sábado, 1 de dezembro de 2018

Sonata - Parte 2 - Nathan



Nathan

Nathan dorme em seu apartamento. Crescendo órfão de pai e mãe, ele vive sozinho desde os vinte e dois anos. Quando a sede de ser independente explodiu em seu peito, ele quis perseguir seus sonhos sozinho, descobrir o mundo sozinho, viver a vida intensamente sob o olhar de um explorador rumo ao desconhecido. Atualmente ele trabalha na Electro Core, uma das poderosas megacorporações que governam Sonata.
Mas hoje, aos trinta anos, seu mundo de sonhos e descobertas mostrou-se terrivelmente limitado. Rotinas estressantes e turnos cansativos aos poucos minaram seu lado emocional, onde a recompensa por sua dedicação foi um cargo onde ele iria trabalhar exaustivamente.
Há alguns meses, uma lembrança insistia em habitar sua mente, uma lembrança ruim e impossível de ser esquecida, e toda noite ela invadia seus sonhos e os transformavam em pesadelos.
Quando criança, Nathan brincava pelo apartamento. Sua mãe estava distraída em seus afazeres e não percebeu que a porta foi abruptamente aberta. Exasperado, seu pai entra e rapidamente a tranca. Nathan vê que ele está todo ensanguentado e demonstra muita dor. Ao vê-lo naquele estado, sua mãe se desespera.
- O que houve?! O que aconteceu com você?!
- Não há tempo para explicar... Temos que tirar o Nathan daqui!
- Por quê?!
- A polícia... Eles descobriram meu envolvimento com os habitantes da superfície. Alguém nos traiu!
Indignada, a mulher diz:
- Depois de termos conversado, você ainda manteve contato com aqueles excluídos? Como você pôde...? Como pôde colocar em risco sua família?!
- Não há tempo para explicar! Vocês têm que fugir daqui agora!
- E para onde vamos?!
Antes de responder, a janela de seu apartamento se estoura em milhares de pedaços e luzes vermelhas e azuis invadem o local. Nathan se assusta e começa a chorar.
Uma voz no alto-falante diz:
“Aqui é a Polícia! Saiam com as mãos para cima!”
- Rápido, suba para o terraço!
- Eles vão atirar na gente!
- Pegue o Nathan e suba as escadas, rápido!
“Resistência à prisão será vista como agressão e passiva de força letal” alerta a polícia.
- Devemos nos entregar!
- Se nos entregarmos eles vão nos prender e nunca mais veremos o Nathan! É isso o que você quer?
No aerocarro da polícia, os canos da minigun começam a girar.
“Último aviso. Rendam-se!”
- Eu não quero morrer...!
A mulher olha para as luzes e levanta os braços. Chorando intensamente, Nathan corre para as pernas de sua mãe e a desequilibra, fazendo-a gesticular bruscamente. A polícia abre fogo e sua mãe, juntamente com todo o apartamento, é atingida freneticamente pelas balas.
- Não!!!
O homem agarra seu filho e se deita. Ao final dos disparos, sua mulher cai no chão olhando para ele, mas nela já não havia mais vida. Pegando sua mão, o homem chora amargamente.
- Polícia! Inspeção geral no andar! Abram as portas! – Grita alguém no final do corredor.
Nathan tenta agarrar as roupas de sua mãe, mas seu pai o puxa de volta para si. Levantando-se, ele deixa o apartamento e corre para o elevador. Alguém aparece atrás dele e ordena:
- Parado!
Várias miras lasers atravessavam o ambiente. De repente as portas do elevador se abrem e iluminam a pequena passagem. Com Nathan em seus braços o homem tenta rapidamente entrar, mas tiros são disparados e atravessam suas costas. Caído no chão, o homem não consegue mais sentir suas pernas e isto o faz se desesperar. Com muito esforço, ele se arrasta e põe seu filho no elevador, apertando o botão em seguida. O menino chora histericamente, e seu pai apenas diz:
- Vai ficar tudo bem...
Seu pai sorri e então a porta se fecha lentamente, e essa foi a última vez que Nathan o viu com vida.
Ao chegar ao topo do enorme edifício, o menino deixa o elevador e sobe por uma estreita escada de metal. Saindo ao ar livre, ele sente o vento forte soprar suas roupas e esfriar seu corpo. Ainda assustado, ele corre pelo terraço, o local está cheio de dutos de ar e cabos de transmissão sobre o piso, dificultando sua passagem.
Parando em frente ao parapeito, ele contempla a metrópole lá embaixo. O céu estrelado do anoitecer confunde-se com as brilhantes luzes dos prédios. Nathan vê as enormes torres brilharem com luzes de neon e telões gigantes em suas fachadas. As passarelas irradiavam suas luzes douradas enquanto centenas de transeuntes passavam. A frota infindável de aerocarros cruzavam as megaestruturas em diferentes níveis nas vias virtuais de trânsito.
O anoitecer da megalópole era maravilhoso. O poente contrastava com as brilhantes luzes semelhantes a pedras preciosas sobre torres de concreto e aço. Nuvens negras contrastavam com o céu escarlate. O pequeno Nathan se sentia em um outro mundo, um paraíso onde toda a dor parecia não existir.
Sentindo-se triste e solitário, ele chora em silêncio, chamando por sua mãe. A metrópole apenas olhava para ele, consolando-o com seu alegre brilho.
Minutos depois a polícia aparece. Mirando seus holofotes para os cantos escuros do terraço, eles encontram o pequeno menino sentado no chão. Nathan está abraçado às suas pernas, tremendo de frio e com lágrimas deslizando em seu rosto. A luz forte ofusca seus olhos e, ao ouvir homens conversando, ele engole o choro e pergunta:
- Papai...?
Capturado e sem família, o pequeno órfão é inserido no Programa de Reintegração Social de Sonata, onde ele, com mais centenas de outras crianças órfãs, cujos pais foram presos ou mortos em confrontos armados, cresceu e se educou nos padrões da sociedade corporativa.

§

De repente ele acorda. Sentando-se à beira da cama, ele olha para o relógio e vê que horas são. Três horas da manhã. Faz meses que ele acorda nesse mesmo horário, sentindo dificuldade para voltar a dormir. Ele se sente mal, uma angústia estranha cresce em seu peito, seu coração se aperta.
Nathan sonhou com seus pais de novo. Lembrando-se da paisagem noturna, era como se a lembrança de seus pais estivesse eternamente amarrada a ela, onde sua mente criava uma fuga, colocando uma imagem feliz para suplantar outra triste. O rapaz põe as mãos no rosto e se lamenta.
Então ao longe ele ouve uma explosão. Intrigado, ele se levanta e caminha até a janela. No topo de uma megatorre ele vê chamas e vários aerocarros da polícia se dirigirem ao local. “Não é naquele terraço onde instalaram a nova torre de transmissão da Cybersys?” pensa ele.
Ignorando o caso, ele aperta um botão na parede e se afasta. Uma cortina lentamente se abaixa até tampar a visão lá fora. Atentados terroristas eram tão comuns naqueles dias e os cidadãos aprendiam a conviver com eles, mesmo Nathan se sentia sortudo por ainda estar vivo. Então ele finalmente sussurra:
- Malditos terroristas...
Nathan vive em um apartamento unicelular. Apertando um botão na parede, Nathan ativa a lavanderia e joga suas roupas sujas na máquina de lavar. Apertando outro botão, a lavanderia se retrai e uma cozinha se forma. Ele retira bandejas de comida congelada da geladeira e as põe no micro-ondas. Um botão retrai sua cama e forma uma pequena sala, mas não retrai a cozinha já montada. Sentando-se numa pequena poltrona, ele tenta descansar um pouco.

§

Na manhã seguinte, os trabalhadores assistem ao noticiário na TV do aerometrô.
“O Ministério da Segurança Pública decreta esta noite – às 22:00 – um Toque de Recolher em todo o distrito de Autremont, Setor N. Todos deverão estar em suas casas após este horário. Vários locais de acesso público serão interditados, o aerometrô encerrará suas atividades e qualquer forma de transporte durante a noite estará estritamente proibida. A polícia visa manter a ordem e conta com a cooperação popular no combate ao terrorismo e a outros atos subversivos”.
Nathan assiste ao noticiário. Os toques de recolher estão ficando cada vez mais frequentes. A liberdade mais uma vez é ameaçada pelos atentados cada vez mais ousados.
“Próxima estação: Skyline. Saída pelo lado direito do trem”.
Nathan deixa o aerotrem e caminha entre a multidão apressada, dirigindo-se às escadarias e em seguida à saída da estação.
Minutos depois, o rapaz se vê em uma pequena sala. O ventilador de teto gira lentamente, a cortina persiana deixa passar timidamente a luz do dia e o relógio de ponteiro faz ruídos metálicos com o passar do tempo. Nathan está sentado em um sofá, mas se sente um pouco desconfortável.
Sua mãe, sentada em uma poltrona à sua frente, pergunta:
- O que te traz aqui, Nathan?
- Estou com um problema, mãe, e preciso de ajuda.
- E do que se trata esse problema?
- Estou confuso... – seu corpo treme e sua garganta quase emudece ao terminar – Eu me sinto solitário e perdido.
Sua mãe lhe faz um olhar bondoso e compreensiva.
 – O que quer dizer com “solitário e perdido”?
Nathan não sabe como descrever seu problema, mas responde:
- Estou insatisfeito com minha vida. Nada mais parece me dar prazer.
Erguendo as sobrancelhas, sua mãe respira fundo, retira seus óculos e responde:
- Você sabe o que me dá prazer, Nathan? As pequenas coisas da vida, tão pequenas e insignificantes que as pessoas mal conseguem ver. Está vendo meu ventilador de teto, meus óculos e meu relógio de ponteiro?
Confuso, o rapaz responde:
- Sim.
- As pessoas sempre criticam o estilo retrô, o chamam de antiquado e fora de moda, afinal para que um ventilador se há ar condicionado? Para que um relógio de ponteiro se há o relógio digital? Para que gostar do século 20 se o século 23 é o século do desenvolvimento e dos gloriosos avanços tecnológicos? Quer saber por quê?
Acanhado, Nathan responde:
- Quero, eu acho.
- Porque sim! – responde ela, alegremente – Você é o que é porque nasceu assim. Não se pode mudar a mente e os pensamentos, “penso e logo existo” como diria Descartes. Esta verdade é incontestável, todos somos diferentes, todos pensamos distintamente, e é isto o que nos torna humanos.
- Mas o que isso tem a ver comigo? – Pergunta ele, mantendo o foco do assunto.
- Tem a ver que não importa o quanto se sinta solitário e insatisfeito, você sempre terá o seu caminho para trilhar e buscar ser feliz.
Nathan então se cala. A sala fica em silêncio, exceto pelo ruído constante do ventilador de teto.
- Mãe, eu não entendo. Por que nada nessa cidade me compele como a tantos outros lá fora? Por que, para todo o lado que eu olho, só vejo o vazio?
- Porque o vazio está dentro de ti, Nathan. Temos nossas necessidades e eles têm as deles, seja material ou emocional. Talvez a felicidade deles esteja no consumismo pueril, mas você não precisa ser assim se não desejar.
- Não é justo a sociedade me rebaixar assim, me transformando em um ignorante consumidor de futilidades e banalidades, um escravo da tecnologia. Gostaria de não ter que suprir o vazio que sinto com bens materiais.   
Sem demonstrar emoção, sua mãe pergunta:
- Reconheço sua insatisfação, mas responda-me uma coisa: falta alimento em sua casa?
O rapaz se confunde.
- Não.
- De tudo o que acha fútil e banal, todos esses produtos supérfluos que as pessoas consomem, você compra alguns deles?
- Eu comprava antigamente, mas não compro mais.
- E quanto ao seu trabalho? Já ficou desempregado?
- Não.
- Já viu algum miserável mendigar nas ruas da metrópole?
- Não.
- Por falar nisso, já viu algum desempregado?
- Também não.
Sua mãe sorri.
- Sei qual é o seu problema, você tem o que chamamos de Síndrome de Adão e Eva. Vive em um lugar perfeito, mas se deixa enganar por um agitador, um enganador, a Serpente. Então torna-se insatisfeito e se rebela para conhecer a verdade, descuidando-se da amarga consequência que certamente irá te trazer. Nathan, você vive em uma sociedade que lhe dá alimento, moradia, trabalho, educação, saúde e entretenimento. Apesar de ter tudo, você ainda quer mais. Então se sente vazio e triste, culpando a sociedade e seu criador.
- Não sei se é prudente comparar as megacorporações com Deus.
- E a que você compara a si mesmo? A um homem imprudente que tem tudo e se revolta, acabando por ser banido no final? Não deixe sua mente ser sua Serpente, Nathan. Não deixe sua tristeza te influenciar. A não ser que haja alguém te influenciando?
Ele respira fundo e responde:
- Não há.
- Pois bem.
De repente sua mãe se deforma, como uma imagem de TV com transmissão ruim. Uma voz nas paredes diz:
“Ei, cara, seu tempo está acabando. Se quiser ficar mais terá de pagar vinte créditos”.
- Está bem, eu já vou sair. – responde Nathan, desanimado.
A imagem holográfica de sua mãe retorna e fica em perfeita definição. Um holograma, um estúpido holograma era o que Nathan usava para conversar – ou fingir que conversava – com sua mãe. Mas se ele ignorasse as respostas sem sentido ou fora de contexto, conseguia enganar-se e matar as saudades por algumas horas. Ele pensa o quanto era patético. 
“Pai, por que você teve que se envolver com os excluídos?” pensa ele. Então Nathan se lembra de algo: a superfície.
- Mãe, o que existe no nível inferior de Sonata?
- Nível inferior? – pergunta ela – Está se referindo à superfície?
- Sim.
- Por que você quer saber? Está além dos limites permitidos, é acesso restrito.
- Eu não sei, mas sinto que há respostas para mim lá embaixo.
- Não entendi. Que respostas pode haver para você na poluição e nos esgotos?
- Eu não sei. Talvez a resposta que preciso esteja na superfície.
A conversa com o rapaz está ficando perigosa demais. Os algoritmos do holograma não podem sugerir e nem estimular que seus clientes infrinjam a lei.   
- Sugiro que fique nos níveis superiores. Eu não acho que há nada de bom para se ver lá embaixo.
- Mas por...
- Nosso tempo acabou.





sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Sonata - Parte 1 - Maynard



CAPÍTULO I

Sonata. Ano 2279.

Maynard abre os olhos. A noite quente lá fora dificulta seu sono, mas não foi isso que o fez acordar. Os aerocarros passam próximo à sua janela, produzindo zunidos e iluminando timidamente o ambiente. Levantando-se de sua cama retrátil, ele passa por caixas e mais caixas contendo poderosos materiais bélicos e se dirige ao banheiro.

Algo chama sua atenção. Ao olhar no reflexo ele vê riscos feitos por alguma ferramenta pontuda. Os riscos são legíveis e formam uma palavra. “Meia-noite”.

Um recado. Alguém entrou em seu apartamento e lhe deixou um recado. Maynard não se surpreende, ele já sabe do que se trata. Alguém está requisitando seu trabalho.

Uma hora se passa. Maynard, agora revigorado após o descanso, espera por seus empregadores.

Os aerocarros voam ao longe, zunindo e soprando o ar quente da metrópole. Algo se move calmamente atrás dele, calmo até demais. Virando-se, ele vê três homens encapuzados em trajes pretos. Ele reconhece aquela roupa tão estranha e antiquada, aqueles homens se pareciam com os antigos monges renascentistas. O vento sopra seus casacos e revela seus uniformes. São clérigos. Maynard conhece aquela facção, os Clérigos do Recomeço. Apesar de religiosos, nenhum deles é conhecido por conceder o perdão.

- Entregue este pacote ao nosso contato no distrito de Autremont. Pagaremos bem.

Sempre diretos ao ponto, nada de perguntas.

O homem vê um pequeno pacote lacrado. Ao guardá-lo em sua mochila, os homens dão as costas e vão embora.

Ser um Mercenário é fazer o que lhe mandam, o que precisa ser feito. É necessário discrição. Se um mercenário for curioso e perguntar demais, ele é melhor morto. Não interessa os motivos ou as intenções do trabalho, se são os motivos corretos para uma causa errada, a única – e somente única – coisa que interessa é o dinheiro.

§

A noite está movimentada nas alturas de Sonata. Maynard caminha pelas passarelas abarrotadas de gente. Ao olhar para o relógio, ele vê que horas são. 00h42min. Não importa o quão tarde seja, em Sonata a vida nunca pára.  

O agente leva consigo sua espingarda calibre 12, uma clássica espingarda pump action de doze tiros e coronha pistol grip. Ele sempre foi um entusiasta do século 20, um verdadeiro saudosista. Em uma cidade altamente tecnológica como aquela, armas de fogo são pouco comuns, algumas sendo até tratadas como relíquias. Mas, debaixo de seu casaco, ele leva sua pistola laser no coldre, afinal não se pode confiar demais no que é muito velho e antigo.

As pessoas nas passarelas e túneis caminham normalmente. Algumas estão indo trabalhar, outras vendem suas mercadorias em pequenas barracas, outras estão dentro das lojas... Aquela era a típica paisagem sonatense, nada de anormal. Maynard observa que a maioria delas têm membros bioprotéticos em seus corpos. Braços, pernas e até olhos substituídos totalmente pela avançada tecnologia sintética capaz de simular e aprimorar a antiga fisiologia. Diferentes delas, o agente não tem nenhuma prótese em seu corpo, ele via tudo aquilo como algo antinatural demais, quase um show de horror. Maynard era um homem ao seu tempo, um pouco antiquado para essas maravilhas tecnológicas modernas.

Ao lado da passarela, ele vê as linhas de aerometrô pelo céu. Suspensos nos trilhos pelo teto, os trens cruzavam as incontáveis megatorres em seus trajetos interurbanos. Essenciais ao transporte, eles conectavam os setores e distritos, levando milhares e milhares de trabalhadores diariamente aos seus destinos.

Muitos aerocarros sobrevoavam as passarelas. O milagre do conforto finalmente havia chegado no século 23, e diferente dos veículos poluentes, pesados e ultrapassados do século 21, em Sonata os motoristas podiam deslocar-se pelos ares, voando em vários níveis pelas vias virtuais exibidas em seus para-brisas. Maynard tem um aerocarro também, mas esta noite ele quis caminhar, afinal ele não tem um membro bioprotético para compensar o atrofiamento de seus músculos.

A polícia passa ao longe, a famigerada força de segurança pública metropolitana. Sempre em grupos de dois a três aerocarros, eles patrulham o céu. Rígidos, abusivos e implacáveis, sua conduta apenas reflete o caráter das próprias megacorporações que governam a cidade, fazendo o que for necessário para manter a ordem. O Ministério de Segurança Pública, o órgão que regulamenta a polícia, responde diretamente aos interesses das corporações, sendo assim chamada comumente de Polícia Corporativa. Com exceção dos terroristas, ninguém ousa desafia-los, pois estas ações geralmente acabam em prisão ou desaparecimento.

Passando por dentro dos tuneis entre as megatorres, ele vê as entradas dos andares que levam aos apartamentos. Devido ao enorme dimensionamento dos edifícios, cada andar tinha cerca de cinco mil apartamentos, distribuídos em várias alas para a facilidade de acesso. Sonata mantém um rígido código de conduta nos moradores, pois as paredes e corredores são limpos e bem conservados, evidenciando a educação e o forte senso de cidadania de seus habitantes.

As luzes são o que mais lhe chama a atenção. Nos tuneis há uma infinidade de painéis de neon, formando palavras e propagandas para atrair os clientes. Devido às belas cores dos neons, a escuridão do ambiente é tomada por esporádicas cores azuis, verdes e vermelhas, dançando com o piscar das letras.

Intentando cortar o caminho, o agente pega um atalho em um túnel de serviço. O túnel tem grossos tubos em sua parede, soltando gases e vapores em suas pequenas fissuras. O ambiente é coberto por uma fina neblina, a visão é limitada, o calor é desgastante e seus passos provocam ecos pela extensão. Definitivamente aquele não era um atalho seguro para os habitantes de Sonata, mas Maynard não era qualquer habitante. Um homem se aproxima na direção oposta, surgindo através da neblina.

O homem passa de cabeça baixa e continua apressadamente seu caminho, sem olhar para o agente uma única vez. Maynard conhecia essa reação, era quase como um instinto de defesa. Apesar da relativa segurança que a polícia impunha sobre a metrópole, ainda assim havia entre eles a cultura do medo. Infelizmente os sonatenses não sabiam que essa cultura eram pessoas como o próprio Maynard que ajudavam a fomentar.

O agente se aproxima de seu destino. Saindo ao ar livre, o vento sopra mais frio, soprando seus cabelos e agitando seu casaco. Ao olhar para o céu, ele vê relâmpagos e ouve trovões. Estava prestes a chover. “Que ótima surpresa” ironiza ele.

Maynard chega a um beco escuro entre os túneis das megatorres. Ele vê um homem velho agachado junto às sacolas de mercadorias transgênicas. Ao se aproximar, ele nota que são componentes e produtos capazes de estimular a mente e aprimorar os membros bioprotéticos de seus usuários. “Entorpecentes ilegais” pensa ele.

Ao ver o estranho se aproximando, o velho olha para ele e pergunta:

- Boa noite, meu jovem. Tenho ótimos produtos, todos de excelente qualidade.

- Sou o agente Maynard. Eu vim entregar o pacote.

Maynard pode ver que o velho possui olhos cibernéticos em sua face. Sem dizer mais uma palavra, o agente lança o pacote aos seus pés.

- Oh, sim. Como eu pude me esquecer...

O velho abre o pacote diante de seus olhos, sem se importar com a curiosidade ou até com a ganância do mercenário. Para a segurança dos próprios empregadores, objetos valiosos são melhores se mantidos em segredo. Esboçando decepção, o velho responde:

- Eu agradeço por me trazer o pacote aqui, mas esse aparelho é inútil.

O velho ergue seu braço e exibe um objeto em sua mão. Maynard vê o que se parece ser um decodificador.

- Isso não me interessa. Estou aqui pelo pagamento.

- Pagamento? – Sorri ele – Infelizmente não há pagamento nenhum.

Segurando sua arma sob o casaco, o agente responde:

- Ouça, cara. Me irritar não é muito inteligente.

- Ok, ok...! Acalme-se! – O velho se levanta e então diz – Eu não posso usar esse decodificador, os seguranças da Cybersys estão bloqueando o sinal não muito longe daqui. Esse decodificador é fraco, não consegue driblar os bloqueios corporativos. É isso o que os clérigos não entendem, a tecnologia deles é... ultrapassada.

- Isso é problema seu. – O agente segura novamente sua arma, pressionando-o para que ele lhe entregue o dinheiro.

- Espere! Eu lhe faço outra proposta. Se você desligar o sinal, eu te pago pelo serviço, em dobro.

Maynard se espanta.

- Como é?

- Sim. Você apenas precisa desligar o sinal e o bloqueio será suspenso. O que me diz?

Ponderando rapidamente, o agente chega a uma decisão. Seu instinto de mercenário fala mais alto.

- Está bem.

O velho sorri.

- Ótimo! – abrindo seu computador, o velho lhe mostra um mapa detalhado da região – Está vendo esta megatorre? Em seu terraço há uma antena instalada recentemente. A Cybersys a usa para bloquear o acesso ao ciberespaço, tentando conter a atividade criminal e limitar o acesso dos terroristas. Me disseram que a área é guardada 24 horas por dia, então você deve ser cuidadoso.

- Como eu desligo o sinal? – Pergunta Maynard.

- O decodificador tem acesso wireless. Apenas o deixe próximo à antena e ele fará todo o resto.

O velho lhe devolve o aparelho. Maynard vê uma tela azul com números aparecendo aleatoriamente no visor. Guardando-o em sua mochila, ele deixa o beco.

§

Espionagem é um trabalho interessante, o agente se põe em perigo, arrisca sua vida, acessa arquivos secretos e ainda recebe por isso. É como se sua vida de mercenário fosse um ciclo vicioso.  

Para receber mais dinheiro, ele se torna mais flexível, mais versátil, mais apto a qualquer tipo de serviço que possam lhe oferecer. Quanto mais experiência, mais dinheiro, e assim ele alimenta sua ganância. Vidas humanas têm pouco valor em sua linha de trabalho, pois este é o entrave que atrapalha a sociedade, esta tolerância aos inúteis e aos fracos. Maynard é um darwinista social, um sociopata, mesmo que nunca tenha se notado disso.

Começa a chover, relâmpagos iluminam brevemente o céu sobre a metrópole. O agente deve ser mais cauteloso. Passando pelas passarelas, as pessoas veem o imponente e silencioso homem e se intrigam. Quem era aquele homem tão calmo caminhando tranquilamente sob a chuva? E aquele estranho objeto em suas costas, seria aquilo uma arma?

Atravessando alguns túneis, o agente chega ao seu destino. Entrando no prédio, ele caminha pelo corredor e atravessa o andar. Os moradores não reconhecem o visitante, mas ninguém se importa, afinal todos estão ocupados demais lidando com seus próprios problemas. Avistando o elevador, ele vê dois homens armados e um bot de segurança guardando-o.

- Com licença, senhores. Este elevador leva para o terraço?

- Para trás, cidadão. Esta é uma área restrita.

- O que está havendo lá em cima?

- Eu mandei se afastar!

Os guardas apontam seus rifles para Maynard. E naquele momento o agente se irrita.

No terraço, os guardas vigiam seus seus postos tranquilamente. Após um trovão, a chuva recomeça e eles se abrigam em uma pequena área coberta em frente ao elevador. Alguns ficam ao ar livre e guardam a esbelta antena, que pisca intermitentemente contra as agitadas nuvens de chuva. Distraídos em seus próprios assuntos, eles se intrigam ao ver que o elevador está subindo. Pegando rapidamente o rádio, o capitão chama seus seguranças lá embaixo.

- Quem mandou vocês subirem?

Mas não há resposta, havendo apenas estática.

Então a porta se abre e ilumina o escuro ambiente. Não havia ninguém lá dentro, exceto o bot de segurança da Cybersys.

- O que está havendo aqui...?

De repente o bot abre fogo, metralhando os guardas na saída do elevador. O pânico se alastra. Seus avançados sensores de movimento são formidáveis, os guardas tentam se proteger, mas a metralhadora acoplada no pequeno robô mira precisamente até todos caírem.

- O bot foi hackeado!! – grita o capitão.

Os guardas se arrastam pelo chão, o terraço fica em alerta. Antes que o capitão pudesse chamar reforços, o alçapão no teto do elevador se abre e Maynard aparece. Empunhando sua espingarda, ele atira no restante dos guardas, eliminando-os e liberando a grossa cápsula de pólvora a cada tiro.

O agente olha para fora e avista a antena. Antes que pudesse passar pela porta, uma saraivada de lasers atinge o chão e as paredes, fazendo-o recuar. Recarregando sua espingarda, ele faz o destrave pump action, se levanta e atira de volta. Os guardas são amadores, cães destreinados que só sabem rosnar. Nenhum deles consegue parar Maynard.

Jogando uma granada de concussão, os guardas ficam atordoados e são abatidos um a um pelo poderoso agente. Enquanto avança pelo terraço, Maynard ouve um guarda agonizar atrás de seu esconderijo. Sem olhá-lo nos olhos, o agente estica seu braço para a direita e puxa o gatilho, encerrando seu sofrimento e remuniciando sua arma em seguida.

A chuva se intensifica e fica difícil caminhar. Aproximando-se da antena, ele vê um pequeno console onde os operadores configuram o sinal. Há um monitor ligado e uma frase na tela diz: “Conexão com o satélite estabelecida”. Colocando o decodificador sobre o painel, Maynard o posiciona próximo aos computadores e deixa o local.

Atravessando o terraço, ele pisa nas poças de água, espalhando as gotas a cada passo. Ao chegar na parte coberta, os guardas atiram com suas armas lasers contra o agente, fazendo-o se agachar. Mais seguranças da Cybersys haviam chegado, provavelmente eles viram o ataque pelas câmeras de vigilância. Antes que pudesse pegar o elevador e deixar aquela conturbada área, Maynard teria de passar por eles.

Protegido atrás de um balcão, o agente saca sua pistola laser e revida, atirando de volta enquanto tenta escapar daquela adversa situação. Atrás dele há uma enorme janela de vidro, agora toda arruinada devido aos incontáveis tiros. Ele consegue ver a antena lá fora, alta e colorida devido as suas luzes brilhantes. Distraído enquanto planeja como fugir, algo inesperado acontece.

A antena explode em uma gigantesca bola de fogo sobre o edifício, propagando sua onda de calor e luz por todo o terraço. Tudo é iluminado pelo clarão amarelo, atordoando os guardas que caminhavam em sua direção.

Aproveitando a chance, ele pega sua espingarda calibre 12 e se levanta. Antes que seus olhos se recuperassem da intensa luz, os guardas são alvejados por Maynard, voando pelos ares com o poderoso impacto.

- Malditos cretinos...! – sussurra ele – Aquilo era uma bomba!

Os clérigos o usaram. Eles sabiam daquilo o tempo todo e não lhe disseram nada. O aparelho não era um simples decodificador, na verdade era uma potente bomba planejada para explodir a nova antena instalada naquele distrito pela Cybersys. Nem os clérigos ou aquele velho estúpido pretendiam leva-la àquele terraço, obviamente eles pretendiam ativá-la de longe, mas para isso precisavam de alguém forte o bastante para passar pelos guardas e chegar à antena.

Maynard foi manipulado, novamente manipulado. Recarregando sua espingarda, ele se martiriza por dentro. Como ele pôde ser tão distraído? Não era a primeira vez que as facções o manipulavam, e certamente não será a última. Mas ele decide não se importar, afinal a facção precisava do melhor para o serviço, e Maynard era o melhor dos melhores.

Dirigindo-se para o elevador, ele passa pelos guardas mortos pelo chão. Altivo e imponente, ele leva sua espingarda na altura do peito. Mais uma missão bem-sucedida, mais um serviço bem feito, agora só resta receber o devido pagamento. Então algo chama sua atenção, seu celular vibra em seu bolso. Abrindo-o, uma mensagem aparece no visor touch-screen.

“Pagamento efetuado com sucesso”.

“Agradecemos pelo serviço”.

“Atenciosamente”.

“Clérigos do Recomeço”.

Olhando para o teto, ele vê câmeras de segurança filmando-o. Os malditos clérigos estavam monitorando-o de longe. O bloqueio de sinal havia desaparecido e os clérigos podiam invadir o ciberespaço novamente. Maynard sorri por dentro.

Dirigindo-se ao elevador, ele ouve algo se mexer atrás dele. Um guarda ainda está vivo e tenta surpreendê-lo. Prestes a atirar, Maynard se vira e atira nele antes, acertando-o no peito. Ao ser atingido, o guarda grita e sangra até morrer.

Liberando a cápsula vazia, Maynard em seguida deixa o local.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A Garota Na Piscina




Invado o clube à noite
E me preparo para nadar na piscina
Está tudo tão escuro e tranquilo
Gosto de nadar quando estou sozinho

Num único salto eu mergulho
O azul da água era tão profundo
Que apesar do salão estar escuro
Eu podia até ver até o fundo

E eu nadava tão lindo
Nado borboleta, de costas, de cachorrinho
Malditos guardas da escola
Não deixavam eu nadar, mas olhem para mim agora

Foi então que eu vi
Havia uma pessoa no fundo, parada ali
De braços abertos e estática
Parada como se fosse um fantasma

Nado um pouco mais fundo para ver
A minha curiosidade eu não conseguia conter
Eu vejo uma garota de biquíni e de cabelos escuros
Em sua cintura havia uma corda que a mantinha no fundo

Então eu retomo o fôlego
E desamarro a corda de seu corpo
A levo rapidamente para cima
Na garota não parecia mais haver vida

Eu a deito à beira da piscina
Seu cabelo era negro como a tinta
E sua pele estava tão branca
Como se fosse uma boneca de porcelana

Apesar do afogamento ela não estava tão inchada
Ela era tão linda, como era linda a garota afogada
Com os dedos afasto o cabelo de seu rosto
E ao ver aquela face linda eu me apaixono

Eu me apaixonei por você
Sinto o sentimento crescer
Um amor crescendo por veredas tortas
Pela garota da piscina, afogada e morta

Como eu queria te ter
Ali sem ninguém para ver
Eu devo ser muito patético
Pois desejei aquele corpo esbelto e atlético
Vestindo apenas um biquíni
Como se fosse um convite

Eu me aproximo lentamente
E te beijo deliciosamente
Passo a mão em seu pescoço e lhe faço carícias 
Sinto uma vontade louca de fazer sexo com a menina

Mas em seguida eu me levanto e chamo a polícia
Porque eu não sou muito fã de necrofilia

Mas que eu queria, eu queria

Dias se passam
Os investigadores vasculham a piscina
Eles investigam o passado da vítima
Tentam entender a causa do homicídio
E procuram por pistas do assassino

Mas eles demoram demais
Eu não estou disposto a esperar mais
Por aquela garota eu me apaixonei
E seu assassino eu procurarei

A perícia liberou o corpo para enterrar
E no velório eu começo a chorar
A família está de luto e não sabe o que fazer
Eu te amei tanto e nunca vou te esquecer

E eu te prometo dizendo
Que desde aquele momento
Eu iria para sempre te amar
E nem a sua morte iria nos separar

Deixo rosas sobre seu túmulo
Sua família não me conhecia muito
Eu era o rapaz que te encontrou afogada
Eles não entendiam por que eu tanto chorava

Era porque eu te amava, droga!

Procurar não me trouxe dificuldades
Após sua morte, seu ex-namorado saiu da cidade
Numa casa de campo eu encontro o maldito
Chutando a porta, com ódio eu grito:

“Olá, seu assassino!”

Ele me encara com grande espanto
Eu podia ver nos seus olhos o pranto
Ele me pergunta quem eu era
Tudo me fazia lembrar dela

Eu respondo que ele matou minha esposa
Eu não conseguia pensar em outra coisa
Digo que ele matou sua ex-namorada
Afogando minha esposa, a mulher que eu amava

Ele não entende o que eu digo
E me chama de doido varrido
Diz que ele era seu único namorado
E que ela nunca havia se casado

Pergunto por que ele a matou
Ele responde que o ciúmes o dominou
Os ciúmes custaram-lhe a vida
De crime passional ela foi vítima

Sem entender esta grande loucura
Ele tenta me agredir, iniciando uma luta
Mas, apontando minha arma para sua cara
Eu aperto o gatilho, espalhando seus miolos pela sala

Estava feito
Eu me sentia satisfeito
Pela porta da sala eu saio
O amor da minha vida eu tinha vingado

De volta ao cemitério eu te conto tudo
Ajoelhado na grama em frente ao seu túmulo
Minha garota da piscina, eu vou sempre te amar
Minha morena, minha esposa
Um dia vou te encontrar

Sobre a lápide eu deixo as alianças
Do nosso casamento que nunca existiu
Mas eu tenho esperanças

Retorno à piscina em lágrimas
E me sento com as pernas na água
Afogada lá embaixo eu te encontrei
E desde aquele momento eu te amei

E continuo te amando aqui
Meu corpo vivo sobre o chão
E o seu corpo morto num caixão