domingo, 6 de janeiro de 2019

Sonata - Parte 17 - A Chegada à Superfície



Encarando-o de cima a baixo, o homem pergunta:
- Você é da Bushido?
O runner se refere às roupas que Nathan recebeu na sede dos japoneses. Imediatamente ele responde:
- Não.
- E quanto a esse uniforme? Vai dizer que o achou na lata de lixo? – pergunta a mulher, mascando seu chiclete.
- Eles me deram o uniforme, mas eu não faço parte dessa facção.
Então de qual facção faz parte? – pergunta o homem.
- De nenhuma.
- Então você é um espião?
- Eu não sou nenhum espião.
- Será mesmo? – pergunta a mulher, manuseando uma faca.
Ignorando sua tentativa de intimidá-lo, o rapaz ousadamente diz:
- Desculpem se eu não estou participando direito, mas eu não tenho tempo para brincadeiras imbecis. Aqui é a superfície, não é? Eu preciso encontrar um homem, seu codinome é Database. Me disseram que ele vive aqui e eu preciso muito falar com ele.
Os runners se entreolham.
- Como você conhece o Database? – pergunta o homem.
- Eu não o conheço, apenas me disseram para procura-lo aqui. Escute, eu fui infectado com um vírus e tenho poucas horas de vida...
- Vírus?
Os runners se assustam, temendo que o rapaz possa infecta-los também. 
- Como você contraiu esse vírus?
- É uma longa história. Por favor, vocês precisam me levar ao Database.
Confusos, seus captores conversam entre si. Ninguém parece acreditar em Nathan. O homem olha para ele e pergunta:
- Você está mentindo para a gente?
- Eu nunca fui tão honesto em toda minha vida.
A mulher responde:
- É melhor não enganar a gente, cara. Você pode se arrepender.
- Eu estou morrendo e preciso salvar minha vida! Por que eu enganaria vocês?  
Novamente os runners não sabem o que fazer.
Interrogar o rapaz estava deixando-os entediados. Ainda com os rifles apontados para o seu rosto, Nathan vê o homem se afastar e ativar um painel na parede. A tela se acende e ele disca alguns números no vidphone. A chamada é efetuada e então alguém aparece no pequeno monitor.
O runner conversa pelo aparelho. Após alguns segundos, Nathan ouve uma voz dizer: “traga-o até mim”. A ligação é encerrada. O homem se aproxima da mulher e diz:
- Vamos leva-lo ao Database.
O rapaz se alegra. Aqueles estranhos de fato conheciam o Database, o mesmo que ele esteve procurando por todo esse tempo. Não querendo suscitar mais perguntas, ele sabiamente se mantém em silêncio.
Levando-o pelo estranho ambiente, Nathan percorre túneis e galerias escuras até chegar a uma estação de trem. A estação denota abandono e podridão, mas os runners ainda usam suas linhas para se locomover pela superfície. Colocando-o em uma pequena locomotiva, Nathan se deixa levar por aqueles desconhecidos.
Enquanto a locomotiva avança, o rapaz vê a deprimente paisagem da superfície. Há muitas pilhas de lixo, aerocarros enferrujados e tubulações industriais pelo ambiente. Pontes cruzam os córregos e rios. Nathan sente medo, pois tanto as pontes quanto a própria locomotiva estalavam como a podridão.
De repente a linha para abruptamente. À frente o rapaz vê uma enorme parede de concreto atravessando a linha. Era a base de uma megatorre, elevando-se centenas de metros para o céu. Descendo da locomotiva, os runners o levam por sinuosos caminhos entre outras megatorres.
Os runners abrem os portões de uma fábrica abandonada e Nathan consegue ouvir a música alta e as pessoas conversando ao fundo. Levando-o para uma sala no andar superior, os runners sobem por uma escada e batem à porta. Alguém lá dentro diz:
- Entrem.
Em seu escritório, Nathan vê um homem sentado com os pés sobre a mesa. Agarrando-o pelos braços, os runners o empurram para dentro.
- Database, encontramos esse cara no Setor D. Ele disse que te conhecia e que precisava vê-lo.
Database o observa em silêncio. Com sua mão robótica, ele pega um copo e bebe um gole de seu uísque.
- Podem deixa-lo comigo. – responde ele, finalmente.
Os runners perguntam:
- Deseja mais alguma coisa, senhor?
“Senhor?” pensa Nathan. “Por acaso esse homem hediondo é alguma autoridade aqui?”
- Não, obrigado.
Dando-lhe as costas, os runners saem.
- Pegando outro copo, o homem robótico joga duas pedras de gelo e derrama um pouco do líquido marrom.
- Me acompanha nesse maravilho uísque? – pergunta ele.
- Não, obrigado.
Inclinando-se, ele diz:
- Eu insisto.
Encarando-o, o homem arrasta o pequeno copo pela mesa, obrigando-o a aceitar. O primeiro gole é horrível, o uísque queima em sua garganta como se fosse ácido. O homem apenas olha para ele, observando suas expressões de dor enquanto bebe tranquilamente sem incômodo algum.
Por fim ele pergunta:
- Então, você queria me ver?
Ainda irritado com a bebida, o rapaz responde:
- Sim.
- E posso saber o porquê, senhor Nathan?
- Eu fui infectado com um vírus e se você não me der uma cura eu vou morrer...
Sorrindo, o chefe se encosta em sua poltrona e novamente pergunta:
- Por acaso você acredita em destino?
Confuso com a inesperada pergunta, o rapaz responde:
- Não.
- Quando eu era jovem – começa ele – eu também não acreditava. Como todo jovem arrogante e inexperiente, eu acreditava que podia fazer tudo sozinho, que minha vida podia ser moldada por minhas próprias decisões, que tudo o que eu fizesse tivesse a consequência única e exclusiva de minha própria liberdade... Mas então eu envelheci, e com a sabedoria adquirida com a idade, aprendi que existem forças que estão além de nossa compreensão. Estamos em um caminho confuso, inconstante, espiralado e entrelaçado onde planos, sonhos e metas se distanciam e eventualmente se encontram na longa e infinita linha do incompreensível e imutável Destino.
Nathan olha para o homem e se espanta. Como uma paródia de ser humano, metade carne, metade robô, podia ter um conhecimento tão profundo?
- Admiro o seu ponto de vista.
- Mas – interrompe ele, não se interessando pela opinião do rapaz – eu ainda não estava pronto para enxergar algo ainda maior. O destino pelo destino não é o suficiente. A lógica existencial humana não pode ser explicada por um bando de teóricos amadores que usam o destino como um mero pretexto para suas mais variadas frustrações. – ele então mira sua lente vermelha à Nathan e pergunta – O senhor sabe o que é Fatalismo?
O rapaz nunca ouviu essa palavra antes.
- Não.
O chefe bebe um gole de seu uísque e explica:
- Imagine que a vida seja um jogo de escolhas certas e erradas que, dependendo de nossas ações, arcaremos com as responsabilidades antes de nossa morte. Entretanto, imagine que, independente de nossas escolhas e ações, tudo está preestabelecido e destinado a acontecer em uma sequência inquebrável de eventos acima de nossa compreensão. Eis o Fatalismo, uma teoria que se contrapõe ao Predeterminismo, mas que também não se alinha ao Livre-Arbítrio. Uma teoria ambivalente que equilibra o imutável com o poder de escolha. – pausando por um momento, ele continua – Não existe o poder de escolha, mas a escolha existe. Então quem decide? Quem define todas as aparências? Estamos nós à deriva neste buraco no tempo inútil em direção a um futuro desconhecido?
Passados alguns segundos, Database continua:
- O Predeterminismo não é novidade aos otimistas e pessimistas, o Livre-Arbítrio é velho, mas Fatalismo é a resposta metafísica clara e objetiva às aflições da Alma. Os fatores influenciáveis da vida, como a religião, a política e a ciência, são como talhadeiras que moldam nossa personalidade individual e indivisível, mas são como nuvens que não podem lhe fazer mal algum. Você vive do que escolhe sem saber que o destino o escolheu. Todo Homem fará as perguntas e todo Homem sofrerá no final. A Escolha depende dos humanos, havendo ao mesmo tempo alguém que decide acima de nossas escolhas. O Fatalismo acredita na existência de uma Entidade Universal onisciente e infinita, criadora dos poderes ambivalentes conflitantes, mas harmoniosos do Predeterminismo e do Livre-Arbítrio. Temos o poder de escolha em um universo paradoxal onde todas as escolhas e ações chegam a um mesmo fim.
Nathan fica sem palavras e não consegue comentar nada sem parecer um ignorante. Um pouco confuso, ele pergunta:
- Por que está me dizendo isso?
Levantando-se, ele caminha até a janela e pede para Nathan acompanha-lo. Olhando pela persiana, o homem lhe aponta um prédio colorido em meio a uma paisagem suburbana cheia de vapor.
- Está vendo aquele prédio? É minha casa noturna, o Mystique. Assim como as facções controlam certos distritos de Sonata, de lá eu comando toda essa parte da superfície. Nada acontece aqui sem que eu saiba, e tudo acontece com minha permissão. Podemos dizer que aqui eu sou um deus, embora um deus caído. – olhando para o rapaz, ele pergunta – Você pensa que foi um acidente você ter caído fora da Contençao, não é mesmo?
O rapaz responde com plena convicção.
- Eu tenho certeza, eu não deveria estar aqui!
- Pois eu acho que não. Tudo acontece por uma razão e absolutamente nada é por acaso. – voltando a olhar para o seu clube, Database continua – Desde que o mercenário te tirou da prisão, você se tornou um Inimigo de Estado. Nada do que fizer mudará sua situação. Caso se entregue à polícia, há duas opções possíveis para você: a execução ou o banimento. O que você escolhe?
Assustado, Nathan responde:
- Eu escolho viver.
Database sorri novamente.
- E você sabe o que isso significa?
O rapaz não o entende.
- Não.
- Significa que, independente do que te aconteceu for um acidente ou não, o seu destino você acaba de escolher, e o que vier a seguir você não poderá mais alegar inocência.  
Voltando à sua poltrona, Database lhe pede para se sentar também.
- Diga-me Nathan, o que te aconteceu no Setor L?
O rapaz lhe relata tudo. Ele fala sobre o atentado terrorista, seu encontro com Copérnico e a infecção do vírus. Database ouve atentamente, demonstrando grande interesse. Nathan fala sobre seu tempo de vida e pede para que o homem à sua frente o ajude. O chefe aperta um botão sobre a mesa e os runners retornam à sua sala.
- Pois não, senhor Database?
- Preciso que levem o rapaz para o Mystique. Eu já estou a caminho.
Assentindo, os runners seguram o rapaz pelos braços e o tiram dali.

§

As ruas da superfície são sujas e movimentadas. Olhando ao redor, Nathan vê seus habitantes dividindo o curto espaço com improvisadas tendas, comércios e habitações. As pessoas têm uma aparência distinta, quase de indigência, apesar do rapaz nunca ter visto um mendigo antes.
A paisagem era conhecida, ele já a viu no exterior da metrópole. Diferente dos modernos megaedifícios dos níveis superiores, na superfície existem os antigos prédios do século 20, os poucos que ainda restaram após a reconstrução de Sonata. Os prédios eram verdadeiras relíquias do passado mas, para a funcionalidade plena da tecnológica metrópole, as velhas partes da cidade foram apagadas e abandonadas ao esquecimento.
O casal de runners entrega o rapaz para os capangas de Database. Adiante o rapaz vê o Mystique com sua música alta e uma fila de pessoas no lado de fora esperando para entrar. Os capangas pegam uma rota alternativa e o conduzem por uma passagem sinuosa rumo a outra entrada mais discreta.
Caminhando por becos escuros e úmidos, os dois passam por mendigos e latas de lixo flamejantes. Os corredores ficam mais desertos e o rapaz vê janelas trancadas, pregadas com tábuas de madeira. Há uma porta na lateral de um edifício, um dos capangas bate e uma pequena fresta se abre, o suficiente para se ver apenas os olhos de alguém lá dentro.
- Quem é?
O homem se identifica e então o sentinela a abre.
Nathan está muito confuso, ele não sabe o que fazer. Os capangas os conduzem por salas com outros runners conversando. Ao chegarem ao fundo, o rapaz vê um cômodo cheio de computadores e cabos pelo chão.
Indicando-lhe um sofá, o homem pede para ele se sentar. Um runner aparece e, olhando para ele, lhe pergunta:
- Então você é o Nathan, o Inimigo de Estado?
Olhando para o seu rosto, o rapaz vê outro jovem com cabelos negros e roupas exóticas.
- Acho que sim.
- Muito prazer. Pode me chamar de Vertigo.
Oferecendo-lhe a mão, Nathan vê o braço biomecânico do runner.
- O que você quer comigo?
- Vim descobrir o que o Database pretende revelando sua informação. Instaurar o caos nos níveis superiores atrairá atenção indesejada para a superfície. Não queremos isso, se a superfície cair muitos morrerão, inclusive nós. – conclui ele, referindo-se aos runners.
- Do que é que você está falando? Eu não vim aqui para provocar rebelião alguma.
Vertigo ri.
- É por que você não conhece o Database como nós o conhecemos. Ele nunca dá nada sem ganhar algo em troca. A informação que você tem provocará uma rebelião e é por isso que as autoridades se apressaram a lhe classificar como um Inimigo de Estado. Você já deve ter ouvido isso das facções, não é?
Nathan se lembra que sim.
- Esse Database parece ter muito poder aqui. Ele deixou isso bem claro com seu exército particular de capangas tratando-o como um rei.
- O Database controla a todos com seu dinheiro, e isso ele sabe ganhar muito bem. Se não fosse pela venda de drogas, bebidas e próteses ilegais, ele não teria nada.
Preocupado, o rapaz diz:
- Eu também não confio nele, mas preciso dele para me dar a cura.
- Não se preocupe. Apenas faça o que tiver que fazer e você ficará bem. Eu estarei por perto se lhe acontecer algo.
O rapaz não se convence.
- Como saber se eu posso acreditar em você?
Virando-se, o runner responde:
- Confie em mim.


terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Sonata - Parte 16 - A Descida



 O rapaz acorda de repente. O quarto está escuro e ele enxerga apenas os números vermelhos do relógio: 02h19min. Ele se pune por dentro, ele adormeceu quando deveria ter tentado fugir. Recuperando-se, ele enxuga o suor de seu rosto e respira fundo. Estranhamente ele sente um cheiro doce no ar, e um doce bem gostoso. Então ele estica seu braço até o interruptor e acende a luz.
- Ah!
Gritando de susto, ele vê a mulher-robô a um palmo de distância. Com seu rosto estático, ela sinistramente sorri para ele.
- Meu jovem, eu trouxe o seu bolo, conforme prometido.
- O que você pensa que está fazendo?!
- Estou esperando você acordar, meu jovem. Vamos, experimente o bolo, você vai adorar!
Tentando conter o susto, ele vê a mulher segurar o bolo em uma bandeja. Ela não demonstra reação alguma, apenas permanece olhando-o com seu sorriso imutável. Nathan vê o recheio, chantili com frutas sintéticas, sua aparência estava deliciosa. Sentando-se, ele tenta pegar um pedaço, mas tem dificuldade. O bolo não estava fatiado.
- Oh, perdoe-me, meu jovem. Deixe-me ajuda-lo.
A mão da mulher forma uma longa faca, intimidando-o por um momento. Ela fatia o bolo simetricamente, dividindo-o em pedaços e oferecendo-os ao rapaz. Nathan experimenta. Ao mastiga-lo, ele rapidamente sente o doce sabor, o bolo realmente estava delicioso.
- Pode deixa-lo aqui. Obrigado.
- Deseja mais alguma coisa, meu jovem? – pergunta gentilmente ela.
- Sim. Você pode me trazer um copo de leite ou uma xícara de chá?
- Será um prazer! Mas eu não tenho leite no estoque ou os ingredientes para fazer um chá. Incomoda-se de esperar eu trazê-los para você?
Não querendo esperar mais horas para ela voltar, ele responde:
- Um copo d’água serve.
Minutos depois ela retorna. A mulher-robô lhe traz um prato com o copo preenchido perfeitamente até a boca, em seguida deixando-o sobre o criado-mudo. Como se fosse uma garçonete, em seu braço ela traz um guardanapo. Antes que Nathan pudesse fazer algo, a mulher o interrompe e então ajusta o guardanapo em seu colarinho, deixando-o acanhado.
Desacostumado com qualquer tipo de regalia, ele acha tudo aquilo muito estranho. Ele se assusta com o fato de que sua mão, ao menor sinal de mal funcionamento, pode se tornar uma faca e atravessar seu pescoço. A mulher então pergunta:
Deseja mais alguma coisa, meu jovem?
- Não. Isso é tudo.
Sorrindo gentilmente, a mulher se despede e sai pela porta. Mas o rapaz nota que ela não sai do apartamento, ficando com ele o tempo todo. Esgueirando-se pelo quarto, ele caminha até a porta e espia a sala. Como uma assombração, ele a encontra parada ao lado da janela.
- Deseja mais alguma coisa, meu jovem? – pergunta novamente ela.
- Não.
- Meu jovem, gostaria de comer um bolo? Eu sei fazer dezenas de bolos diferentes, tenho incontáveis receitas em meu banco de dados!
Nathan, que acabara de ingerir alguns pedaços, se confunde por um instante.
- Eu sei, você acabou de me fazer um.
- Por favor, me avise se precisar de algo.
- Pensando bem, eu preciso de algo sim. Me responda uma coisa: o Apex te colocou aqui para me espionar, não é mesmo?
Sem piscar, a mulher responde:
- Oh, não meu jovem! Minha função é cozinhar, e não espionar os humanos! – responde ela, cordialmente.
- Então por que só você vem aqui? Onde está Apex? Onde estão os outros robôs?
- O nosso líder Apex é um homem muito ocupado. E os outros robôs têm outras funções, como limpar, cozinhar e dirigir, por exemplo. Nem todos podem visita-lo.
Parcialmente satisfeito, o rapaz diz:
- Vá embora, eu quero ficar sozinho.
- Fico feliz em poder ajuda-lo. Até mais tarde.
Sem perder o sorriso no rosto, a mulher deixa o apartamento e a porta se desliza, fechando-se.

§

Nuvens se formam no céu, estava prestes a chover. Ele vê alguns robôs voltarem aos seus apartamentos, caminhando em sincronia pelos corredores e passarelas adjacentes. Nathan sente inveja deles, pois nenhuma daquelas máquinas sentia estresse, frustração ou estafa. No dia seguinte, todas voltariam a trabalhar com a mesma disposição e força sobre-humana novamente.
“Malditos robôs, tão livres das angústias e preocupações humanas” pensa ele. “Devido a um maldito software corrompido, hoje eles pensam que são seres sapientes, desejando estupidamente serem orgânicos. Eles vivem livres da prisão da carne, livre dos males que afligem o mundo. Se ao menos eles soubessem o privilégio que têm...”.
Então Nathan percebe, ele não é diferente dos humanos intolerantes. Ele os odeia também.
Um trovão reverbera pelo céu. Com o cair da noite, também caem as infindáveis gotas de chuva. Mais chuva sobre a metrópole, mais lágrimas sobre sua vida. Nathan se distrai. Observando a noite chuvosa lá fora, ele se pergunta por quanto tempo terá de se esconder das facções e da polícia.
Coincidentemente, ele não teve de esperar muito para descobrir.
Fora do apartamento, ele ouve uma explosão. E então várias outras explosões são vistas nas megatorres ao redor. Luzes vermelhas e azuis invadem o ambiente e o rapaz se desespera, era outra invasão.
Aerocarros descem pelo fosso e uma voz no alto-falante diz: “aqui é a Polícia! Fiquem onde estão. Qualquer tentativa de fuga ou resistência será vista como agressão. Entreguem o fugitivo e ninguém sairá ferido”.
Mas os robôs sairão feridos, e muitos. Da janela Nathan pode vê-los correndo e sendo baleados pelas costas. Eles caem ao chão e têm descargas elétricas, definhando enquanto desligam.
A luz de um holofote percorre os edifícios e encontra o olhar assustado do rapaz. Alguém no alto-falante grita: “parado!”. Assustado, ele se vira e deixa o apartamento.
Sons de soldados em marcha são ouvidos pelos corredores, eles estão em toda parte! Ao chegar ao final do corredor, um robô aparece na intersecção e toma um tiro no peito, explodindo em faíscas com o impacto. Voltando pelo mesmo caminho, ele vê a porta da escadaria. Ele começa a descer quando vê soldados descerem as escadas logo acima. Vendo o rapaz, eles miram suas lanternas para o seu rosto e gritam:
- Polícia!
Antes que pudesse fazer algo, os policiais atiram, estourando o piso sob seus pés. Nathan corre, descendo as escadas em pulos inacreditáveis de quem quer sobreviver. Ao chegar ao nível das passarelas, ele abre a porta e ouve gritos horríveis vindo dos apartamentos, como se as vozes estivessem se distorcendo com as chamas. As luzes piscam e as portas se abrem descontroladamente, deslizando-se para cima e para baixo.
Policiais vasculham o andar, Nathan precisa ser cuidadoso se quiser sobreviver. Há vários robôs se contorcendo pelo chão, o rapaz tenta evita-los para não ser eletrocutado. Levantando-se, ele corre para a saída quando tropeça em algo, fazendo-o cair.
Ao olhar para baixo ele tem uma terrível surpresa. Com apenas metade de seu corpo e tendo um mal funcionamento em seu pescoço, ele vê a mulher-robô olhando de volta para ele. Com seu sorriso gentil e cordialidade inocente, ela pergunta:
- Meu jovem, gostaria de comer um bolo? Eu sei fazer dezenas de bolos diferentes, tenho incontáveis receitas em meu banco de dados!
Por alguma razão o rapaz se comove. Agachando-se, ele a levanta e a abraça, chorando em seu pescoço em seguida. A mulher não consegue fazer nada além de repetir a mesma pergunta até finalmente esgotar suas energias, morrendo em seus braços. O brilho em seus olhos se apaga e o mal funcionamento cessa, até ela não se mexer mais.
O rapaz ainda está distraído quando uma explosão é ouvida no final do corredor.
- Lá está ele!
Nathan se levanta e volta a correr. Os policiais avançam ferozmente, pisoteando a mulher-robô caída sobre o piso.
Ao chegar à porta de acesso às passarelas, vários policiais guardam a saída e olham para ele. Nathan está cercado. Voltando pelo caminho, ele entra em um apartamento e abre a janela. A vertiginosa altura o hipnotiza. Os policiais também invadem o apartamento e o rapaz não tem outra opção senão escalar o edifício.
Haviam grossas tubulações sob as passarelas. Ele tenta descer cuidadosamente pela parede até alcançar os tubos. Apesar de largos, muitos estão cobertos de limo e são escorregadios, tornando a caminhada perigosíssima. Nathan pula sobre os tubos e corre o mais rápido que pode, fugindo daqueles policiais. Então algo acontece.
Um furgão paira ao seu lado. Mirando o holofote, o veículo dispara um míssil, explodindo parte da tubulação e estremecendo tudo ao redor. O rapaz se desespera, não havia mais como fugir.
O furgão abre as portas e um homem aparece. Mirando seu fuzil para Nathan, o homem diz:
- Te peguei.
Sem ter para onde ir, o rapaz levanta suas mãos.
- Não atire! Eu me rendo.
Ainda apontando seu fuzil, o homem sorri.
- Você me deu um tremendo trabalho, hein rapaz?
Nathan pergunta:
- Quem é você?
- Detetive Burton. Vai desejar nunca ter me conhecido.
O detetive atira próximo de seu pé.
- Ei! Eu disse que me rendo!
O motorista do furgão chama o detetive e diz:
- Burton, você não acha que está exagerando? Destruindo patrimônio público, incapacitando propriedades particulares e atirando em um suspeito rendido. Você já o pegou, cara! Já chega!
- Ora, você não se meta nisso! Estou em um dia muito ruim.
Os ferimentos de Burton ainda não fecharam e sua nova perna biomecânica doía devido a operação.
O furgão se aproxima, os policiais se preparam para prendê-lo. Olhando para a tubulação, o rapaz vê que a explosão abriu um buraco no grosso tubo. Nathan se lembra de algo, aqueles tubos direcionavam a água pluvial para as estações de tratamento inferiores na metrópole. Se ele estiver certo, os tubos terminam em enormes efluentes abertos, dando-lhe uma chance de fugir.
O rapaz tenta argumentar:
- Eu sou inocente!
O detetive o interrompe:
- Eu não quero saber.
Sem ter outra opção, ele decide arriscar a sua vida. Pulando no buraco, ele cai na água e rapidamente é levado pela escuridão. Burton se explode em ira.
Os policiais não acreditam no que veem. Confusos, eles se entreolham enquanto Burton se descontrola chutando as laterais do veículo e gritando inúmeros palavrões.
Nathan é levado pelo fluxo, ele se escorrega pelo tubo escuro de um lado ao outro, lutando para não se afogar nas mudanças de direção. Sua suspeita estava certa, os tubos desembocavam em estações de tratamento, mas as piscinas de contenção eram profundas e conduziam a maiores galerias. Tentando segurar as paredes, ele se escorrega o tempo todo e seu corpo é levado mais longe pelas águas. Se ele não quisesse se afogar, ele tinha que se apressar.
Ao entrar por um túnel, a água o submerge e ele perde a consciência.

§

Nathan acorda. Tossindo forte e expelindo a água de seus pulmões, ele olha ao redor e vê uma paisagem cinzenta e escura. Luzes piscam pelos cantos e a água flui pelo pequeno canal poluído. Ao mexer suas mãos, seus dedos tocam um resíduo viscoso e ao mesmo tempo arenoso. Eram os detritos.
Ao longo do canal ele vê as grossas tubulações, ele teve sorte de não se afogar e sair vivo dali. Acima, as luzes estão rodeadas de mosquitos e os tubos industriais estão sujos e enferrujados, dando a impressão de serem muito velhos. Há lodo por toda parte, ele olha para os lados e vê telas com arames farpados.
O rapaz olha para cima e vê apenas a escuridão, era como se estivesse no fundo de um poço tão profundo que não era mais possível ver o céu. Ele ouve os sons abafados das máquinas operando ao longe, mas ao redor há apenas as espessas paredes de concreto e aço. O local era desconhecido e estava completamente deserto, com pouquíssimas luzes iluminando-o.
Passando pelas carcaças dos aerocarros, ele olha para cima e vê plataformas metálicas enferrujadas com o tempo. De repente um facho de laser se aproxima de seus pés e ele se assusta. Levantando sua cabeça, ele vê uma dúzia de pessoas paradas na escuridão. Alguém segura um rifle laser e aponta para seu rosto, ofuscando-o. Holofotes são ligados e então dois deles descem da plataforma, aproximando-se em seguida.
Nathan vê um homem e uma mulher. O homem veste camiseta regata preta e calça cinza larga, e ele também vê joelheiras, luvas e botas. Seu corte de cabelo é um moicano curto e ele porta uma mochila em suas costas, do tipo militar. A mulher se veste com um blusa amarela e luvas que vão até os cotovelos. Ela veste uma calça branca com botas até os joelhos e Nathan pode ver que seus cabelos são azuis. O rapaz se assusta, a mulher está portando uma espada katana.
O rapaz reconhece aquela vestimenta, aquelas roupas arrojadas e exóticas apenas lhe indicam uma coisa.
Aquelas pessoas eram Runners.