sábado, 29 de dezembro de 2018

Sonata - Parte 13 - Estado Policial



Com o fim dos governos mundiais, a megacorporação Sonata fundou sua própria metrópole das ruínas do mundo antigo. A massa de trabalhadores responsáveis pela reconstrução logo perceberia que sua salvação teria um pesado preço. Para manter a ordem e sobretudo o controle populacional, foi criada a Polícia de Sonata, uma organização militar baseada no controle e na repreensão. Mas sua atuação ia muito além de apenas manter a ordem e obedecer a lei. Com a ausência total de qualquer regulamentação do Estado, logo a organização direcionou-se ao controle social e político, orquestradas pela alta cúpula corporativa.
A macro jaula estava criada. Operando em conjunto com a mídia e outros aparelhos de comunicação, a Polícia de Sonata ajudava a limitar e controlar todo tipo de informação, alienando a população e doutrinando-os segundo os interesses da própria cúpula. Desta maneira, não havia mais questionamentos, não havia mais meios alternativos, e os descontentamentos e dissidências eram brutalmente punidos. As forças de segurança pública não agiam mais em defesa do povo. Seu lema “Servir e Proteger” foi substituído por proteger e servir os interesses corporativos. Liberdades civis foram sistematicamente suprimidas e a pena para quem violasse o rígido código de conduta seria o aprisionamento, a execução e o banimento.
O banimento era algo misterioso até para a polícia. Atrás da extensa muralha que rodeia a metrópole, nem mesmo os policiais de patrulha, os investigadores criminais e os agentes penitenciários sabiam o que se passava no exterior. Haviam divisões distintas da polícia encarregadas de supervisionar o perímetro metropolitano, e essas divisões respondiam diretamente às corporações. Os habitantes foram obrigados a acreditar que não havia mais vida na Terra, que além das muralhas o mundo estava destruído e que Sonata era o único bastião em que se pudesse sobreviver.
Mas os humanos são indômitos e rebeldes, e essa rebeldia nem mesmo as corporações conseguiriam controlar. Insatisfação e revoltas se generalizaram pela metrópole, motivados por liberdades e condições mais dignas. Todas foram brutalmente suprimidas em sangrentos confrontos, mas nem mesmo com o banho de sangue e o alto número de vidas perdidas o combate ao regime totalitário parou. Facções surgiram, adotando crenças e ideologias no novo mundo opressivo.
Os policiais treinados, competentes e comprometidos com o bem-estar da metrópole, geralmente consideravam as facções como organizações criminosas e terroristas, desprezando qualquer visão ideológica que elas pudessem ter. Detetive Burton é um desses homens. Atuando na polícia há vinte anos, ele ascendeu de soldado recém-formado até o cargo de detetive. Ele esteve presente quando os cidadãos se revoltaram, quando os ativistas adotaram as causas mais absurdas e quando os primeiros atentados terroristas começaram. E desde então os atentados têm sido cada vez mais frequentes.
Famoso por caçar e prender terroristas, o detetive Burton era constantemente designado para as operações antiterrorismo. Interromper os ataques e evitar os atentados era essencial, pois assim eles salvavam vidas. As operações deveriam ser precisas e cautelosas. Ao terem seus planos frustrados, os terroristas estavam ficando cada vez mais agressivos. Levando isso em conta, o detetive era o mais eficiente dos agentes de segurança, pois sua coragem era inigualável.

§

Detetive Burton está parado em frente à janela. Ele olha para uma passarela abaixo, muito movimentada e iluminada por luzes amarelas. Acima, nas janelas de outra megatorre, franco-atiradores posicionam suas armas. Todos estão à postos.
Era uma noite movimentada, haviam muitos aerocarros passando. Qualquer ruído tira sua concentração, o apartamento escuro o estressa, ele já estava esperando por duas horas. Atrás dele havia mais quatro policiais, em silêncio e aguardando também. Um deles estica seu braço e pergunta:
- Vocês querem cigarro?
Burton aceita e, juntamente com os outros três, começam a fumar. Os policiais começam uma conversa.
- Que saco.... Estamos há quantas horas aqui?
- Umas duas horas.... Alguém está com fome? Estou morrendo de fome.
- Eu tenho algumas barras energéticas comigo.
Ao lhe entregar uma barra, o policial rasga a fina embalagem e comenta:
- Realmente não me inscrevi para isso. Eu quero estar nas ruas, fazendo patrulhas, prendendo criminosos, e não aguardando por algo que provavelmente nem vai acontecer.
- Temos que confiar na Polícia Secreta. Só eles têm acesso às informações.
- Polícia Secreta? Eis aí uma divisão que eu adoraria participar. – comenta outro.


- Infiltração e espionagem é um trabalho perigoso. O meu jeito é melhor, armar um exército e atacar ostensivamente o local onde esses terroristas se escondem. Queimando tudo, atirando em todo mundo e prendesse quem tentasse fugir.
- O que planeja é um banho de sangue. Esses terroristas têm armas, e armas avançadas e potentes como as da própria polícia. Ataca-los abertamente resultaria em enormes perdas para ambos os lados.
- É isso o que eu não entendo. Como eles têm armas? Quem os fornece armamento? Não é estranho que eles tenham tanto poder de fogo?
O policial tem razão. Burton também não consegue entender de onde vem o arsenal dos terroristas.
Uma voz lhe fala pelo headset:
“Detetive Burton, temos contato visual”.
Olhando pela janela, ele vê um homem encapuzado carregando uma volumosa mochila.
- Preparem-se! – ordena ele e os policiais rapidamente se prontificam.
O franco-atirador liga seu laser e percorre lentamente as costas de seu alvo. Ao chegar na altura da cabeça, ele pergunta:
“Alvo na mira. Aguardando permissão para atirar”.
Burton lhe responde:
- Permissão concedida.
Pondo seu dedo no gatilho, o franco-atirador finalmente atira. Um aerocarro passa no exato momento e intercepta o tiro, fazendo o motorista se assustar e perigosamente desviar seu veículo de curso. O homem encapuzado se assusta com os aerocarros buzinando acima e então vê o laser ofuscar os seus olhos. Havia uma dezena de lasers mirando seu rosto, todos prontos para apertar o gatilho. Apavorado, ele corre.
“Alvo não eliminado. Repito. Alvo não eliminado!”.
A voz fala em seu headset ao mesmo tempo que o Detetive Burton diz:
- Fomos descobertos, avançar!
Os policiais vestem seus capacetes e imediatamente deixam o apartamento. Burton segue à frente, empunhando uma pistola laser. Os policiais seguem atrás, portando seus fuzis.
As pessoas nas passarelas obstruem sua passagem, mas o detetive corre o mais rápido que pode. O alvo está mais à frente, mas é difícil vê-lo entre a multidão. Eles entram em um túnel, as lojas movimentadas, o barulho constante e os coloridos neons o confundem.
“Detetive Burton, informe!” – ordena a voz no headset.
- Estou em um túnel entre a megatorre. Não consigo ver o suspeito.
Os policiais se separam e vasculham o local. Com truculência, eles agarram alguns transeuntes e pedem seus documentos. Enquanto revistam os suspeitos, Burton vê ao longe um homem se escondendo atrás de uma barraca de comida chinesa.
- Ei, você!
O homem se assusta e novamente corre. Saindo do túnel, eles chegam a uma passarela maior, conectada em quatro caminhos entre as vias virtuais e as megatorres. Abaixo há uma linha de aerometrô onde os trens passam esporadicamente. O homem passa bruscamente pelas pessoas e tropeça, caindo ao lado do parapeito.
- Parado!
O detetive aponta sua arma para ele, mas o homem toma uma atitude impensável. Subindo pelo parapeito, ele se joga da passarela. Escorando-se no corrimão, Burton olha para baixo e o vê na linha de aerometrô, recuperando-se e correndo em seguida, embora agora estivesse mancando. Guardando sua arma no coldre, Burton sobe pelo parapeito e se joga também.
Para sua sorte, era linha dupla e os trens passavam indo e voltando. O homem estava mais à frente e corria heroicamente apesar de seus ferimentos. Burton ia logo atrás, decidido e implacável. Um trem avança pela linha e buzina, assustando-os. Eles se jogam para a esquerda pouco antes do gigante de aço atropelá-los com grande ímpeto.
- Não adianta fugir! Pare agora!
O homem o ignora e continua correndo. De repente aparece outro trem, desta vez atrás deles. Com a forte buzina, Burton instintivamente pula para a direita sem olhar para trás. O suspeito não desiste e corre pelos trilhos até parar sobre uma passarela abaixo dele. Haviam muitas pessoas nela, mas isso não o contém e ele pula sobre elas, causando grande confusão. Sem ter outra escolha, o detetive pula logo atrás.
A queda machuca seu pé, Burton não consegue mais correr. Cansado e irritado por tentar apanhá-lo e não conseguir, o detetive toma uma decisão imprudente. Sem se importar com os transeuntes, ele saca sua arma e atira. O homem, que corria desesperadamente aos tropeços, grita ao sentir o laser atravessando sua panturrilha.
Aproximando-se lentamente, Burton diz:
- Você está preso. Pela lei vigente de resistência à prisão, você teve todos seus direitos revogados.
Deitado enquanto segurava sua perna ensanguentada, o suspeito vira seu rosto para ele. O detetive Burton se espanta. Era apenas um garoto.
- Eu me rendo...
Burton observa sua aparência, era um jovem asiático. O garoto sua e ofega intensamente, não demonstrando qualquer sinal de agressão. Os demais policiais aparecem, apontando seus rifles para o rosto dele.
- Ora, mas é um jovem japonês? – pergunta alguém.
Inspecionado a mochila, os policiais a abrem e encontram explosivos enrolados em grossos tecidos de roupas. Ao tirá-las, Burton reconhece um quimono. Os explosivos têm dois cilindros contendo líquidos coloridos. Eles não estão armados e, por não estarem com os dispositivos de acionamento, são perfeitamente seguros.
- Responda-me, rapaz. Você é membro da Bushido?
O garoto recusa-se a responder. Outro policial diz:
- Negar-se a cooperar pode resultar em execução.
Irritado, o garoto responde:
- Vocês não me assustam. Vocês são apenas ferramentas, o braço armado das corporações. São cães treinados pelo Estado para a repressão civil e política. Vocês não contêm a violência, vocês a praticam. Foi a sua violência que ocasionou o surgimento das facções, e vocês sabem disso. Mais do que os nossos rivais na revolução, vocês são os nossos principais inimigos.
Os policiais se entreolham. Burton conhece aquele discurso, o mesmo discurso ideológico e fanático dos terroristas.
- Nós somos seus inimigos? – pergunta um policial.
- É óbvio que sim. E não importa se as corporações alienam suas mentes, manipulando-os para nos aterrorizar e oprimir. Quando as corporações forem destruídas e tomarmos o poder, vocês morrerão também.
O garoto demonstra convicção e ódio em suas palavras, a facção o doutrinou bem. Mais um jovem manipulado, mais uma juventude perdida, até quando isso vai durar? Burton então reflete: onde termina o limite entre o dever e a alienação? E se, em seu combate aos criminosos e terroristas, ele não estava se alienando também? Afastando os maus pensamentos, ele se acalma. Aqueles eram pensamentos perigosos.
Outro policial zomba do garoto dizendo:
- Ele pensa que vai destruir a polícia...
- A polícia é o símbolo da intolerância e repressão de Sonata. Sua arrogância é notória, vocês veem a metrópole como um cativeiro e tratam a população como reféns. Vocês invadem residências e perseguem os inocentes. São vigilantes, desconfiam de qualquer movimento e jamais arcam com as consequências. “Servir e proteger”... – ironiza ele – Com vocês nas ruas, a liberdade não é mais do que uma ilusão.
Burton intervém.
- É ilusão dar segurança ao trabalhador contra gente igual a você?
- Segurança?! Que segurança? Sua privacidade é tirada, seus direitos violados e sua liberdade proibida. De que segurança está falando? Certamente é aquela que protege as próprias corporações. Não há lugar para se esconder, vocês imputam em nossas mentes que “todos devem aceitar e todos devem aderir”. Querem nos conformar, nos sufocar, nos entregar às autoridades. Essa é a opressão reinante na metrópole. As corporações apenas emitem o aviso, vocês vão e aplicam o castigo.
Eles ficam em silêncio por alguns minutos. Os policiais isolam a área e várias viaturas sobrevoam o local. Um policial se aproxima e pergunta ao detetive:
- Burton, você está bem?
- Sim. Machuquei o tornozelo na queda, mas vou ficar bem.
- A ajuda médica já está a caminho.
- Burton, não é? Deve estar muito orgulhoso de si mesmo. Me perseguindo pelas passarelas como um bom soldado, um agente de segurança, um “superpolicial”... Você acha que ganhou alguma coisa aqui? Espera receber algum prêmio extraordinário? Se você soubesse o que eu defendo, o que eu quero para o povo sonatense, os direitos e liberdades que eu acredito, estaria ao meu lado agora.
Impressionado com sua ousadia, o detetive responde:
- Não me interessa. Você está preso, seu atentado terrorista falhou. Não há mais nada para se dizer aqui.
Sorrindo, o garoto pergunta:
- Falhou?
Segurando sua mão esquerda, o garoto a puxa e ela se desencaixa. Era uma prótese. Apertando um botão em sua base, eles ouvem o som de um beep em algum lugar. Então Burton exclama:
- É o detonador! Corram!
Os líquidos nos cilindros borbulham e os explosivos se ativam. Três segundos depois vem a explosão. A bola de fogo se eleva pela plataforma, fazendo o detetive Burton e os policiais voarem. O fogo se expande pelas vias virtuais, prejudicando a visibilidade dos aerocarros. Rachaduras aparecem, as estruturas se danificam e a passarela treme.
- Rápido! Saiam da passarela!
Ao dar dois passos, a passarela se solta e inclina-se para trás. Um policial está caído ao lado de Burton. Vendo que ele não se mexe, o detetive ordena:
- Levante-se! Temos que sair daqui!
O policial não se mexe. Virando-o, o detetive vê o enorme fluxo de sangue em seu rosto, o policial estava morto. A passarela se inclina ainda mais e Burton tenta arduamente se agarrar ao piso, arranhando-o como um gato. Ele não pode fazer nada a não ser ver o policial morto deslizar e cair nas elevadas alturas de Sonata.
- Detetive Burton! Segure minha mão!
Um policial tenta segura-lo. O detetive tenta se impulsionar com sua perna direita quando tem uma agonizante surpresa. Uma de suas pernas foi mutilada pela explosão. Percebendo seu estado de choque, o policial rapidamente o puxa pela roupa segundos antes da plataforma ruir e cair entre o vão das megatorres.
Deitados à beira do precipício, eles se recuperam. Os policiais veem uma enorme fumaça vermelha subindo e colorindo o ambiente. Na bomba foi instalado um corante, a Bushido havia deixado sua marca.
Burton está ofegante, a dor lentamente domina o seu corpo. Sua visão está um pouco embaçada, mas ele consegue ver as ambulâncias sobrevoarem o local. Atrás dele, em meio à fumaça vermelha da bomba, aparecem silhuetas ameaçadoras e horripilantes. Em passos precisos e sincronizados, a imagem se revela, são robôs. Burton sussurra para si mesmo: “Securitrons”.
O detetive não entende. Por que a polícia havia chamado aquelas implacáveis máquinas de matar? Sem tempo para pensar a respeito, os paramédicos aparecem e o informam:
- Não se preocupe, detetive. O senhor vai ficar bem.
Minutos depois uma ambulância o leva dali, encerrando a perigosa operação.

§

No dia seguinte, um homem caminha pelos corredores do hospital. Abrindo a porta, ele encontra o detetive Burton deitado em um leito. Cumprimentando-o, o homem pergunta:
- Olá, detetive. Como está?
Burton sorri e o cumprimenta, os dois são detetives no mesmo departamento de polícia.
- Olá, detetive Cazares. Estou bem, obrigado.
- E sua perna? Ocorreu tudo bem o transplante?
Burton ergue o lençol e revela sua perna, uma bioprótese idêntica à uma perna orgânica. Ele responde:
- Não sei explicar, mas eu não senti muita dor com a explosão.
- Fico feliz em saber que você está bem.
A televisão no alto da parede informa os ocorridos da noite anterior.
“Ontem à noite houve um atentado terrorista no Setor B. Um garoto de apenas dezesseis anos, identificado como residente do local, detonou uma bomba no meio de uma passarela de pedestres. A explosão foi tão intensa que conseguiu desestabilizar as estruturas e derrubá-la entre as megatorres. As autoridades tentaram evitar o atentado, mas sem sucesso. Três agentes de segurança pública se feriram e dois vieram a óbito no local. A facção terrorista Bushido, famosa por sua ideologia imperialista e simbolismo feudal japonês, assumiu a autoria do atentado, publicando um vídeo no ciberespaço, como consta a seguir”.
O noticiário exibe um vídeo caseiro. Um homem sentado em seus calcanhares e vestindo belíssimas armaduras samurais fala à câmera:
“Povo de Sonata, aqui é o Xogum Tokugawa, líder da organização Bushido. Como devem saber, um dos nossos agentes kamikazes detonou uma bomba no Setor B. Com seu sacrifício esperamos passar uma mensagem clara às autoridades corporativas e aos nossos inimigos ideológicos. Não vamos parar! Tomaremos o poder pelo sacrifício e pela honra dos valiosos guerreiros samurais. Sonata, pela primeira vez, experimentará a tão sonhada liberdade da qual nosso povo tanto anseia. Acabaremos com o xogunato opressivo das corporações e unificaremos nossa sociedade na instauração do glorioso império japonês. Em breve, queridos compatriotas, Sonata resplandecerá sob a bandeira do grandiosíssimo Sol Nascente”.
Com o fim do vídeo, a apresentadora continua noticiando. Os detetives assistem indignados à televisão, até Burton dizer:
- Canalhas. A metrópole está na mão desses loucos e desequilibrados...! As autoridades vão instaurar uma Lei Marcial?
- O atentado já foi consumado, não acho que vá adiantar alguma coisa... – então seu amigo pergunta algo incômodo – Você acha que o Estado Policial corporativo está chegando ao fim?
Vociferando com ódio, Detetive Burton responde:
- Eu prefiro morrer ao ver a metrópole livre das corporações!  
Abrindo sua pasta, o homem diz:
- Eu esperava que me dissesse isso. Veja esse dossiê, neles contém informações secretas sobre sua nova missão.
- Nova missão? Mas eu ainda estou me recuperando dos meus ferimentos.
- Eu sei, mas o Departamento de Polícia me pediu para chama-lo pessoalmente. Alguém fugiu de um presídio de segurança máxima e está foragido em algum lugar de Sonata. O nome do suspeito é Nathan Hill. Ele tem 30 anos e trabalhava na Electro Core. Essa pessoa tem informações secretas, sendo um risco enorme à nossa fragilizada sociedade. Não há tempo a perder, precisamos do melhor para essa missão e você é o melhor que temos. As corporações precisam de você.
Burton desconfia.
- As corporações? Você não disse que a ordem veio do departamento?
- Foram ordens diretas, passando pelo Ministério de Segurança Pública até chegar ao departamento. Você já deve saber.
O detetive não se convence.
- Você está trabalhando direto para as corporações, não está? Na verdade, é por isso que você está aqui. Responda-me, para qual agência você trabalha?
Seu amigo lhe faz um olhar misterioso. Caminhando até a porta, ele diz:
- Nós vimos o suspeito pela última vez no Setor J e acreditamos que ele ainda está lá. Apresse-se, Detetive Burton. – ele gira a maçaneta – E boa sorte.
Então ele se vira e vai embora.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Sonata - Parte 12 - Bushido



Acordando lentamente, Nathan se vê sendo arrastado pelos soldados. Eles o levam por uma espécie de templo, uma edificação ocupando um terraço inteiro de uma megatorre. O rapaz vê pilares vermelhos e telhados pontudos com beirais curvos. Nas paredes há dezenas de lanternas orientais com letras japonesas. Ele vê velas, incensos e estátuas de um homem sentado de pernas cruzadas. “Será o Buda?” pergunta-se ele.
Há algumas pinturas exóticas pelo templo. Nathan vê tigres, carpas e dragões, sendo este último um animal mitológico que aparentemente nunca existiu. Outras pinturas chamam sua atenção,
ele vê caricaturas de homens com cabelos negros, semblantes rígidos e longas espadas em suas mãos.
Em alguns lugares ele vê manequins vestindo as armaduras tradicionais japonesas. Algumas são altamente tecnológicas – iguais àquelas que os soldados vestiam durante o ataque à 4 de Julho – mas outras são mais tradicionais e parecem estar erigidas ali como um sinal de honra e respeito. Nathan vê portais pelo templo, eles são retangulares e têm vigas curvas. Há muitas palavras japonesas ali, mas outras estão escritas em alfabeto romano e ele lê a palavra “Xinto”. Então ele percebe que aquelas pessoas acreditavam no Xintoísmo.
As pessoas naquele templo também têm aparência peculiar. As mulheres usam longos vestidos e maquiagens pesadas em seus rostos. Os homens vestem roupas largas e alguns portam aquelas espadas descritas nas pinturas. O rapaz nota que todos são asiáticos, e todos o encaram com certo fascínio e desprezo.
Apesar do admirável esforço em reproduzir um templo japonês na tecnológica metrópole, Nathan não pode deixar de notar os painéis eletrônicos, hologramas e luzes de neon espalhados pelo ambiente. Em Sonata a tecnologia é essencial e onipresente, impossível de se evitar.
Os soldados se aproximam de uma porta de madeira. Há duas sentinelas em suas extremidades, elas seguram lanças com lâminas curvas e lenços amarrados em seus cabos. Os soldados perguntam:
- Onde está o Xogum?
Com forte sotaque japonês, as sentinelas respondem:
- Ele está no grande salão e os aguarda.
Afastando as folhas da porta, as sentinelas permitem a passagem.
O rapaz vê o que parece ser um julgamento. Vestindo armaduras e portando espadas, cerca de cinquenta homens assistem à duas pessoas discutirem. Um deles está ajoelhado e teve sua armadura arrancada, e o outro está em pé e o encara furiosamente. O homem em pé tem bigode e barba pontuda, cabelos presos no topo da cabeça e veste uma armadura mais nobre e requintada.
 - Você foi acusado de trair nosso povo e nossa nobre causa. Muitos dos nossos companheiros morreram hoje por sua culpa. Você conspirou com o inimigo contra nós!
O homem ajoelhado responde:
- Eu não os traí, pois nunca compartilhei desta causa. Minha honra está intacta.
O homem em pé parece ignorar sua resposta.
- Somos o futuro de Sonata, a solução para o materialismo imoral das corporações. Por que você nos traiu? Eu não consigo entender! Por favor, me diga o porquê.
- Você vive uma ilusão, Yoshinobu. O xogunato e o império não podem voltar a existir. O que deseja não passa de um simples sonho.
Os homens de armadura se ofendem.
- Sua traição envergonha a todos nós. Esta é sua chance de manter sua honra.
O homem em pé desembainha sua espada, revelando a brilhante lâmina prateada. Vendo que sua vida está próxima do fim, o homem ajoelhado empunha uma adaga e a posiciona contra seu abdômen. Em tom profético, ele os amaldiçoa dizendo:
- Os samurais estão condenados à extinção.
Então, em um único esforço, o homem perfura a si mesmo. Em uma última demonstração de agonia, ele empurra a adaga para o lado, cortando-se ainda mais. Vendo que sua dor é insuportável, o homem em pé levanta sua espada e decepa sua cabeça, decapitando-o.
Nathan está horrorizado. A cabeça do homem cai de seu corpo, produzindo sons abafados contra o solo. Sangue escorre pelo piso, formando uma poça vermelha horrível. O rapaz sente náusea.
Os homens de armadura arrastam o corpo pelas pernas e o levam dali. Os soldados levam Nathan até a presença do líder e o jogam aos seus pés.
- Xogum Tokugawa, nós conseguimos. Capturamos o Inimigo de Estado das mãos da 4 de Julho. A missão foi um sucesso.
O rapaz vê que os soldados permanecem curvados diante de seu líder. O xogum o encara e então ordena:
- Levem-no para baixo. Nós o interrogaremos depois.
Os soldados então o levam de volta pelo templo. Enquanto avançam, o rapaz vê os demais soldados gritando “Banzai” com grande animação. Alguns balançam enormes bandeiras em seus braços, hasteando-as e louvando-as. Nathan observa a bandeira e vê um radiante sol vermelho com um fundo branco. Eles estão felizes e celebram mais uma vitória para a causa.
O rapaz desce por um elevador panorâmico na lateral do edifício. Enquanto desce, ele vê dezenas de neons com letras japonesas nos prédios. Ele reconhece o lugar, é algum distrito no Setor J, talvez o Honshu ou o Monte Fuji.
Levando-o pelos corredores, Nathan vê muitos enfeites orientais. Aparentemente aquele povo era muito ligado às suas raízes e valorizavam seu lado cultural. Nas paredes há muitas pinturas de tigres, dragões e guerreiros samurais. Em outras paredes ele vê caricaturas mais alegres e divertidas, como bichos e pessoas com olhos grandes e bocas pequenas. Talvez aquilo seja o mangá inventado pelos japoneses séculos atrás.
A Bushido redecorou os andares abaixo. Nathan vê paredes de madeira e folhas de algo que se parece com papel. Ao deslizar as portas para o lado, ele vê pessoas ajoelhadas ao redor de mesas baixas. Elas se alimentam palitos de madeira e servem a comida em pequenas tigelas. A formidável habilidade em usar aqueles pauzinhos gera grande fascínio em Nathan, que se pergunta como elas conseguem manejar aquilo para comer.
O rapaz é deixado em uma pequena sala por um dia inteiro. Nathan se assusta, pois sabe que o vírus avança e diminui seu tempo de vida. Ele começa a aceitar que não vai sobreviver.
No decorrer do dia, algumas mulheres aparecem e lhe oferecem água e comida. Ele logo aceita, Nathan estava faminto. Mas seu apetite é quebrado quando ele vê carne de peixe crua, molhos escuros e aqueles pauzinhos incompreensíveis na bandeja.
A porta se abre e ele vê um homem mais velho vestindo armadura vermelha. Nathan o reconhece, é o mesmo que lhe falou pouco antes de alguém golpeá-lo.
- Kon'nichiwa, Nathan-san. Sou o Kyaputen Yamada. Como tem passado?
- O que quer de mim?
- Vim levá-lo ao Conselho. O Xogum quer falar com você.
- Quem...? – pergunta Nathan, mas sem resposta.
Yamada o leva pelos corredores. Ao passar pelos soldados, eles estufam seus peitos e batem continência. Então o rapaz percebe que o termo kyaputen significa capitão em japonês.
A porta se abre e Nathan vê um salão onde os samurais se reúnem. Há uma longa mesa baixa com vários homens mais velhos ajoelhados ao seu redor. Alguns usam roupas longas e largas, e outros vestem suas imponentes armaduras de samurai. No canto do salão ele vê três mulheres com rostos pintados e cabelos presos no topo da cabeça. Elas encantam o ambiente tocando instrumentos tradicionais japoneses.
- Sente-se, Nathan-san. – Indica Yamada.
O rapaz olha para o chão e não entende o que o kyaputen quis dizer. Não há cadeiras. “Você quer que eu sente no chão?” pensa ele. Um pouco confuso o rapaz se ajoelha e se senta sobre seus calcanhares, imitando os senhores ao seu redor.
O homem na ponta da mesa diz:
- Kon'nichiwa, Nathan-san. Sou o Xogum Tokugawa Yoshinobu. Estive ansioso em vê-lo.
Por quê? – pergunta ele.
- Não seja hipócrita. A 4 de Julho já deve ter te informado de sua importância. O trabalhador das corporações tornado Inimigo de Estado... O que quer que tenha visto no Setor L incomodou muito os senhores desta metrópole.
“Senhores desta metrópole?”. O xogum fala como se toda a cidade fosse alguma nação feudal.
- Não foi minha intenção...
- Já disse para não ser hipócrita! – interrompe ele, fazendo inclusive as gueixas pararem de tocar – Estamos em guerra, Nathan-san. Chegamos a um ponto onde a vitória final não pode mais ser alcançada com o poder das armas. Precisamos de um poder ainda maior. Algo mais sutil que destrua nosso inimigo e não cause tanto derramamento de sangue. Precisamos de sua informação.
Nathan sente medo. Terroristas violentos e altamente perigosos estão se matando para conseguirem algo que só ele pode dar. Por que é tão importante? O que as corporações estão escondendo e os terroristas sabem, mas não querem falar?
- Senhor Tokugawa, peço que me entenda. Não quero ser responsável pela morte de milhões. – responde educadamente Nathan, achando que o xogum será complacente.
- Morte de milhões? – pergunta ele – Tokugawa se levanta e então todos se levantam, mas com um aceno ele pede que todos voltem a se sentar. Sua autoridade é incontestável – Você sabe por que a Bushido luta, Nathan-san?
- Não, senhor.
- Lutamos por Honra, Ordem e Tradição. Está vendo estes senhores? Estes são meus conselheiros, meus daimiôs, meus mais valorosos generais. Eu sou o Xogum Tokugawa, nomeado conforme o último xogum japonês antes da Restauração Meiji. Lutamos para que as vitórias no futuro corrijam os erros do passado. Acreditamos que o imperialismo japonês foi desastroso para nosso país. Acreditamos que a modernização da sociedade, a absorção dos costumes estrangeiros e a competição com as potências ocidentais culminaram na ganância de nossos líderes. A arrogância dos nossos governantes causaram a humilhação do nosso povo, resultando, como você mesmo disse, na morte de milhões.
- Mas sua organização quer o retorno do imperialismo, não é mesmo?
- Como eu disse, queremos corrigir os erros do passado. O xogunato se mostrou um governo sólido e capaz de manter a ordem após tantos séculos de guerra. O imperialismo destruiu o que os honoráveis xoguns construíram, nos trazendo guerra, desonra e derrota. O Ocidente deixou nosso país submisso e enfraquecido, enquanto que nossos antigos inimigos cresceram e se fortaleceram. Nossa nação, uma vez forte e vitoriosa, foi desarmada e humilhada por seus vencedores. O estigma da derrota foi por muito tempo carregado por nosso povo. Mas após nossa inevitável vitória, meus daimiôs serão intitulados xoguns e governarão cada setor de Sonata. Todos obedecerão a um único imperador, um homem visionário capaz de enxergar os erros do antigo império e batalhar para a construção de um novo.
- E quem será esse homem?
Nathan não se impressiona com a resposta.
- Eu.
O rapaz percebe que duas facções terroristas são lideradas por loucos e saudosistas.
- O senhor quer tratar Sonata como uma antiga nação feudal?
- O feudalismo é um sistema rural ultrapassado. A nova Sonata será uma megalópole pacífica e tecnológica. Nossos cientistas são os mais brilhantes e inteligentes, o legado tecnológico de meu povo ainda sobrevive. – diz ele, apontando para alguns aparatos tecnológicos espalhados pela sala – A memória do antigo Japão jamais será esquecida, ela será fortalecida nas novas gerações que virão.
A Bushido divide-se entre a tradição dos bushi e a modernidade do capitalismo.
- E o senhor acha que a população aceitará um povo “distinto” governando sobre suas vidas? – pergunta ele, referindo-se à aparência japonesa.
- Você pensa que o Setor J é composto unicamente de japoneses? Antes de 2057, nosso povo imigrou em massa do Japão para sobreviver. Éramos minoria nesse país, mas com a construção da metrópole nossa organização cresceu e acolheu a todos os asiáticos, japoneses ou não. Prometemos dividir o poder com todo aquele que luta por nossa causa. Ao nosso lado lutam pessoas de várias outras etnias, mas um soldado não-japonês é chamado de samurai Ronin, pois este não tem legitimidade no sangue e nem um daimiô.
Nathan percebe certa discriminação nas palavras do xogum. Após a Segunda Guerra Mundial, os povos asiáticos passaram a odiar os japoneses durante anos. Então ele faz uma pergunta semelhante à que fez ao líder da 4 de Julho:
- Mas sua organização aceita os não-asiáticos?
- Bushido não é uma simples organização, é um estilo de vida, um código de honra e logo será a lei universal de toda Sonata. Todos são bem-vindos se assim o desejarem. Nós seguimos as sete virtudes da Bushido. GI: justiça, moralidade, atitude direta, razão correta e decidir sem hesitar; YUU: coragem e bravura heroica; JIN: compaixão e benevolência; REI: polidez, cortesia e amabilidade; MAKOTO: sinceridade e veracidade total; MEYO: honra e glória; e CHUU: dever e lealdade. Somos samurais, merecemos governar a metrópole, e quando governarmos, nossa honra e lealdade serão notórias a todos.
Então Nathan se lembra de algo que o enraivece.
- Como pode falar em honra se ontem mesmo vi o senhor decapitar um homem de joelhos?
Ao ouvi-lo, os daimiôs de Tokugawa se ofendem, insultando-o. O xogum, porém, pede para eles se calarem.
- Aquele homem era um traidor e merecia ser punido. De acordo com nossos costumes, é desonroso para um samurai capturado não ser morto pelas próprias mãos. A decapitação é um sinal de misericórdia do captor, pois a prática do harakiri é dolorosa e agonizante. É desta forma que realizamos o ritual do seppuku.
- Pois para mim isso se chama assassinato, e assassinato terroristas como vocês conhecem bem. Não farei parte disso.
Nathan se levanta e lhes dá as costas. Mas antes que pudesse chegar à porta, Yamada desembainha sua espada e a aponta para seu pescoço.
- Creio que você não tem escolha. – diz Yamada.
- Nós empreendemos um ataque meticuloso e ousado para captura-lo. A 4 de Julho jamais irá esquecer. Agora você pensa que poderá simplesmente dar as costas e ir embora se assim o desejar?
Yamada o ameaça dizendo:
- Sugiro que se sente, senão eu pessoalmente cortarei sua cabeça e a guardarei como troféu. E o resto de seu corpo eu darei de alimento para os cães.
Apesar de velho, o kyaputen tem uma voz grave e rouca capaz de assustar o mais valente dos homens. Nathan olha para sua espada e a vê perfeitamente afiada, e então imagina quantos homens ele já matou com ela. Yamada é um legítimo guerreiro samurai, ele provou seu valor comandando a ousada missão de invadir a 4 de Julho e capturar o rapaz. Apesar do profundo temor, o rapaz o admira.
Mas e quanto à Bushido? Ela era mais uma organização terrorista e xenofóbica como a 4 de Julho. Se um dia eles conquistarem o poder, tratariam eles os não-asiáticos como cidadãos de segunda classe, como a 4 de Julho faria em relação aos não-americanos? A Bushido, apesar das palavras bonitas e condutas honrosas, não lutava pela libertação dos sonatenses, eles lutavam por outra opressão: a ditadura militar dos xogunatos e do imperador.
Nathan novamente se senta. Com a lâmina da espada a um centímetro de seu pescoço, o rapaz treme, batendo a ponta de seus dedos rapidamente sobre a mesa.
- Comece a falar, Nathan-san. O braço de Yamada está começando a cansar.
Suor desliza de seu rosto. O rapaz está tão assustado que parece que seu coração vai sair por sua boca. Olhando ao redor, ele não vê outra forma de sair dali senão cooperando com inabalável xogum. Não havia outra opção.
Ao abrir sua boca, um objeto esférico rola sobre a mesa e gás se expele de seus orifícios. Confusos, os daimiôs se entreolham, e então Tokugawa grita:
- Gás!
Mas o alerta veio tarde. O gás se rapidamente se alastra e todos começam a tossir, perdendo a consciência em seguida. Yamada leva suas mãos à boca, largando sua espada. Nathan tenta conter o efeito do gás segurando sua respiração, e então ele consegue ver.
Um dos daimiôs se levanta. Ele está vestido em sua armadura samurai com o rosto coberto com aquela máscara horrível. O daimiô se aproxima de Nathan, retira um objeto de sua bolsa e diz:
- Ponha isto.
O rapaz vê uma máscara de gás. Vestindo-a rapidamente, o daimiô o levanta e o conduz para fora do salão. Enquanto é carregado para fora, alguém puxa o braço do homem e arranca sua máscara, revelando sua identidade. É Maynard!
- Maldito! Como ousa invadir nossa sede e templo sagrado? Meus samurais o farão em pedaços!
Tokugawa luta para não perder a consciência e o encara furiosamente. Enquanto o xogum sucumbe ao efeito do gás, o agente aproveita para lhe responder:
- Os samurais estão condenados à extinção.
Então Maynard lhe dá um soco no rosto, fazendo-o se soltar. O agente veste novamente seu capacete e continua seu caminho.
Conduzindo o rapaz pela sede da Bushido, os samurais olham para o agente disfarçado e se curvam. Aparentemente eles reconhecem a armadura pessoal de seus daimiôs.
Ao chegar ao elevador, um samurai os interrompe e começa a lhe falar palavras incompreensíveis em japonês. Maynard não sabe o que responder e isso intriga o samurai à sua frente. O agente gesticula pedindo para ele se afastar, mas o samurai fala ainda mais, como se estivesse perguntando-o algo. Esticando seu braço para o botão do elevador, o agente intenciona pressioná-lo, mas o samurai o interrompe, apertando para ele em seguida. Aparentemente ele queria apenas fazer uma gentileza. O elevador se abre e então o agente cinicamente diz:
- Arigatou gozaimasu.
O samurai não reconhece a voz de seu senhor e o estranha. Mas antes que pudesse dizer algo, a porta se fecha e eles vão embora.
- Maynard! Você veio me salvar! – comemora o rapaz.
Sem dar muita importância às suas palavras, o agente responde:
- É, pode-se dizer que sim. Agora fique em silêncio.
Eles chegam ao terraço onde o templo se encontra. Atravessando os suntuosos salões, alguns samurais os veem e fazem suas reverências. Ao chegar ao estacionamento, dois samurais guardam sua entrada.
- Daimiô Kumamoto, é uma honra recebê-lo. Deseja um aerocarro?
Felizmente os dois falam inglês. O agente acena positivamente com a cabeça e continua caminhando. Mas o outro samurai o interrompe dizendo:
- Não quer que eu chame um motorista?
- Isso não será necessário.
Então os dois guardas se intrigam. Os daimiôs nunca saem sem motoristas. E aquela voz, eles não reconhecem a voz daquele homem.
- Espere um pouco. Quem é você, afinal? E aonde vai com o prisioneiro?
Um silêncio perigoso paira entre eles. Maynard se prepara para sacar sua arma debaixo da armadura quando algo acontece. O alarme soa pelo templo e uma voz fala pelo alto-falante:
“Alerta! Há um agente infiltrado no templo e ele está com o prisioneiro. Não o deixem fugir!”
Então Maynard saca sua arma e atira. Os samurais se protegem atrás dos aerocarros e começam a atirar também. Nathan corre pelo estacionamento e então o agente ordena para que ele vá até seu aerocarro. O rapaz olha para trás e tropeça no exato momento quando três shurikens voam contra seu rosto, perfurando as paredes logo atrás.
- Meu Deus!
- Corra, Nathan! Corra!
Maynard o agarra pela camisa e o puxa consigo. Chegando ao aerocarro, o agente grita:
- Computador, abra as portas! Agora!
“Comando de voz não identificado”.
O rapaz ouve a voz robótica várias vezes enquanto o agente atira nos samurais. Ele ordena constantemente para que o aerocarro se abra, mas sem sucesso.
Passos são ouvidos, fazendo o chão tremer. Assustados, os dois se entreolham. Ao espiarem sobre o capô, eles veem dois samurais gigantes se aproximarem. Eles têm armas acopladas aos seus braços esquerdos e seguram uma espada enorme em seus braços direitos, capaz de partir ao meio um aerocarro inteiro. Seus olhos brilham em uma cor vermelha forte, e sua armadura é escura como a face inclemente da morte.
Desta vez, é Maynard quem diz:
- Meu Deus...!
- São robôs...? – pergunta-se Nathan.
As enormes máquinas apontam suas armas e atiram. O projétil é uma mini granada que explode os aerocarros ao redor, levantando uma onda de fogo infernal. Maynard tenta arduamente fazer seu aerocarro abrir, mais uma granada daquelas e os dois viram churrasco.
- Maynard! A máscara! Tire sua máscara!
Então o agente percebe seu erro. A máscara estava abafando sua voz, tornando a identificação impossível. Ao ordenar mais uma vez, o aerocarro se abre e os dois rapidamente entram. Apertando os botões, o painel se ilumina e o veículo lentamente levanta voo. Maynard ordena:
- Computador, disparar canhões.
Imagens se formam no para-brisa e miram os gigantescos robôs da Bushido. Os tiros são disparados e explodem em seus peitos, fazendo os robôs hesitarem e cambalearem para trás. A fumaça se dissipa, mas Nathan vê que eles ainda estão em pé, novamente mirando suas armas para os dois.
- Eles vão atirar!
- Computador, disparar bombas eletromagnéticas.
Os projéteis EMP atingem os robôs. Uma descarga elétrica e azulada os envolve, paralisando-os.
- Isso nos dará tempo para fugir. – comenta ele.
Então o aerocarro de Maynard ganha a altitude necessária e deixa o templo da Bushido, voando em meio a centenas de tiros lasers pela noite.