sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A Sala dos Professores - 04 - Hora do Recreio


 

Antonieta era a professora de Ciências Naturais na escola. Ela lecionava para os alunos do Ensino Básico, ou Ginásio como alguns chamavam. Suas turmas eram da 5ª a 9ª série. Ela tinha uma deficiência física; uma de suas pernas era maior que a outra, sendo assim ela foi manca por toda a sua vida. Devido à deficiência, ela era obcecada pelas leis universais físicas. Quando adolescente, ela contava os passos de sua casa até a escola, e na vida adulta não foi diferente. Ela sabia de cor o número de passos de sua casa até o trabalho.

“Mil oitocentos e quarenta e dois passos”, lembra-se ela.

Ao cursar o magistério, algo em sua mente mudou.

Inicialmente ela pretendeu se formar em Física, porém sua obsessão pela física, e principalmente o seu físico, teve que dar um passo para trás. No momento não havia demanda para professores de física, e então ela decide parar na matéria que seria a porta de entrada para outras mais específicas no Ensino Médio.

Assim ela permaneceu em Ciências Naturais.

Em sala ela se lembra de sua lição aos alunos. Antonieta ergue um pote com água e óleo e explica porque os dois não se misturavam. Em outra aula, ela explica sobre os três estados da água. E por último, ela se lembra da aula em que os alunos olharam pelo telescópio pela primeira vez.

Ela não ganhava muito, mas se orgulhava de ser professora. Para ela, lecionar formava os cidadãos que seriam o futuro de seu país.

 

§

 

Antonieta é a última a chegar. Seu quadril dói. Seus pés doem. Suas pernas doem. Ela não era estranha à dor; na verdade, ela cresceu com ela.

E vive com ela até hoje.

Ao abrir o portão, ela sussurra:

- Mil, oitocentos e quarenta e dois.

Assim estava encerrada a contagem até o seu trabalho.

Abotoando o casaco, ela cruza os braços e caminha até a porta dupla. Fazia frio aquele outono; os ventos balançavam as árvores e sopravam as folhas. Ocupada em sua contagem como estava, ela nem percebeu que mal haviam carros nas ruas até a escola.

Antonieta passa pela diretoria e entra na sala dos professores.

- Bom dia, professora! – cumprimenta o carismático Ortega.

- Bom dia, professor!

- Tudo bem com você?

Ela faz uma expressão de cansaço e responde:

- Dolorida como sempre. Preciso me sentar...  

Antonieta passa cumprimentando a todos e se senta no sofá. O sofá tinha revestimento de couro sintético e, devido ao frio da manhã, estava todo gelado. Mas devido às suas dores, ela nem percebe.

Muitos tinham pena de sua condição física, mas preferiam ficar em silêncio. Os professores julgavam sua obsessão como um transtorno, e Antonieta não era amigável a comentários sobre isso. Ela construiu sua vida ao redor dela, tratando-a como uma extensão de sua identidade. Comentários e críticas a machucavam, preferindo proteger sua deficiência para evitar uma dor maior que a dor física; a dor emocional.

Aquela manhã Ortega decide fazer o café. Ele pega a garrafa e se dirige à porta. Todos notam sua inquietação; os professores ainda se lembram do sinistro golpe na porta no dia anterior. Naquela manhã, sair da sala era algo que todos silenciosamente se recusavam a fazer.

Mas Ortega tenta disfarçar o medo com seu bom-humor.

- Vou encher a garrafa. – informa ele – Volto já!

E então o professor sai pela porta.

- Do que vamos falar hoje? – pergunta Marcelina.

Os professores riem em desconforto. Passando o dia inteiro naquela sala sem nada para fazer, os assuntos se esgotavam.

- Que não seja de política! – brinca Antonieta.

Todos riem, com exceção do professor de sociologia.

- Vamos ligar a televisão. Talvez ainda esteja passando o jornal da manhã. – sugere Concepción.

- Boa ideia!

No jornal, as primeiras imagens exibem um discurso do novo presidente. Ele discursava em praça pública mas, para a surpresa dos professores, o presidente não estava fisicamente presente. O discurso era exibido de um enorme telão. Eles também olham estarrecidos como a praça estava lotada de espectadores, principalmente de alunos secundaristas.

Os espectadores ouviam com atenção e fervor. Os professores se intrigam. Para eles, os espectadores pareciam hipnotizados pelo novo líder.

- Será que é possível não falar de política? – ironiza Concepción – Olhem para essa multidão!     

- Sim. – concorda Lopez – O jeito que ele cativa as massas me lembra os comícios de Nuremberg na década de 30.

No telão, o presidente emite imagens de professores invadindo um de seus discursos no dia anterior. Nas imagens, os professores protestavam, perguntando por que eram discriminados pelo novo presidente. Eles reivindicavam maior atuação, liberdade e presença no novo governo.

O protesto gera indignação e revolta por parte dos alunos, que viam aquilo como um ataque. O protesto acaba em confusão generalizada, violência e desordem. A polícia é chamada e os professores são presos. Para a surpresa deles, nenhum aluno é detido.

Voltando a exibir o rosto do presidente, ele acusa abertamente os professores de fomentarem instabilidade, dissensão e divisão em seu governo. Assim ele emite um novo decreto. A partir de hoje, os professores estão proibidos de comparecem aos seus comícios. Além disso, os professores também estão proibidos de faltarem ao trabalho, sendo obrigados a irem trabalhar mesmo que não haja alunos nas escolas. Aqueles que violarem a lei poderão pegar de um a três anos de prisão em regime fechado.

Os professores se estarrecem.

A mídia e o noticiário pareciam estar ao lado do governo. Jornalistas e especialistas comentam o novo decreto; todos elogiam o presidente. Entrevistando juízes e magistrados, eles também o elogiam. Ninguém se opunha ao novo líder.

O jornal então prossegue com outras notícias.

Na sala dos professores, eles estão em silêncio, chocados com o que acabaram de assistir.

Lopez comenta:

- Esta foi uma medida draconiana, um autoritarismo bárbaro por parte do novo líder...!

- Foi isso mesmo o que eu entendi? – se pergunta Marcelina – Então agora estamos proibidos de não vir trabalhar?   

- Isso é loucura! – indigna-se Antonieta.

Um minuto depois, Ortega volta à sala e, aos vê-los em silêncio, pergunta:

- O que eu perdi?

- A partir de hoje estamos proibidos de não vir trabalhar. – responde Marcelina.

- O quê...?!

- É verdade. O não cumprimento é passivo de prisão. Palavras do novo presidente. – complementa Lopez.

Ortega ri, não conseguindo acreditar que aquilo era verdade.

- Mas por quê? – pergunta ele – Por que ele faria isso?

- Houve um protesto em seu último comício. Professores apareceram e reivindicaram maior participação no governo. O protesto virou um tumulto e eles foram presos. – responde Max.

- E a culpa é toda nossa? – ironiza ele.

- Para o presidente, sim.

Ortega ri novamente.

- Meu Deus... Ainda é seu primeiro ano de mandato e só piora...

 

§

 

Meio-dia.

Chegando a hora de almoço, Ortega brinca:

- É hora do recreio!

- Onde está a inspetora para tocar o sinal? – brinca Marcelina.

- Ah, provavelmente no comício do presidente...!

Todos riem.

Suas marmitas estão na copa ao lado. Abrindo a geladeira, eles pegam seus almoços e se dirigem ao micro-ondas. Então Antonieta sugere:

- Que tal a gente ir comer no pátio? A gente poderia passear pela escola, em seguida.

- Eu acho uma boa ideia. – responde Max – Eu sinceramente não estou aguentando mais passar o dia inteiro nessa sala...

- Vamos então.

Marcelina intervém.

- Podem ir, se quiserem. Eu vou pedir meu almoço pelo aplicativo.

Os professores assentem e então saem.

Sozinha na sala, a professora de física então pede a sua comida. Primeiro ela tenta o restaurante de sempre. Ela aguarda a resposta e se assusta com o que vê. O restaurante informa que não atende mais a escola. Tentando outro, eles questionam se era da escola e também rejeitam atendê-la. Na terceira, ela diz que é da escola e, ao ser questionada ser professora, eles simplesmente encerram a ligação. Marcelina fica sem entender o que está acontecendo.

Ao contatar o quarto restaurante, eles finalmente aceitam atendê-la.     

Trinta minutos depois, o entregador chega.

Como habitualmente, ventava muito naquela tarde de outono. Marcelina se dirige ao portão e o abre. O entregador era um adolescente de boné, pele oleosa e olhar sério; definitivamente um aluno secundarista. A professora o cumprimenta.

- Boa tarde!

Mas não há resposta.

Estendendo a mão para pegar o pacote, o jovem hesita em entregar-lhe, parecendo sentir desprezo. Ela pergunta:

- Mas o que é que está acontecendo? Nenhum restaurante queria atender a escola hoje!

- Eu não sabia que era para a escola, senão eu também não teria vindo.

A professora se intriga.

- Mas por quê? Há alguma coisa errada com a escola?

De maneira rude, o jovem responde:

- Não te interessa.

- Ora, mas que grosseria! – espanta-se ela – Sua mãe deveria te ensinar boas maneiras, viu? – e então ela toma o pacote de sua mão – Eu vou fazer uma queixa pelo mau atendimento!

- As queixas já foram feitas, senhora. Agora é hora do acerto de contas.

Com a resposta obscura, Marcelina se confunde.

- Do que você está falando?

Mas o aluno não lhe responde. Dando-lhe as costas, ele simplesmente monta em sua moto e vai embora.

 

§

 

Os demais professores almoçam no pátio. Eles se sentam à uma mesa grande e retangular, usada outrora pelos alunos do ano letivo. Mas a escola estava há tanto tempo sem alunos que parecia ter se passado anos desde a última aula ministrada ali.

Para eles era muito estranho o pátio vazio. Geralmente ele estava cheio de alunos, com correria, brincadeiras e gritos, desde crianças até adolescentes. Ninguém estava preparado quando o novo governo chegou. Agora tudo estava estranhamente pacífico.

A cozinha e a cantina estavam fechadas há semanas. Os professores sentiam falta de ter o que comprar. A merenda escolar, que alguns criticavam pela qualidade, também lhes fazia falta, pois alguns comiam quando esqueciam suas marmitas em casa.

Mas tudo aquilo era apenas uma memória agora.

A escola estava vazia. Com a chegada do outono, ela também estava fria e escura. A solidão percorria os corredores vazios. Nas salas de aula, sombras escondiam a poeira nas carteiras. O único movimento que eles viam eram o das cortinas, que balançavam sinistramente com o vento. Nenhum som podia ser ouvido. Às vezes as aves pousavam no telhado acima, mas só. Mas o ranger repentino da madeira era totalmente ignorado por eles. Os professores se recusavam a considerar que alguém escondido nos cantos escuros os espreitava. Negar o medo lhes conservava a sanidade. E desta maneira eles prosseguiam seus dias. 

Levantando-se, eles se limpam, lavam suas vasilhas e se retiram. Antigamente alguns ficavam na escadaria do pátio para fumar cigarro, mas após o bizarro evento de ontem, ninguém se atreveu a ficar sozinho de novo.

De volta à sala, eles encontram Marcelina com expressão irritada no canto da sala. Eles se intrigam.

Max pergunta:   

- Algum problema, professora?

- Eu fui destratada pelo entregador, acreditam?! – indigna-se ela.

- Por quê? O que aconteceu?

- Ele disse que se recusaria a entregar nessa escola de novo! E que o nosso acerto de contas ia chegar!

- Acerto de contas? Mas do que é que ele estava falando?

- Eu não sei! – exclama ela – Mas eu fiquei com medo! Eu me senti ameaçada!

Avançando, Antonieta pergunta:

- Como ele era?

- Pela idade, um aluno.

- Desta escola?

- Eu não sei. Eu nunca o vi aqui. Se for desta escola, talvez seja do período noturno.

- Mas ele te fez alguma coisa? – pergunta Concepción – Te agrediu ou coisa assim?

- Felizmente não. Foi apenas o transtorno, mesmo.

Os professores se tranquilizam.

Apesar da situação deixá-los apreensivos, eles tentam passar o resto da tarde normalmente.

 

§

 

O fim do expediente se aproxima. A lembrança do dia anterior ainda assombra suas mentes. Todos se lembram, mas todos ficam igualmente em silêncio.

Marcelina pega a chave da porta e, antes que pudesse girar a maçaneta, eles escutam um ruído vindo da rua.

Dirigindo-se à janela, os professores espiam atentamente. Um grupo incomum de motos passa pela rua. Eram motos pequenas e de baixa cilindrada. Os motoqueiros passam lentamente, acelerando e fazendo barulho. Os passageiros na garupa seguram faixas e bandeiras políticas. Os professores reconhecem as cores do partido do presidente. Suas faces estão ocultadas por capacetes de viseira escura, e aqueles que não estão de capacete usam capuzes e máscaras.

Os motoqueiros lançam olhares ameaçadores à escola. Eles dão a volta no quarteirão e param em frente ao portão de entrada. Enquanto rondam, eles empinam e aceleram alto, incomodando com o barulho ensurdecedor dos escapamentos.       

Em certo momento, o grupo brada um nome inconfundível; era o nome do presidente. Pelas vozes eles também percebem que o grupo era composto adolescentes, na maioria alunos secundaristas.

A arruaça dura alguns minutos. Durante esse tempo, nenhum dos professores tem coragem de sair da escola. Então, com a chegada da noite, o grupo finalmente se dispersa e os motoqueiros vão embora.

- Mas o que foi aquilo? – pergunta Lopez – Quem eram esses jovens?

- Me parecia uma milícia. – sugere Max.

- Você acha que eles estavam aqui para nos atacar?

- Eu não sei, mas definitivamente eram hostis.

Concepción os interrompe dizendo:

- Não podemos ficar aqui. Nós temos que ir embora também.

- Concordo. – diz Marcelina – Eu estou cansada. Eu quero ir para casa!

Todos concordam.

- E se eles voltarem? – pergunta Arruda.

Eles temem.

- Só há um jeito de saber.

Então, pouco a pouco, os professores deixam a sala e se dirigem ao estacionamento. Eles entram em seus carros e, um a um, deixam a escola. Mesmo Antonieta, que gostava de voltar andando apesar da dor, pega uma carona e vai embora.

E assim termina mais um dia em Santo Pároco.

    

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário