quarta-feira, 20 de abril de 2016

Não Há Mais Vida Em Mim






Não há mais vida em mim
Como pode ser isso?

Quem mais quer amor
Mais vive com rancor
Quem mais é pacífico
Mais vive perseguido

Quem mais quer dinheiro
Mais vive na pobreza
Quem mais quer saúde
Mais vive na doença

Quem mais quer amigos
Mais tem inimigos
Quem mais quer sucesso
Mais são malsucedidos

Quem mais quer alegria
Mais vive na tristeza
Quem mais quer ser forte
Mais vive na fraqueza

Quem mais quer rir
Mais vive chorando
Quem mais quer se divertir
Mais vive se irritando

Quem mais quer ser amado
Mais vive sendo odiado
Quem mais são os tolerantes
Mais vive cercados de ignorantes

Quem mais quer ir para frente
Mais vive indo para trás
Quem mais quer evoluir
Mais vive sem sair do lugar

Quem mais são os decididos
Mais vivem se justificando
Quem mais os são indecisos
Mais vivem se lamentando

Quem mais quer alimentos
Mais vivem famintos
Quem mais quer água para beber
Mais vivem desnutridos

Quem mais quer se casar
Mais vivem sozinhos
Quem mais são os fieis
Mais vivem sendo traídos

Quem mais tem potencial
Mais vive sem poder aplica-lo
Quem mais tem talento
Mais vive sem poder prova-lo

Quem mais quer se superar
Mais vive não conseguindo
Quem mais quer abundância
Mais vive empobrecido

Quem mais quer trabalhar
Mais vive desempregado
Quem mais quer estudar
Mais são os desqualificados

Quem mais quer o perdão
Menos são perdoados
Quem mais quer perdoar
Menos superam quando insultados

Quem mais quer descansar
Mais vive cansado
Quem mais quer se aquecer
Mais vive resfriado

Quem mais quer limpeza
Mais vive na sujeira
Quem mais são os esclarecidos
Mais vivem constrangidos

Quem mais são os sinceros
Mais são vistos com arrogância
Que mais são os honestos
Mais são tratados com desconfiança

Envelhecer, envelhecer e envelhecer
Não há nada que se possa fazer
Do mesmo jeito que entramos nessa vida cretina
Cavaremos nosso túmulo, nossa própria ruína

A vida destrói quem quer construí-la
Devora quem tem o melhor planejado
Mutila nossas aptidões e habilidades
Em seu apetite voraz por sonhos não realizados

A vida dificilmente pode melhorar
Mas facilmente pode piorar
E quando já estiver bem ruim
Ainda pior pode ficar

Vida de deficiência
Viva de intransigência
Não importa o que fazemos
O que mais queremos não temos

Nosso prazo é curto
A vida é o nosso juiz
Nada podemos escolher
Pois a decisão não é nossa para se fazer

E nos esforçamos tanto
Por tão pouco
E por quê?
Para quê?

Não há motivos para viver


sábado, 19 de março de 2016

Juntos Queimaremos Eternamente




Religião sempre foi muito forte em minha família
E em servidão entregamos as nossas primícias
Meus pais se orgulharam quando quis ser celibatário
E aos dezoito anos me mandaram para um seminário

O justo vive pela fé
Agradecemos a tudo o que Deus nos der
Se a castidade é o caminho para a santificação
À fé eu reservo o meu coração

Então ela vem
A garota visita o seminário
Em uma caravana de mercadores vendendo artesanatos

Eu estava na plantação quando a vi
Entre aquelas pessoas, simplesmente parada ali
O sentimento forte surgiu me causando ardência
Queimando meu peito, tomando minha consciência

Ela percebeu que eu a olhava
E em meus olhos soube o que minha boca não falava
Se aquilo era amor à primeira vista
Naquele momento soube que minha vida mudaria

Fiz um voto de castidade
Ajoelhado à cruz da mais altíssima Santidade
Jurei sempre me apartar das numerosas tentações
E com muita sabedoria controlar minhas emoções

Mas não consigo

“Estou confuso, padre!”
“Me ajude a conter esse desejo em meu peito”
“Que me tira da retidão das veredas do Senhor”
“E que engana minha mente, fazendo eu pensar que é amor”

Com muita autoridade
E um pouco de arrogância e vaidade
O padre me estende a mão para que eu a beije
E antes do sermão me ordena que eu ajoelhe

O padre me ameaça:
“A ti será cumprida a promessa para os pecadores”
“O castigo em um lugar de sofrimento, a casa das dores”
“Para aqueles que se abrasam na luxúria e na corrupção”
“Suas almas estarão eternamente perdidas no fogo da danação”

Cometi o pecado da concupiscência
O padre me recomenda uma penitência
Em meu quarto me aplico a punição
Orando e chorando enquanto me dilacero com a mão

Sangue espirra pelas feridas e cortes
Provocados pela inexorável fúria do chicote
Condenado por permitir que o amor crescesse em meu coração
E punido por me permitir que me aprofundasse nessa paixão

Passo noites e noites pensando nela
Sonho acordado olhando para a janela
Não consigo pensar direito e nem me concentrar
E na igreja não consigo mais orar ou louvar 

E quando será que ela volta?
Fico pensando quanto tempo será que isso demora
Passando de cidade em cidade que aparecer
Sozinha em suas carruagens, sem um homem para a proteger

E para a amar

Os outros seminaristas me detestam
Em seus olhos posso ver que me desprezam
Espalham boatos de que eu sucumbi às tentações
E que fui corrompido pelos vícios e as paixões

Certo dia eu estava trabalhando no lado de fora
Calmamente cuidando de uma pequena horta
E ao olhar casualmente para o lado
Vejo que a garota milagrosamente voltou ao seminário

Eu corro em sua direção
O suor em minha batina escorria por minhas mãos
Sem poder falar direito eu apenas exclamo
E totalmente sem jeito a digo “eu te amo”

Ela sorri
E apenas diz que ela deve partir
A caravana ia deixar aquela cidade
Mas de mim não queria sentir saudade

Eu estouro em euforia
E digo que a acompanharia
Mas me lembro que não posso partir
Pois meus votos me prendiam ali

“Então você deve fugir”
Foi a única coisa que ela respondeu
Antes de me beijar e me dizer adeus

Rapidamente volto ao meu quarto
Faço minhas malas e deixo o seminário
O padre aparece e me adverte com tremenda dureza
Que minha presença profanava a pureza da igreja

“Se você ir”
“Para ti os portões do Paraíso jamais irão se abrir”
“E sua alma será condenada ao tormento mais severo”
“Queimando eternamente no calor do tenebroso inferno”

Que assim seja

Alcançando-a pelo caminho eu a chamo
E ao me ver nos abraçamos e nos beijamos
Ela disse que sabia que eu viria
E eu respondo que sem mim ela jamais ficaria

Pelo gramado alto nós corremos
De mãos dadas, pelas flores que se curvam com o vento
Se o amor é um fogo que arde e não se sente
Então juntos queimaremos eternamente