sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A Sala dos Professores - 01 - Introdução

 


(Fonte desconhecida)


Em 2030 ocorre uma troca de regime.

Em um certo país da América Latina, o novo presidente eleito recebe apoio massivo da população. Misturando populismo com progressismo, ele promete apoio ao empresariado sem se esquecer das causas trabalhistas. Nos canais de comunicação, a imprensa se refere a ele como o “novo líder”, um homem carismático, determinado e firme em seus objetivos.

A população o via como uma esperança; um político preocupado em erradicar a pobreza e estimular a qualidade de vida. Mas as classes intelectuais não o viam desta maneira; eles viam apenas um oportunista, um mais do mesmo, carregado de falsas promessas e demagogia.

O novo líder era um homem de cabelos pretos, bigode, estatura média e geralmente vestindo terno e gravata. Não havia nada demais em sua aparência. Atrás do palanque, ele discursava com olhar sério, direto e sucinto em suas palavras, com expressão até um pouco enérgica. A população parecia hipnotizada. No presidente as alas antagônicas se uniam em uma união ideológica improvável. O modo como ele conduzia as massas espantava os especialistas da imprensa, fazendo-o ser visto com mais e mais desconfiança.

O tempo passa.

Após sua eleição, seus discursos se tornam mais efusivos nos canais de comunicação. Postes e praças também foram usados. Além da televisão e da internet, o novo regime empregara carros de som e alto-falantes.

Algo inusitado acontece. Alunos do colegial são convocados a participar dos comícios do novo líder. Organizados pelo partido, os comícios se espalham por todo o país e telões são instalados para a transmissão dos discursos. Estranhamente o presidente nunca era visto em público, seja na capital federativa ou no palácio presidencial. Ele era apenas assistido nos telões.  

No começo as convocações eram voluntárias, mas com o tempo passam a ser obrigatórias. Para a surpresa dos professores, os alunos não se rebelam contra a medida, mas passam a desejar participa-los. Os professores, porém, não eram convocados. Ao contrário dos alunos, eles foram obrigados a continuar indo trabalhar. Isto gerou desconfiança, pois eles compareciam às escolas, mas as escolas estavam sempre vazias. Não haviam alunos nas salas de aula; durante todo o período letivo, os alunos estavam nos comícios.

Após um tempo, os professores passam a ser proibidos de comparecer nas convocações. Se tentassem, eles eram impedidos por força policial. Cada vez mais empurrados para longe do novo líder, o corpo docente se viu empurrado de volta às escolas, onde eram obrigados a ir trabalhar.

Mas... para quem ministrar suas aulas se não haviam alunos nas salas de aula?

Assim eles passavam o dia inteiro na sala dos professores.

 

  

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