,
as instituições visam atender as necessidades da sociedade, organizando e
regulando o comportamento das pessoas.
- E o que isso
quer dizer, Max? Está insinuando que o presidente quer introduzir sua ideologia
nas instituições públicas? – pergunta Ortega.
- Eu não sei.
Talvez. Ainda não podemos dizer. – responde ele – O presidente pode ser tanto
marxista, contendo ideias de aspirações progressistas ou revolucionárias do
proletariado, como a consciência de classe; quanto um neoliberal, defendendo ou
até protegendo os interesses econômicos da burguesia. De qualquer forma, ele
precisa de uma ideologia concisa que arregimente a juventude, incutindo-lhes
acerbada importância e usando-lhes como massa de manobra. Ainda é muito cedo
para dizer.
Alguns
professores concordam. Outros se mantém em silêncio.
Havia um homem
quieto na sala. Ele tinha a pele morena, cabelos duros e era magro. Aquele era
o professor de Filosofia.
Ortega olha para ele
pergunta:
- O que você
acha, Arruda?
- Bem, pela ótica
da filosofia – começa ele –, eu diria que a ideologia tem origem nas noções
sensoriais do indivíduo, a partir de sua compreensão do mundo externo. Ou seja,
o autor usa como base suas experiências para a coleta dados de pessoas que
passaram por experiências semelhantes, assim criando uma teoria que corrobore
sua própria visão de mundo. Ideologia é coletiva, mas se originou de um
indivíduo, que identificou em um grupo os mesmos problemas, ou até os convenceu
de que todos os enfrentavam mutuamente, assim arregimentando-os para a causa. Tudo
depende do nível de honestidade do autor.
Max se intriga.
- Está dizendo
que as ideologias podem ser falsas fabricações?
- Eu também não
sei, professor. Mas ideologias políticas podem ser usadas para fins egoístas. Aliás,
o egoísmo é característico do ser humano. Usamos as virtudes para o bem ou para
o mal. Tudo pode ser falso nas palavras de um bom orador.
- Não são falsos
os problemas sociais que enfrentamos. Fome, violência, desemprego, pobreza...
As ideologias são um meio político de conscientização. A sociedade não deve ser
tratada como um corpo que, quando doente, aplica-se o remédio no local exato da
dor. Não. Ela deve ser tratada na qualidade da nutrição para que, ao
conscientizar os indivíduos do que eles consomem, nunca mais precisem tomar
remédios.
Arruda sorri.
- Esta é uma boa
analogia, Max, mas eu tenho outra. Imagine uma garrafa de refrigerante.
Ideologia é como uma garrafa que em seu rótulo está escrito inúmeras verdades,
mas que em seu conteúdo há incontáveis mentiras. Por isso eu afirmei: seres
humanos são egoístas e podem usar até suas virtudes para praticar o mal.
Então os
professores se dividem. Alguns acreditam que a educação ideológica pode
transformar a sociedade; outros acreditam que a sociedade pode sofrer com a
ideologia errada.
Percebendo que um
longo debate se iniciava, Lopez puxa Concepción pela mão e diz:
- Já vi que isso
vai ser desgastante. Quer tomar um café?

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